Comportamento

Antecipar compulsivamente tarefas é tão ruim quanto adiá-las

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O precrastinador busca razões para antecipar até mesmo o que não é necessário imagem: Getty Images

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

Imagine que você deve escolher entre dois baldes cheios de moedas e levar um deles até determinado ponto. Um está próximo a você, e o outro, perto da linha de chegada. Qual você escolheria? Se escolheu o que estava ao seu lado, você deve ser um precrastinador, mesmo que nunca tenha ouvido essa palavra na vida.

O termo se refere à tendência de completar tarefas, ou ao menos começá-las, o mais rápido possível, mesmo que isso exija mais esforço. A palavra foi criada por pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, que publicaram um estudo sobre o tema na revista “Psychological Science”, em julho de 2014.

Os estudiosos David Rosenbaum, Lanyun Gong e Cory Adam Potts fizeram o teste dos baldes com 27 estudantes universitários. Para a surpresa deles, a maioria escolheu o balde mais próximo de si, o que significa que o peso foi carregado por mais tempo. Como resposta, os estudantes disseram que queriam se livrar logo da tarefa.

No Brasil, 68% das pessoas também têm a tendência de executar tarefas antes do prazo como forma de se livrar delas, segundo pesquisa realizada com mil participantes, entre 22 e 55 anos, das cidades de São Paulo e Porto Alegre, e apresentada pela ISMA-BR (International Stress Management Association no Brasil) no congresso da Associação Mundial de Psiquiatria, em 2013.


Enquanto o procrastinador busca desculpas para não cumprir as tarefas, o precrastinador busca razões para antecipar até mesmo o que não é necessário, na ânsia de se livrar e de querer lidar com uma situação futura”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-BR e copresidente da Divisão de Saúde Ocupacional da Associação Mundial de Psiquiatria.

Alto nível de estresse

Segundo Ana Maria, adiantar tarefas pode ser saudável, desde que não prejudique a qualidade do trabalho ou o equilíbrio emocional da pessoa. Mas, como o precrastinador tende a ser muito mais ansioso do que o procrastinador --este sofre mais com o sentimento de culpa e a angústia por não ter feito o que deveria--, é comum que ele conviva com um alto nível de estresse.

Para o psicólogo Armando Ribeiro, especializado em gestão de estresse pela Harvard Medical School e coordenador do programa de avaliação de estresse do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, o precrastinador tem esse comportamento como uma forma de aliviar, ainda que de forma passageira, a ansiedade.

“São pessoas que acreditam que, se resolverem tudo logo, se sentirão melhor. Há um sentimento de prazer ao concluir uma lista de afazeres, mas o alívio é passageiro. Logo haverá um novo trabalho e os níveis de ansiedade subirão novamente”, diz Ribeiro.

Segundo o psicólogo, a precrastinação faz todo o sentido na sociedade atual, que estimula desde muito cedo a proatividade. “Para o chefe ou para a empresa na qual o precrastinador trabalha, ele é excelente, o perfil de funcionário exemplar. A sociedade premia e valoriza esse comportamento, mas quem sofre é a pessoa”, afirma.

De acordo com ele, a precrastinação pode levar ao aumento da ansiedade e causar problemas físicos e psicológicos. “Se tudo é prioridade, ficamos sobrecarregados. O corpo passa a produzir muito os hormônios cortisol e adrenalina e entra em desequilíbrio. Com o passar do tempo, além de apresentar insônia, impaciência e intolerância, podem surgir problemas gastrintestinais, dores de cabeça e taquicardia”, afirma.

Ideias aceleradas

Para o psicólogo Armando Ribeiro, outro problema que tem relação com a precrastinação é a síndrome do pensamento acelerado, que faz com que a pessoa tenha dificuldade de pensar com clareza.

“A mente tenta funcionar no ritmo da comunicação digital, que é incessante, e nos tornamos reativos às coisas. Se vimos um e-mail, respondemos. Se ouvimos o barulho do celular, paramos tudo para responder. Não se consegue estabelecer prioridades, tudo é importante”, diz.

Mesmo sendo valorizado no mercado de trabalho, o comportamento do precrastinador pode ser prejudicial não só para ele, como para toda a equipe.

“Pessoas assim criam um clima de ansiedade na empresa, de urgência. Se for um gestor, isso se agrava, pois ele pode criar uma equipe pouco flexível diante de imprevistos”, afirma a professora Renata Magliocca, do Progep (Programa de Estudos em Gestão de Pessoas) da FIA-USP (Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo).

Como encontrar o equilíbrio

Diferentemente do procrastinador, que é lembrado e julgado por seu comportamento o tempo todo, o precrastinador dificilmente será confrontado. Segundo Ribeiro, é muito difícil que ele reconheça que está excedendo em seu comportamento. Mas há como notar que algo está errado.

“Se você não está entregando o que é importante no trabalho e tem ficado ansioso, é importante se questionar”, afirma Renata. Se você se identificou com esse tipo de comportamento ao ler esta reportagem, não se desespere: algumas atitudes simples podem ajudá-lo a agir de forma mais equilibrada na vida profissional e pessoal.

1 - Estabeleça prioridades reais

No trabalho, o indivíduo pode checar com o chefe se aquilo que definiu como algo a ser feito imediatamente é mesmo urgente.

2 - Faça pausas

A cada uma hora, o ideal é parar, se alongar, respirar profundamente e, se possível, dar uma rápida caminhada. Não adianta fazer a pausa para o café, porque a cafeína é um estimulante e não irá ajudar. Tome um chá, um suco ou uma água.

3 - Pense no presente

Uma sugestão é adotar o “mindfulness”, um conjunto de técnicas meditativas que ajudam a pessoa a viver no momento presente. Práticas de relaxamento também podem ajudar, como exercícios de respiração abdominal.

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