Equilíbrio

Casal de 'Babilônia' sofre triplo preconceito: são idosas, mulheres e gays

Reprodução/TV Globo
Cena entre Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) foi ao ar no primeiro capítulo de "Babilônia" imagem: Reprodução/TV Globo

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

“Não posso acreditar que ainda se espantem com a homossexualidade". A frase da atriz Fernanda Montenegro foi dita à revista "Contigo!" da última semana e exprime o pensamento dos que não concordam com a reação negativa ao casal interpretado por ela e Nathalia Timberg, Teresa e Estela, respectivamente, na novela “Babilônia”, da Globo.

Logo no primeiro capítulo (16/3/2015), o beijo entre as atrizes de 85 anos causou revolta e a Frente Parlamentar em Defesa da Família Brasileira articulou um boicote à trama das 21h. Na quinta-feira (19), uma nota de repúdio a Fernanda e Nathalia foi publicada pela Frente Parlamentar Evangélica:

“A referida telenovela, assim como outras anteriormente exibidas pela Rede Globo tem clara intenção de afrontar os cristãos em suas convicções e princípios, querendo trazer, de forma impositiva, para quase toda a sociedade brasileira, o modismo denominado por eles de ‘outra forma de amar’, contrariando nossos costumes, usos e tradições”, diz trecho do texto assinado pelo deputado João Campos (PSDB-GO).

A opinião de Irina Karla, coordenadora-geral da Ouvidoria Nacional da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, é contrária aos críticos de “Babilônia”. De acordo com a ativista, o problema dos que se apoiam no fundamentalismo religioso para fazer campanha negativa contra a trama é a disputa de poder ao tratar de um assunto que está em pauta o tempo todo por colocar em discussão a constituição da família conservadora, tão defendida por eles.

"Esse determinado grupo não consegue entender que, ao incluir o amor pelo mesmo sexo como família, não excluímos os heterossexuais. Você pode reparar que são os mesmos que se colocam contra os direitos às cotas para negros em universidades, por exemplo. Incluir um não significa excluir o outro. Mas romper paradigmas é assim, você coloca pessoas em disputa. Parte da sociedade não consegue aceitar o avanço do país e que os casais homossexuais têm a mesma legitimidade que os heteros", declara.

O antropólogo Sergio Luis Carrara, professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e coordenador do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos, acredita que representar o amor homossexual por meio de duas atrizes respeitadas e reconhecidas, como Fernanda e Nathalia, tornou o casal ainda mais “insuportável” do que outros já vividos na televisão brasileira.

Para Carrara, há um motivo para que as últimas três novelas das 21h, que tiveram histórias homoafetivas contadas –Cláudio (José Mayer) e Leonardo (Kleber Tolero) em “Império” (2014); Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller) em “Em Família” (2014) e Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) em “Amor à Vida” (2013)–, não tenham causado tanto furor.

“Essa novela coloca a homossexualidade em um plano de respeitabilidade, o que as outras não fizeram. Pela escolha das atrizes, pela trama na qual elas estão inseridas, pela relação estável, por criarem um rapaz e serem profissionais de sucesso. Isso é intragável pra quem considera ainda o amor pelo mesmo sexo pecado e perversão”, afirma.

“Aos que veem a sexualidade como uma ameaça, quanto mais visibilidade positiva sobre a questão, mais discursos conversadores e protestos surgirão. Mas penso que esses grupos são minoritários, diante do ponto de vista da opinião pública e das últimas decisões da justiça –como o direito a pensão após a separação de casais homossexuais, reconhecido no início de março deste ano”, fala.


Triplo preconceito

Apesar de achar que o momento do país em relação às discussões políticas e comportamentais estão a pleno vapor –e isso é o que mais coopera para que o caso da novela gere polêmica–, Irina não deixa de citar o preconceito com forte incentivador.

"Tudo é potencializado pela discriminação. Pessoas idosas perdem o direito de expressar seu amor, o direito à convivência afetiva e sexual, ainda mais associado a um casal do mesmo sexo", fala.

Yone Lindgren, coordenadora geral do Movimento D'ellas – Mulheres homoafetivas no combate a toda e qualquer forma de discriminação e violência e da ABL (Articulação Brasileira de Lésbicas), conta que começou a sentir o duplo preconceito social quando chegou aos 40 anos. Hoje, com 58 anos e com uma parceria de um ano com uma mulher de 62, ela diz que no próprio movimento social no qual atua já ouviu que era “hora de parar” e dar atenção aos filhos e netos.

"Já ouvi coisas do tipo: 'ridículo duas velhas se beijando no meio da rua', quando deixei minha companheira para pegar o ônibus", conta ela, que luta pelos direitos dos homossexuais há mais de 30 anos.

Segundo Yone, o que mais deve estar incomodando no casal de “Babilônia”, além da homossexualidade, é o fato de serem duas mulheres bem-sucedidas, com bom poder aquisitivo e abertas ao convívio familiar.

“Elas não são representam o estereótipo da lésbica, aquela com roupas e trejeitos masculinizados, por exemplo. São pessoas que não estão no armário, têm amigos e familiares por perto, trabalham... Personagens que fogem aos padrões normativos fazem os preconceitos aflorarem”, afirma.

A ouvidora dos direitos humanos da Presidência da República, Irina, acrescenta ao caso de Teresa e Estela o fato de retratarem o amor feminino. Ela compara a repercussão do casal de "Babilônia" ao de "Amor à Vida", dos personagens Félix e Niko.

"Também existe um preconceito de gênero. Mulheres têm mais dificuldade para se manifestar no espaço público. Apesar de já ter havido um progresso, ainda existem problemas. No romance entre os rapazes, mesmo os que eram contra o beijo no último capítulo passaram a torcer por eles no final, por conta da trajetória do casal. O amor fez o vilão mudar e isso deixou o público favorável a eles", exemplifica.

Para Sérgio Luis Carrara, a observação de Irina faz sentido, pois a figura masculina sempre esteve mais conectada à homossexualidade. “Além de tudo, as atrizes têm uma imagem pública muito importante e o casal está sendo reatratado na novela como uma experiência comum, que pode ser tão boa como qualquer outra”. 

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