Vida no trabalho

Homofobia no trabalho sempre existiu, mas isso está mudando

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Empresas já enxergam vantagens em existir diversidade entre os funcionários imagem: Getty Images

Rita Trevisan e Suzel Tunes

Do UOL, em São Paulo

O antropólogo Luiz Mott, professor titular aposentado da UFBA (Universidade Federal da Bahia), conta que já foi vítima de preconceito quando seu nome foi cotado para um cargo de chefia. Ele não ouviu diretamente a crítica, que associava sua competência para assumir a função à sua orientação sexual.

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Acontece que, tal como muitas ações de discriminação contra homossexuais no ambiente de trabalho, o comentário foi feito pelas costas. "Tomei satisfação com o colega, mas ele negou", diz Mott.

Em 32 anos de vida acadêmica, essa foi a única ocasião em que se sentiu discriminado. Em 1988, ele já incluía seu companheiro como dependente do plano de saúde da universidade –um benefício que, para muitos casais, só viria em 2011, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) aprovou o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como "entidade familiar".

Contudo, como presidente de honra e fundador do Grupo Gay da Bahia, Mott recebe inúmeras denúncias de discriminação a homossexuais no mercado de trabalho. "A discriminação pode ocorrer já na seleção, quando candidatos mais efeminados ou transexuais são excluídos. E, mesmo quando são contratados, muitos LGBT (sigla para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) são obrigados a esconder sua identidade homossexual", relata.

A psicóloga Eleusa Gallo Rosenburg, que pesquisa Políticas Públicas em Saúde Sexual e Reprodutiva em seu pós-doutorado na UFU (Universidade Federal de Uberlândia), constatou essa realidade ao entrevistar 539 participantes da Parada do Orgulho Gay em sua cidade, em 2012. Cerca de 20% dos gays e 40% dos travestis entrevistados disseram ter sido rejeitados em processos de seleção ou demitidos do trabalho por causa da orientação sexual

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"Parece estranho, pois o universo do trabalho lida, no seu cotidiano, com a vida pública das pessoas. Portanto, não deveria haver impacto, na esfera profissional, do que o indivíduo faz ou não na vida privada. Mas, na prática, a orientação sexual interfere, sim, na contratação e na permanência de muitas pessoas no emprego", afirma a pesquisadora.

As diferentes formas de discriminação

Em 2010, os psicólogos Agnaldo Garcia e Eloísio Moulin de Souza, professores da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), realizaram uma pesquisa sobre a discriminação de homossexuais masculinos em uma instituição bancária privada e em duas públicas. Eles constataram que a discriminação direta era mais intensa no banco privado.

"Nos públicos, o ingresso é garantido por concurso, o que protege o candidato de qualquer julgamento além do resultado da prova", destaca Eloisio de Souza. Por outro lado, isso não significa a inexistência de preconceito em nenhum dos setores.

Segundo a pesquisa, a discriminação apresenta-se no ambiente de trabalho, principalmente, por meio de piadas pejorativas sobre homossexuais, mas também pode ocorrer de o funcionário ser isolado e ter um acesso restrito a clientes e outros colegas. O estudo também mostrou a oferta de condições de trabalho inferiores às disponibilizadas para os demais empregados, entre outros problemas sofridos pelos homossexuais.

Sair ou não do armário?

Organizações militantes como o Grupo Gay da Bahia, fundado há 35 anos, incentivam as pessoas a "saírem do armário", ou seja, a assumirem a sua verdadeira orientação sexual. “Mas cada um deve avaliar o melhor momento para se assumir, para evitar consequências negativas para sua vida pessoal e profissional", afirma Luiz Mott.

"Também aconselhamos que o LGBT procure manter relação amigável com colegas e chefes pois, se for discriminado, poderá contar com a solidariedade dessas pessoas", diz o antropólogo.

Para o psicólogo Eloisio Moulin de Souza, a afirmação da identidade sexual pode trazer conforto psicológico, desde que a pessoa não se sinta pressionada a tomar a atitude de modo precipitado.

Ele considera a questão controversa: "A obrigação de ‘sair do armário’ pode ser uma forma indireta de reafirmar a discriminação. Não se cobra do hétero que ele afirme sua identidade sexual. Quando o gay tem obrigação de falar que é gay é como se, indiretamente, ele assumisse que a heterossexualidade é o padrão 'normal', do qual ele está fora”, afirma Souza.

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Iniciativas a favor da inclusão

Eliminar a homofobia no ambiente profissional tem sido um dos desafios da OIT (Organização Internacional do Trabalho), agência das Nações Unidas que tem por missão defender os direitos dos trabalhadores. Com esse propósito, a OIT tem realizado uma série de ações e obtido algumas conquistas.

Em outubro de 2014, em parceria com a Enamat (Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados do Trabalho), a OIT promoveu um curso para magistrados sobre discriminação no trabalho e os direitos das pessoas LGBT.

Segundo Thais Faria, oficial de programação do escritório da OIT no Brasil, a Enamat não poupou esforços para mobilizar juízes de todo o país, que se reuniram em Brasília para uma semana de estudos e discussões sobre a promoção da igualdade de oportunidades e o combate à discriminação.

"É importante ressaltar o alto interesse demonstrado pelos participantes e a real aplicação dos conteúdos discutidos na prática. Temos recebido algumas decisões de juízes e juízas que utilizaram o material do curso para aprimorar a fundamentação de suas sentenças ou encontrar caminhos de garantia ampla dos direitos de pessoas discriminadas por quaisquer razões, inclusive pela orientação sexual ou identidade de gênero", afirma.

Ainda em 2014, a OIT, o PNUD (Programa das Na

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Diversidade é vantagem competitiva

O evento de lançamento do manual, no dia 30 de setembro de 2014, foi realizado no Instituto Carrefour, que também foi o local de realização da 8ª reunião do Fórum de Empresas e Direitos LGBT, no dia 10 de dezembro.

Criado em 2013, o fórum reuniu um grupo de empresas comprometidas a influenciar o meio empresarial e a sociedade na adoção de práticas de respeito aos direitos LGBT. Dele, fazem parte grandes empresas como IBM, P&G, Accenture, BASF, Caixa, GE, DuPont, Dow, Pfizer e Monsanto, entre outras. "Começamos como um grupo de 11 empresas e, na última reunião, já havia 80 integrantes", informa o representante da Dow no fórum Tlacaelel Benavides.

Benavides diz que o código de diversidade e inclusão da empresa “não é negociável”, devendo ser seguido por todos os funcionários, que, periodicamente, participam de treinamentos e palestras sobre o tema. Graças às ações de inclusão –não apenas da pessoa LGBT mas, também, de mulheres, negros e pessoas com deficiência– a empresa foi reconhecida pelo Governo do Estado de São Paulo com o “Selo Paulista de Diversidade”, certificação criada em 2007.

Segundo Thaís Faria, da OIT, os empresários estão reconhecendo que ter em seus quadros pessoas que representem a diversidade social também dá à empresa maiores possibilidades de atingir públicos diversos. “Se o grupo de trabalhadores tiver as mesmas características, as inovações propostas serão limitadas. Quanto mais um local de trabalho refletir a diversidade humana, mais seu produto ou serviço estará próximo da sociedade. “Diversidade é vantagem competitiva”, afirma o executivo da Dow.

Thaís Faria diz que quanto mais o trabalhador se sentir acolhido, maior será a sua produtividade no trabalho. “A promoção da igualdade assegura vantagens para todas as partes, empregadores, trabalhadores e sociedade”, declara. 

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