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Reclamar menos é desafio que compensa; conheça estratégias

Arquivo Pessoal
Belisa demorou quatro meses até conseguir ficar 21 dias seguidos sem reclamar imagem: Arquivo Pessoal

Yannik D´Elboux

Do UOL, no Rio de Janeiro

 

O ato de reclamar como forma de protestar, exigir e reivindicar mudanças é positivo. O problema surge quando as reclamações viram rotina e se transformam em queixas inúteis. “A reclamação estéril, que não provoca mudança, não serve para nada”, diz a psicóloga Camila Cury, diretora geral do Cepise (Centro de Estudos e Pesquisas da Inteligência e da Saúde Emocional), mantido pelo Grupo Educacional Augusto Cury.

Para Camila, o comportamento como forma de expressar insatisfação e corrigir rotas não pode ser encarado como ruim. “O problema não está na reclamação em si, mas no excesso.” As pessoas habituadas a se queixarem o tempo todo lamentam-se por qualquer coisa, do clima ao emprego, e veem sempre o lado negativo das situações.

Na opinião do americano Will Bowen, autor do livro “Pare de Reclamar e Concentre-se nas Coisas Boas” (Editora Sextante), essa atitude afasta as pessoas da felicidade. “Reclamando sobre suas vidas, elas se concentram no que está errado em vez de abrir a mente para possíveis soluções”, afirma.

Segundo Bowen, criador da ONG Um Mundo Livre de Reclamações e de um desafio de 21 dias de mudança de consciência, em média, as pessoas reclamam de 15 a 30 vezes por dia, muitas vezes sem perceber.

O escritor faz uma comparação interessante. “Pense no reclamar como sendo mau hálito. Percebemos quando vem da boca de outra pessoa, mas não quando vem da nossa”, diz.

Na prática

Há cinco anos, depois da leitura do livro de Will Bowen, a jornalista Belisa Rotondi, 28, de São Paulo, resolveu experimentar o desafio de ficar 21 dias sem reclamar.

Belisa conta que o processo a deixou mais calma, feliz e otimista. Com os amigos e as pessoas que encontrava no dia a dia, no início, foi difícil não permanecer introspectiva, pois os diálogos que começavam com uma reclamação eram frequentes. Porém, a jornalista logo notou a vantagem de se relacionar de outra forma.

“As conversas não baseadas nas reclamações são muito mais interessantes e dão oportunidade de conhecer o lado bom do que o outro faz, pensa e acredita”, afirma.

Benefícios de parar

Usar a reclamação como desculpa para uma performance ruim, culpando as circunstâncias, por exemplo, e para se livrar de alguma responsabilidade também é um ato comum entre aqueles que preferem apontar para os outros em vez de olharem para si.

“Falta nas pessoas que reclamam demais um pouco de consciência crítica para si mesmas”, declara Camila Cury. Segundo a psicóloga, esses indivíduos tendem a ser mais passivos e a adoecer, com maior frequência, de problemas como depressão e transtorno obsessivo compulsivo.

De acordo com Joana Singer, professora e diretora do Núcleo Paradigma --centro de pesquisa, ensino e assistência, voltado à análise do comportamento--, localizado em São Paulo, pessoas pouco assertivas e com dificuldade de tomar iniciativas costumam se queixar mais da vida. “Elas esperam que a reclamação produza a mudança”, fala.

Parar de reclamar ou, pelo menos, fazer isso com menor regularidade traz benefícios imediatos para quem toma a atitude e para aqueles que estão ao redor.

Camila Cury diz que, reclamando menos, sobra mais energia para reagir. “Aumenta a motivação, desestressa o cérebro, consequentemente melhora o sono, a vida fica mais tranquila e alegre.”

Dicas e estratégias

Não costuma ser nada fácil parar de reclamar, sobretudo quando se torna um hábito. Belisa Rotondi demorou uma semana para conseguir ficar um único dia sem se queixar de nada. E completou o desafio dos 21 dias em quatro meses, já que a contagem zera cada vez que a pessoa reclama. Ela diz ter ficado assustada com a quantidade de queixas diárias.

“Eram situações pequenas, sem importância, que, no fundo, só incentivavam outras pessoas a reclamarem também, como um efeito dominó”, declara a jornalista.

Will Bowen, autor do desafio, fala que inventou uma técnica bastante simples para as pessoas conseguirem tomar consciência de suas reclamações e mudarem o hábito. “Sugiro o uso de uma pulseira. Você a coloca em qualquer um dos pulsos e, cada vez que reclamar, muda o acessório para o outro pulso. O objetivo é ficar 21 dias seguidos sem reclamar.”

Apesar de não ser fácil, abandonar a posição de “reclamão” produz benefícios que motivam a pessoa a continuar no processo de mudança, segundo Camila Cury. A psicóloga também afirma que ser mais grato facilita a transformação. “A gratidão é o antídoto da reclamação. Ajuda fazer de três a quatro agradecimentos por dia.”

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