Comportamento

Política de saúde para tratar pedofilia pode prevenir abusos

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Sem cura, pedofilia pode ser controlada com acompanhamento psiquiátrico e psicológico imagem: Getty Images

Yannik D´Elboux

Colaboração para o UOL

Na Alemanha, uma campanha está criando polêmica ao tentar convencer pedófilos a aderirem a um tratamento confidencial para reverterem a atração sexual por crianças.

“A pedofilia é um desejo que o sujeito pode não realizar”, declara o psicólogo e sexólogo Arnaldo Risman, membro do Cepcos (Centro de Pesquisa do Comportamento e Sexualidade), que conduziu um estudo de três anos sobre o tema.

“Nunca tive contato sexual com crianças”, afirma categoricamente Matthew Hutton, apesar de admitir que sente atração por menores desde a adolescência. Ele também diz que não consome pornografia infantil --que é uma forma de abuso indireto, já que crianças normalmente estão envolvidas em sua produção. Consciente do seu problema, o canadense faz parte de uma organização de apoio norte-americana chamada B4U-ACT (Before You Act, antes que você aja em português), com a proposta de melhorar as opções de tratamento para pedófilos que precisam de auxílio e reduzir os estigmas em torno do problema, entre a população e os profissionais de saúde.

Para Hutton, o mais difícil nessa condição é ter de lidar com a visão de que pessoas assim são sempre monstros com más intenções. “É completamente fora da realidade pensar que somos todos perigosos”, diz.

Ele fala que os sentimentos e desejos que possui estão longe de ser uma compulsão e que a maioria dos pedófilos reconhece o que é certo ou errado. “Nosso senso moral é geralmente muito mais forte do que nossa sexualidade porque não gostaríamos de machucar os jovens dos quais gostamos”, diz.

A associação da pedofilia com o abuso sexual acontece quase de forma automática na cabeça da maioria das pessoas. Contudo, o transtorno --considerado uma disfunção sexual ou parafilia-- não pressupõe o crime.

Para se caracterizar um ato pedófilo, deve existir uma diferença de cinco anos entre a vítima menor de idade e o agressor. Admitir que o problema precisa ser tratado não significa que o abuso não deva ser punido.

“Não é vitimização, é olhar o indivíduo enquanto doente que necessita de tratamento. Para aqueles que cometeram o ato, a Justiça deverá cumprir seu papel”, diz Risman.

Preconceito e solidão

Por causa do forte estigma que a pedofilia carrega e da falta de serviços especializados, nem sempre é fácil encontrar ajuda. Matthew Hutton conta que teve amigos que se afastaram quando ele revelou seu problema e que são comuns os casos de depressão e suicídio.

Na tentativa de diminuir o preconceito, a rede B4U-ACT prefere o uso da palavra MAP (“minor attracted person”, pessoa atraída por menores em português) ao termo pedófilo.

No Brasil também quase não há oferta de tratamento para quem tem essa disfunção sexual. Para Itamar Gonçalves, gerente de programas da Childhood Brasil, organização que atua na área de proteção da infância, é importante criar políticas públicas e serviços, com base em uma rede de apoio, para prevenir a pedofilia.

Além da responsabilização, Gonçalves afirma que mesmo aqueles que cometeram abuso sexual contra menores devem receber auxílio psicossocial.

“Eles precisam aprender a considerar o ponto de vista das crianças e dos adolescentes e compreender os efeitos nocivos que podem causar”, diz. O gerente da Childhood Brasil considera que esse caminho é fundamental para evitar reincidências.

Perfil

Segundo Itamar Gonçalves, a maioria dos casos de abuso ocorre com meninas entre oito e nove anos e entre 13 e 14 anos. Os agressores são majoritariamente homens.

Para Gonçalves, também vale a pena investir na autoproteção, ou seja, ensinar às crianças a identificarem uma prática abusiva.

Não há um perfil que defina o pedófilo. Entretanto, em seu estudo, o psicólogo Arnaldo Risman observou algumas características comuns. “São muitas vezes homens com baixa autoestima, que sofreram bullying na infância e misturam sentimentos de prazer e ódio em relação às crianças”, diz.

Risman ressalta que o transtorno não tem cura, porém pode ser controlado com acompanhamento psiquiátrico e psicológico. 

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