Comportamento

Profissional "reclamão" transfere para o emprego insatisfação com a vida

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Reclamar do trabalho pode ser tornar um vício, fique atento ao seu comportamento imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Algumas pessoas só sabem falar mal do trabalho –dentro ou fora dele. Reclamam do chefe, dos colegas, da carga horária e por aí vai. A questão é que a mania não some se há uma mudança de emprego, apenas dá uma trégua nos primeiros dias ou meses.

Depois de um certo tempo, lá vêm as reclamações de novo, o que conduz a duas conclusões: a primeira é que reclamar consiste em um vício, já que se trata de um comportamento negativo constante. E a segunda é que, ao contrário do que o indivíduo pensa, o problema pode estar nele.

De acordo com Izabel Failde, psicóloga organizacional e orientadora de carreiras de São Paulo, quem tem o hábito de reclamar costuma seguir um perfil padrão: é alguém que tem dificuldade de ver os aspectos positivos de qualquer ambiente ou situação.

Egoísmo e egocentrismo são outras características importantes do reclamão. “Se não estiver do meu jeito, não serve” é o lema do indivíduo, que revela sua incapacidade de observar o todo e trabalhar em prol de objetivos além ou maiores do que os dele.


São pessoas que também sentem prazer em contrariar, gostam de ser (ou de se sentir) diferentes da maioria, querem chamar a atenção para si e usam a reclamação como “palco”. “Elas percebem essa característica como positiva, pois acreditam que obtêm algum poder em reclamar e, portanto, não veem motivos para mudar”, diz a psicóloga Izabel.

Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate, no livro “Mudar – Caminhos para a Transformação Verdadeira” (MG Editores), a questão é que, mesmo em comportamentos inconvenientes, nos quais parecem predominar componentes destrutivos, existem os chamados ganhos secundários. O fato de a pessoa, ao reclamar, sentir-se o centro das atenções (ainda que nem sempre de forma positiva) enquadra-se nesse caso.

Pressa x imaturidade

A ânsia por receber uma promoção ou se destacar na empresa é outro fator que costuma impulsionar as reclamações rotineiras. “À medida que vão se capacitando, todos podem se candidatar a outros cargos para colocar em prática as novas competências adquiridas. O que concluímos, então, é que quem muda de emprego toda hora não conclui essa fase de evolução de conhecimento”, fala Margareth Bianchini, business coaching e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, na capital paulista.

Na opinião do cientista social Roberto Louzada, professor-assistente e pesquisador em gestão de pessoas e ensino de administração na Unesp (Universidade Estadual Paulista), o que falta também ao típico reclamão corporativo é maturidade.

“O jovem sai da faculdade apenas com a formação acadêmica e com expectativas idealizadas sobre o cotidiano do trabalho. Nenhuma empresa é perfeita e todas, em maior ou menor grau, vão causar algum tipo de frustração”, diz Louzada.

Ao hábito de reclamar soma-se a visão fantasiosa que muita gente tem de que a empresa ou um novo emprego é que vai realizar as mudanças que a pessoa deveria operar em sua carreira. “Isso, às vezes, acontece até com profissionais mais experientes, mas sem maturidade profissional”, afirma Rafael Chiuzi, doutor em psicologia do trabalho e coordenador da Escola Metodista de Educação Corporativa da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo).

Outra consequência nociva do vício de reclamar é contaminar a própria trajetória profissional. Dependendo de quem ouve as lamúrias, a fama alastra-se como um vírus e as pessoas criam uma imagem negativa do profissional. Dificilmente promoções ou indicações surgirão no caminho.

Exercício de autoconhecimento

E o que a pessoa pode fazer para romper esse padrão? A primeira ação é investir em um rigoroso exercício de autoconhecimento e observar a si mesmo para aceitar que faz isso.

Em seguida, buscar compreender os motivos: é hábito? A insatisfação é com a vida, de modo geral? Quer chamar atenção para si? Depois, é preciso iniciar a alteração do padrão mental.

“É necessário mudar a forma de observar o cotidiano, entender os esforços que são feitos para resolver problemas, contribuir de forma efetiva para a resolução deles, ser mais positivo, além de descobrir o que o deixa feliz e partir para a ação”, fala Izabel.

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