Comportamento

Apesar dos tabus, ânus também é um órgão sexual

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Segundo pesquisa, no Brasil, 15% dos homens e das mulheres praticam sexo anal imagem: Getty Images

Yannik D´Elboux

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

O sexo anal ainda é envolto em muitos preconceitos. Aqueles que criticam a prática costumam defender que o ânus não foi feito para isso. Porém, apesar de não fazer parte do sistema reprodutor, o órgão não deixa de ter uma função sexual.

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“O ânus pode ser considerado um órgão sexual porque é uma parte do corpo que algumas pessoas acham erótica e muitas usam nas atividades sexuais”, declara Debby Herbenick, diretora do Centro de Promoção da Saúde Sexual, da Universidade de Indiana, e educadora sexual do Instituto Kinsey, nos Estados Unidos.

Para o médico José Ricardo Coutinho, membro titular da Sociedade Brasileira do Coloproctologia, definir ou não o ânus como órgão sexual depende da visão que se tem do sexo.

Se for levado em conta apenas o aspecto da reprodução, o ânus não poderia receber essa caracterização. Entretanto, a partir de uma ideia mais atual da sexualidade, em que entram em jogo o prazer e a satisfação, seria mais um órgão capaz de proporcionar essas sensações. “O sexo anal também faz parte do repertório sexual”, diz.

No Brasil, os dados da pesquisa “Durex Global Sex Survey”, promovida por uma marca de preservativos com 1.004 pessoas, entre 18 e 65 anos, indicam que 15% dos homens e mulheres praticam sexo anal com regularidade.

Nos Estados Unidos, segundo Debby Herbenick, 40% da população já experimentou a modalidade pelo menos uma vez na vida.

Pensar no ânus como órgão sexual ou meio de prazer depende também dos valores culturais, religiosos e dos tabus que cada um carrega.

Na análise de Leandro Colling, professor e coordenador do Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade, da UFBA (Universidade Federal da Bahia), o corpo todo é sexual. “Quem deve dizer qual parte do seu corpo é usada como órgão sexual é a pessoa que pratica o sexo e não outro perito externo.” 

Dor e prazer

O estímulo da região anal proporciona muito prazer para alguns homens e mulheres. Isso porque, segundo Coutinho, o ânus é uma zona erógena cheia de terminações nervosas. “Por ser uma área bastante enervada, pode dar muito prazer ou muita dor”, afirma o médico coloproctologista.

Para os homens, o contato com a próstata também aumenta a excitação. Algumas pessoas são capazes de chegar ao orgasmo pelo sexo anal. Contudo, ainda não existe uma explicação de como esse fenômeno ocorre. “Não está claro qual é o mecanismo envolvido”, afirma a professora da Universidade de Indiana.

À medida que o corpo envelhece, a musculatura anal vai ficando mais rígida, o que torna a prática dolorosa ou desconfortável para alguns. É importante respeitar os limites individuais para não ter problemas e evitar lesões.

Sujeira e preconceito

Para quem acha o sexo anal repugnante, sobretudo pelo fato de o ânus estar ligado à eliminação das fezes, um argumento frequente contra a prática recai na ideia de que o órgão faz parte do sistema excretor. Porém, esse é um erro, já que o ânus integra o sistema digestório, assim como a boca.

Independentemente das definições anatômicas, Leandro Colling diz acreditar que o preconceito vai além das funções fisiológicas de cada órgão. “As demais áreas genitais também estão ligadas, diretamente ou não, com excreções e nem por isso são consideramos repugnantes.”

O sexo anal não precisa ser necessariamente sujo. Os mais experientes costumam fazer a limpeza do reto com água e uma sonda. Segundo Coutinho, a prática não afeta a flora intestinal ou traz qualquer problema ao ânus, desde que o equipamento não seja compartilhado.

O coloproctologista chama atenção para o uso imprescindível do preservativo na relação anal para prevenir DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) e infecções por causa da presença de bactérias. “A mucosa do ânus é altamente absortiva e as lacerações ocorrem com mais frequência, facilitando a contaminação.”

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