Relacionamento

Ideia de que felicidade depende de relação amorosa é falsa

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Colocar no relacionamento amoroso todo o peso da felicidade causa frustração imagem: Getty Images

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

 

Quando o compositor Tom Jobim escreveu um de seus maiores sucessos, "Wave", ele cometeu um engano ao afirmar: "Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho". A frase é considerada verdade absoluta para os que acreditam na realização pessoal apenas quando estão envolvidas em um relacionamento amoroso. Mas a realidade não é essa. 

De acordo com Mara Lúcia Madureira, psicóloga cognitivo-comportamental, a ideia de que a relação amorosa é essencial para a felicidade é resultado da cultura patriarcal e machista --cujos conceitos ainda não foram totalmente extintos-- e não uma necessidade do ser humano.

"Infelizmente, as pessoas demoram muito para se dar conta de que ser feliz tem muito mais a ver com realizações pessoais e bem-estar do que com o amor a dois, que nem sempre é satisfatório", fala.

A crença de que homens precisavam de uma mulher para tarefas domésticas e perpetuar o sobrenome, e elas de um parceiro para lhes assegurar a sobrevivência fora da casa dos pais, fez crescer a teoria de que apenas com uma família constituída e, consequentemente, um par amoroso, é possível ter realização.

Esse mesmo pensamento também impede que pares do mesmo sexo ainda não sejam encaradas como família, pois não haveria como homossexuais cumprirem os papéis estabelecidos como corretos.

"Ainda permanece um modelo onde o relacionamento a dois é o ideal. Tudo isso pode ser fruto da educação ou de crescer em um lar com pais casados, por exemplo. Mas as pessoas erram ao considerar que toda a felicidade se resume a isso, pois não é regra e, por isso, não é para todos", diz Miriam Barros, psicoterapeuta pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

A sociedade avançou: agora, homens sabem que são capazes de administrar seus lares sozinhos e mulheres conquistaram o direito de decidir se querem um, nenhum ou vários pares amorosos e sexuais. Por isso, para os que acreditam que a felicidade está sempre atrelada a uma outra pessoa, fica o alerta de que a situação pode se tornar um problema no futuro.

"A chance de ser feliz não varia de acordo com o estado civil. Negar que você é o único responsável pela sua felicidade o leva a depender equivocadamente do outro. Pessoas que pensam assim creem que se tivessem alguém para amar e ser amadas, todas as dores e os medos se dissipariam. Assim, perseguem esse objetivo e, quando o alcançam, costumam culpar o parceiro por toda sua infelicidade", explica Mara.

Segundo a especialista, o medo da solidão é a principal motivação para buscar um relacionamento a qualquer preço. "A sensação de desamparo faz muitas pessoas manterem relações insatisfatórias por temer que, de outro modo, a situação se torne ainda pior. Trata-se uma crença disfuncional, porém comum e alienante”. E diz ainda: “Um estado crônico de frustração, perda do interesse sexual, abuso de drogas e estresse podem acometer esses indivíduos que esperavam que um par os completassem".

A psicoterapeuta pela USP (Universidade de São Paulo) Maria Melo de Azevedo concorda que fazer do amor a dois o principal pilar da felicidade pode deixar as pessoas acorrentadas a relacionamentos fracassados e torná-las amargas.

"Ser feliz não deve depender de nada externo. Muitos têm parceiros e estão adoecendo por não serem felizes de fato. Quando o relacionamento existe, deve ser prazeroso. É preciso amar a si mesmo, antes de qualquer coisa", afirma.

E se você tem alguma dificuldade para ficar bem sozinho, o primeiro passo é descobrir o que o alegra. "Há outros relacionamentos que também são fonte de afeto e substituem o amoroso --muitas vezes, bem mais gratificantes. Todos temos de ter amigos e convívio com outras pessoas. A solidão não é boa para ninguém. O ser humano sempre precisa de companhia, mas não necessariamente de um relacionamento amoroso", finaliza Miriam Barros.

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