Equilíbrio

Ex-pastor que pregava 'cura gay' é homossexual e diz: 'é uma farsa'

Arquivo pessoal
"O indivíduo gay sofre inutilmente", diz Sergio Viula, ex-pastor que já pregou a "cura gay" imagem: Arquivo pessoal

Yannik D'Elboux

Do UOL, no Rio de Janeiro

Se fosse mesmo possível escolher a orientação sexual, o professor de inglês, filósofo e teólogo Sergio Viula, 45 anos, do Rio de Janeiro (RJ), certamente teria conseguido manter sua vida como heterossexual. Esforços para isso não faltaram. Além de negar seus sentimentos homoafetivos durante muito tempo e buscar sua conversão na religião, ele foi um dos fundadores do Moses (Movimento pela Sexualidade Sadia), que pregava a "cura gay", assunto que foi tema do programa Lado Bi, na Rádio UOL, onde ele disse: "Eu era uma zebra pintada de branco".

Viula também foi casado com uma mulher por 14 anos, teve dois filhos e atuou como pastor batista por nove anos. Somente aos 34 anos criou coragem para escancarar sua homossexualidade de vez. Separou-se da mulher, abandonou a vida religiosa, tornou-se ateu e, depois disso, manteve um relacionamento com um homem durante sete anos. Apesar das críticas que recebeu de todos os lados, não se arrepende de ter feito as pazes consigo mesmo.

Ele conta sua história em detalhes no livro "Em Busca de Mim Mesmo" (edição do autor pela Livre Expressão) e mantém o blog "Fora do Armário". Em entrevista ao UOL Comportamento, Sergio Viula discorre abertamente sobre os dilemas que enfrentou até aceitar a própria homossexualidade e assumir que a "cura gay" não funciona.

UOL: Você se reconheceu gay com qual idade?

Sergio Viula: Acho que não posso dizer que me reconheci gay só quando saí do armário. Há 11 anos, disse que não dava mais para ficar casado. Mas desde os oito anos de idade já tinha sentimentos diferentes da maioria dos meninos. Olhava para Lauro Corona e Lídia Brondi na TV, mas não sentia carinho pela Lídia Brondi, achava ela uma gracinha, bonitinha, porém sentia um carinho especial pelo Lauro Corona. Era capaz de sonhar com ele. Mas eu não sabia o que era sexualidade ainda, não sabia o que era transar. O que era isso? Homoafetividade. É aquela afetividade que se lança naturalmente, sem forçar a barra, não existe abuso, nada exterior, ela naturalmente se lança para alguém do mesmo sexo. Mesmo sem nem estar pensando em sexo de fato. É inato, está dentro de você, não está sob seu controle, ainda que as decisões possam estar. Posso decidir, como qualquer homem, se eu vou fazer amor com "A" ou com "B". Mas não é possível alterar o desejo, do mesmo jeito que um heterossexual.

UOL: Então você já sabia desde a infância que era homossexual?

Viula: Isso foi problematizado para mim quando fui para escola, no jardim de infância. Comecei a ser rotulado. Os outros meninos já percebiam que eu era diferente deles. E era engraçado porque eu não tinha coisas de menina, não usava rosa. Mas eles sacavam. Era engraçado porque nenhum de nós ali sabia o que era sexo. Comecei a me perguntar o que tinha de errado comigo. Comecei a perceber que aquilo que eu sentia podia ser um problema para os outros. Foi quando passou a ser um problema para mim. E aí veio a rejeição, a auto-homofobia.

UOL: Quando você se converteu para a religião evangélica sua homossexualidade era algo que o incomodava?

Viula: Incomodava porque desde pequeno eu estava acostumado a ouvir dos meus pais e parentes que a homossexualidade era pecado. Cresci com esse medo. E pensava que tinha de mudar isso. Eu me perguntava se só eu era assim. A gente não tinha noção do que é a comunidade LGBT planetária. Hoje, a gente tem graças à internet. Eu ficava na dúvida: quem sou eu? E não tinha a quem recorrer. Uma vez uma psicóloga conversando comigo percebeu. Ela me falou que eu não tinha de ter vergonha de quem eu era, que aquilo que eu sentia era absolutamente normal, não tinha nada de errado e que eu precisava aprender a me aceitar. Ela pediu para conversar com a minha mãe, mas eu fiquei com medo. Disse que nunca mais ia voltar naquela psicóloga. A verdade é que eu estava fugindo de mim mesmo.

UOL: Foi essa fuga que o levou para a igreja? Você queria mudar isso?

Viula: Eu quis mudar. Você acaba sublimando certas coisas, achando que a conversão é um momento de mudança, em que as coisas dão uma reviravolta. Você pensa que passa a viver uma vida nova. Vem aquele papo evangélico que aquele que está em Cristo nova criatura é. Você acredita nisso. E eu passei a acreditar que podia casar e ser fiel à minha mulher e extrair da relação todo o gozo que precisasse e dar a ela a mesma coisa.

UOL: Mas você acreditava realmente na sua conversão de gay para hétero?

Viula: Eu acreditava. Essa foi a pior coisa que eu fiz. Eu queria nunca ter acreditado. Eu queria ter estado na igreja sem nunca acreditar de verdade. Porque em pouco tempo eu pularia fora. Mas, como eu acreditava, era capaz de tudo em nome da fé. Deixei um bom cargo em uma companhia de petróleo para fazer trabalho missionário.

UOL: E depois disso você virou pastor?

Viula: Sim, fui para o seminário teológico enquanto ia trabalhando como missionário. E fui pastor dos 25 anos 34 anos. Eu era duro na queda. Sofrendo, mas trabalhando. Fazia aconselhamento, evangelização, casamento, funeral, batismo. Ajudei a fundar o Moses (Movimento pela Sexualidade Sadia), em 1997, e o primeiro trabalho que a gente fez foi evangelizar durante a Parada Gay.

UOL: O Moses pregava a conversão?

Viula: Pregava a conversão [de homossexual para heterossexual] e cura. Eu acabava virando exemplo, mas levou um tempinho até eu começar a falar do meu passado. Muitas pessoas da igreja ficaram surpresas.

UOL: Sua mulher sabia que você tinha tido experiências homossexuais?

Viula: A minha mulher sabia porque eu tinha contado para ela quando me casei. Mas contei que havia superado. E ela acreditou, pois era tão crente quanto eu.

UOL: Se você acreditava na “cura gay” e fundou até um movimento para isso, como isso mudou?

Viula: O problema foi que ninguém mudou. Sei disso por que, como pastor, você fica no gabinete ouvindo tudo. Eles me falavam tudo. Ninguém mudava. Foram anos de trabalho e ninguém mudando. E um dia a vice-presidente do Moses me perguntou: que mudança é essa que a gente tanto fala e ninguém vive? Porque não vejo ninguém mudar. E eu respondi que me perguntava a mesma coisa.

UOL: Mas nesses anos todos de casamento você não saía com homens?

Viula: No começo não saía. Mas, depois, começou a ficar difícil. Porém com membros de igreja nunca aconteceu nada, eram como irmãos para mim. Mas fora aconteceu. Quando aconteceu a primeira vez fiquei muito balançado. Mas insistia na minha vida, achava que tinha errado, mas tinha conserto.

UOL: Você acreditava, então, que era uma escolha?

Viula: Eu acreditava ainda. Essa que é a tragédia do ser humano: acreditar que é uma escolha. Porque aí ele fica lutando contra uma coisa impossível de mudar. Imagine, por exemplo, se um cavalo acreditasse que pudesse pular de uma montanha e voar. Ele ia se estabacar. O cavalo se estabaca uma vez só. Mas a gente se estabaca várias vezes nessa situação ou vive na falsidade.

UOL: O que você fez quando percebeu que não conseguia mais levar uma vida como hétero?

Viula: Percebi que tinha algo errado, que não estava funcionando e que precisava falar com alguém. E eu falei. A pessoa com quem falei jurava que era uma coisa passageira, que eu era uma pessoa de Deus, que isso era visível no meu trabalho, e que isso era apenas um deslize, que eu devia seguir em frente.

UOL: O que aconteceu de novo para você resolver sair de uma vez por todas do armário?

Viula: A gota d'água foi uma viagem para Singapura, em um treinamento de liderança religiosa. Uma tarde, saí e rolou uma paquera em um shopping. Ficamos juntos e foi maravilhoso. Parecia que eu estava no céu. Eu estava reencontrando comigo. Porém, no dia seguinte, eu tinha sido escolhido para fazer o discurso de encerramento do meu grupo. E eu estava em frangalhos, porque estava feliz da vida por tudo que tinha acontecido com aquele homem, mas arrasado porque as pessoas que confiaram em mim pensavam que eu estava lá muito bem, cercado do espírito santo. Ali, "caiu a ficha".

UOL: O que você fez?

Viula: Decidi falar com minha mulher, mas ainda demorei um pouco. Em 2002, falei. Ela não quis se separar. Acreditava que a gente tinha uma chance, que Deus podia fazer uma mudança, porque a gente tinha uma vida construída há 14 anos. Ficamos dois anos tentando. Em 2004, disse chega. Não mudou nada. Abri o jogo, saí do armário e escancarei tudo. Dei uma entrevista para uma revista, denunciei essa coisa de ministério de cura. Denunciei essa farsa e comecei minha militância. 

UOL: Você rompeu com tudo de uma vez: com o casamento e a igreja?

Viula: Rompi. Passei a viver minha vida, minha verdade, porém nunca esquecendo dos meus filhos. A única coisa que eu preservei foram meus filhos.

UOL: Como foi esse rompimento para sua família?

Viula: Foi muito doloroso. Meus pais não entendiam nada, me criticavam. Minha ex-mulher chorava, se sentia traída porque não fui fiel até a morte, como havia prometido. Concordo. Mas eu também me senti traído por um monte de coisas que acreditei e por um monte de gente que falou tanta besteira que levei a sério. Porém fui honesto para acabar com isso. Tem gente que vive essa farsa para o resto da vida. Eu fui fiel à minha fé enquanto acreditei nisso. Quando vi que era bobagem, perda de tempo, fui fiel a mim mesmo. Abri o jogo e falei.

UOL: Como ficou sua vida?

Viula: Fui viver livremente, conheci outras pessoas, tive alguns namorados. Até que conheci meu ex-marido, com quem fiquei por sete anos.

UOL: E como você se sentiu depois disso tudo?

Viula: Eu me senti livre, absolutamente livre. Parecia que um peso havia saído de cima de mim, que eu podia flutuar. Porque a força que eu fazia para ficar em pé, embaixo daquele peso todo, era tão grande que, sem o peso, parecia que eu podia voar. Era uma coisa maravilhosa, como se eu tivesse nascido de novo.

UOL: Você ficou mais feliz?

Viula: Muito mais feliz. A dor que eu passei da rejeição foi terrível, mas o prazer do encontro comigo mesmo não tinha preço. Pensei assim: posso perder todo mundo, com exceção dos meus filhos. Eu nunca mais vou sofrer o que sofri por 34 anos para agradar os outros.

UOL: Como os seus filhos encararam a verdade sobre a sua sexualidade?

Viula: Meus filhos desde cedo nunca tiveram nenhum problema com isso. Minha filha desde os 12 anos já sabia, meu filho de 11 para 12 me perguntou já sabendo. E nunca demonstraram nenhuma rejeição. Traziam amigos em casa. Minha filha fala para os colegas de trabalho que o pai é gay.

UOL: Você está convicto que ser gay não é uma escolha?

Viula: Isso é algo que não muda. Ou você sai do armário e paga o preço de enfrentar todo mundo e viver mais feliz ou fica no armário e também paga o preço, que é mais alto, de ficar fingindo pra todo mundo, se escondendo o tempo todo e vivendo duplamente. Não tem saída. Para as mulheres, é a pior coisa que pode acontecer: um marido gay que vive duplamente. Ela pode ser fiel e se colocar em risco. E não é porque ele seja gay que ela corre risco, é porque ele não é fiel. Ele nunca vai ficar satisfeito só com ela, já tem muito mais chances de traí-la. Mas tem gente que faz vista grossa.

UOL: Pela sua experiência, o que você acha do trabalho das igrejas que insistem na conversão?

Viula: Elas prestam um desserviço. Primeiro, o gay sofre inutilmente. E quanto mais sofre, mais reforça a ideia de que não tem valor, que é um pecador inveterado. Segundo, ele não constrói uma vida, uma biografia de acordo consigo mesmo. Ele tenta agradar os outros e uma hora isso rui e ele tem que reconstruir tudo como eu, que não levei de casa nem um garfo, tive de recomeçar tudo do zero. Ou então ele fica naquela situação porque parece mais confortável do que se arriscar em uma vida independente. Tem gente que é covarde pra isso. A pessoa não tem a alegria de se realizar no que deseja, tudo passa a ser um dever. É um dever casar, ter filhos, e isso tem um peso absurdo. O que mais me preocupa é a criança, com oito, dez anos, e o adolescente, que são chantageados vergonhosamente por pessoas que deviam ser seus protetores. Isso cria uma série de transtornos, medos, fobias. Isso é ignorância. Porém essa ignorância custa um preço muito alto.

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