Comportamento

Morte de Bobbi Kristina expõe a influência dos pais na conduta dos filhos

Divulgação
Whitney Houston e a filha Bobbi Kristina Brown, em fevereiro de 2011 imagem: Divulgação

Marina Oliveira e Suzel Tunes

Do UOL, em São Paulo


Na noite do dia 26 de julho, Bobbi Kristina Brown, filha da cantora Whitney Houston, morreu. Ela estava em coma desde o dia 31 de janeiro, quando foi encontrada inconsciente na banheira da casa onde morava. A morte trágica de uma jovem de 22 anos ecoou outro evento igualmente terrível: três anos antes, Whitney Houston estava morta em uma banheira de hotel.

A necropsia de Whitney apontou que ela foi vítima de afogamento acidental. Segundo o relatório oficial, divulgado em março de 2012, o consumo de cocaína na noite de sua morte, somado a problemas cardíacos, contribuiu para o óbito. No caso de Bobbi, ainda não se sabe a causa da morte. Porém, o site norte-americano "TMZ" afirma que ela era usuária de drogas desde meados de 2007, ainda aos 14 anos.  Além disso, circulam pela internet fotos em que Bobbi está, aparentemente, usando cocaína --o que reforça a repetição da história vivida pela mãe.

A jovem cresceu no centro das atenções que envolviam os artistas Whitney Houston e Bobby Brown, seu pai, um reconhecido cantor de soul. Brown também era famoso pelo estilo “bad boy” e por seu envolvimento com drogas. Whitney Houston chegou a declarar para a apresentadora Oprah Winfrey, em 2009, que consumia maconha e cocaína com o marido. Eles se separaram em 2007, após 15 anos de um casamento marcado por escândalos de traição, violência doméstica e abuso de drogas e álcool.

Os fatos apontam que a dependência química dos pais teve um enorme impacto na vida de Bobbi Kristina. Em fevereiro, o site britânico “Daily Mail” publicou uma entrevista exclusiva com o motorista que conduziu, por 20 anos, a limusine da estrela do filme “O Guarda-Costas”. Ele afirma ter visto Whitney e Bobby usando drogas na frente da filha, quando ela tinha apenas cinco anos.

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De acordo com a psiquiatra Jackeline Giusti, do Ambulatório de Álcool e Drogas para Adolescentes do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), filhos de dependentes químicos têm um risco aumentado para o desenvolvimento da doença, quando comparados com outras crianças. “Geralmente, lares com dependente químico são menos acolhedores. Não há a supervisão de que o adolescente necessita, o que o deixa mais exposto ao risco”, diz.

Somado a isso, adolescentes tendem a repetir os modelos da família. “Ouvi de um garoto que eu atendia certa vez: ‘Meu pai não trabalha e bebe. Eu não vou à escola e fumo maconha. Por que eu é que estou errado?’”, declara Jackeline.

“Uma vez que famílias de dependentes químicos são caracterizadas como desorganizadas, na maioria das vezes, os filhos sofrem os efeitos de uma interação familiar negativa e a consequente falta de amparo na solução de seus problemas”, diz a psicóloga Neliana Figlie, pesquisadora do (Inpad) Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas.

Reprodução/Instagram/SamSmith
Cantor Sam Smith se despediu de Bobbi com uma foto dela ao lado da mãe. "Ambas poderão descansar em paz, e encontrar a felicidade e contentamento que não puderam encontrar neste mundo. Meus sentimentos para toda a sua família e amigos nesta noite triste", escreveu imagem: Reprodução/Instagram/SamSmith

Lidando com o luto

Certamente também não foi fácil para Bobbi Kristina Brown lidar com a perda da mãe. A possibilidade de Whitney Houston ter tirado a própria vida foi considerada por muito tempo pela opinião pública o que, certamente, não ajudou na elaboração da dor sentida pela filha. E mesmo com as causas do óbito esclarecidas, segundo Jackeline Giusti, para os que ficam, a morte de um dependente químico é semelhante ao suicídio. “Os sentimentos são uma mistura de culpa por não ter impedido o ocorrido, saudade, tristeza e raiva”, explica.

No livro “Suicídio e Luto: história de filhos sobreviventes” (Digital Publish & Print Editora), a autora Karina Okajima Fukumitsu, doutora pelo Instituto de Psicologia da USP, diz que o sentimento de pesar provocado pelo suicídio é diferente daquele por outra causa de morte. “O suicídio é uma morte violenta e impactante, traz consequências diversas para o sobrevivente e, uma delas, é o choque que inaugura um mundo de incertezas, que, às vezes, torna-se pior do que a certeza da morte”, afirma a psicóloga.

Segundo Karina, o filho da pessoa que morre nessas circunstâncias pode repetir a maneira do genitor de lidar com a vida; nesse caso, de forma autodestrutiva. “Falta nessas pessoas aprimorar a tolerância existencial. Elas não querem sofrer, querem o alívio rápido”, afirma. Aqui, torna-se necessário o apoio dos familiares que ficaram para auxiliar aquela criança ou jovem a mudar os valores que poderão prejudicá-la no futuro. Mas, ao que parece, isso não ocorreu com Bobbi Kristina.

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