Comportamento

Americanas fazem campanha para que a menstruação deixe de ser tabu

Kim Murton/The New York Times
Para quem tem escrúpulos sobre o assunto, a mensagem é: acostume-se imagem: Kim Murton/The New York Times

Roni Caryn Rabin

The New York Times

É um paradoxo. Todo mundo sabe que a maioria das meninas e mulheres menstruam, mas, mesmo em uma época de compartilhamento ostensivo, esse fato é tratado como um segredinho sujo.

Agora, um número crescente de defensoras, empreendedoras e legisladoras americanas está desafiando o tabu, falando publicamente sobre menstruação (e, sim, na presença de homens). Elas querem que o assunto esteja na pauta das discussões públicas e exigem que negócios e governos levem a menstruação em consideração quando estiverem projetando instalações, desenvolvendo orçamentos, abastecendo escolas ou criando programas de combate à pobreza. Pedem tampões em cada banheiro público. E querem que sejam de graça.

Para quem tem escrúpulos sobre o assunto, a mensagem é: acostume-se.

“Acho que muita gente, homens e mulheres, provavelmente fica um pouco desconfortável pensando ou falando sobre menstruação. Estamos pensando em como podemos mudar a conversa”, afirma a representante Grace Meng, democrata de Nova York, nos Estados Unidos.

No início do ano, Grace percebeu que a Agência Federal de Administração de Emergências não permitia que os fundos de assistência às pessoas de rua fossem usados para adquirir produtos de higiene feminina, apesar de fornecerem sabonete, fraldas, pasta de dente e roupas de baixo. Ela fez um apelo para o secretário de segurança interna, Jeh Johnson, supervisor da agência. O administrador da agência, W. Craig Fugate, escreveu de volta dizendo que os itens seriam adicionados à lista de produtos permitidos. A nova lei será adicionada aos manuais que sairão em abril, afirma Grace.

“A menstruação é uma coisa que as mulheres não podem controlar”, explica Grace, afirmando que ouviu relatos de muitas sem-teto que usam trapos ou sujam suas roupas porque não têm acesso aos produtos de higiene apropriados. “Produtos usados para menstruação não deviam ser tratados como itens de luxo.”

Também em Nova York, a vereadora Julissa Ferreras-Copeland lançou um projeto piloto para instalar máquinas de distribuição gratuita de tampões nos banheiros femininos da Escola Superior de Artes e Negócios em Corona, no Queens, com o objetivo de que a iniciativa chegue a todas as escolas de ensino médio e secundário da cidade. As máquinas e produtos sanitários estão sendo doados pela Hospeco, fornecedora de produtos de higiene pessoal de Cleveland.

Outras iniciativas surgem por todo o país. Em Wisconsin, os legisladores apresentaram uma lei que tornaria produtos sanitários disponíveis em banheiros de todos os prédios públicos, inclusive nas escolas.

Em Columbus, no estado de Ohio, a vereadora Elizabeth Brown quer que os banheiros dos centros recreativos e piscinas comunitárias da cidade também tenham esses produtos à disposição das usuárias, assim como as escolas públicas. “As meninas que ficam menstruadas não deveriam ter de ir até a enfermaria. A mensagem subjacente é ‘tem algo errado comigo’. Com certeza, podemos concordar que ficar menstruada não é uma doença mensal.”

Na Escola George, centro de ensino particular em Newton, na Pensilvânia, Vienna Vernose ficou chateada quando um garoto reagiu com nojo ao ver um tampão cair de sua mochila. Ela falou sobre isso com colegas no Seminário de História da Mulher, e eles decidiram montar a campanha de Igualdade de Produtos Menstruais, colocando potes cheios de tampões em áreas públicas durante o período de visitação da escola. Cartazes ao lado dos potes diziam: “Para qualquer pessoa que precise deles. Nunca tenha vergonha de seu corpo e do que ele precisa”.

“Tampões e absorventes deveriam ser tratados como papel higiênico. São equivalentes”, afirma Nancy Kramer, empreendedora de Columbus, que começou a Libere os Tampões, uma campanha para tornar os produtos femininos disponíveis em todos os banheiros. Ela diz que o custo de colocar produtos sanitários nos banheiros de escolas ou de escritórios é de US$ 4,67 por menina por ano. “Menstruação é uma função normal do corpo e deveria ser tratada como tal.”

Enquanto a maioria dos Estados isenta itens que não são de luxo, como mantimentos e medicamentos, de impostos sobre as vendas, já que são considerados de primeira necessidade, os críticos apontam que a grande maioria ainda taxa produtos sanitários. Até agora, 55 mil pessoas assinaram uma petição on-line iniciada pela revista “Cosmopolitan”, para acabar com esses impostos.

Os legisladores estaduais da Califórnia, de Nova York e de alguns outros Estados, assim como da cidade de Chicago, apresentaram leis que acabariam com os impostos sobre a venda de produtos sanitários. O Canadá extinguiu esses impostos no ano passado, mas uma campanha parecida não deu certo na Inglaterra.

“Basicamente pagamos impostos por sermos mulher”, afirma Cristina Garcia, legisladora da Califórnia. Linda B. Rosenthal, deputada estadual de Nova York, chamou as taxas de “impostos regressivos sobre as mulheres e seus corpos”. O notável é que itens como camisinhas e protetores solares não estão sujeitos a esses impostos.

Grace Meng aprovou uma lei federal que permitiria que as mulheres comprassem produtos de higiene feminina com contas de fundos de gastos flexíveis, que podem ser usadas para cobrir alguns custos médicos e dentários, medicamentos, óculos de grau e itens como ataduras, mas não absorventes ou tampões.

“Exigir publicamente suprimentos para a menstruação como um direito básico é uma grande mudança de pensamento para as mulheres”, afirma Chris Bobel, presidente da Sociedade de Pesquisa do Ciclo Menstrual e professora associada de Estudos Femininos e de Gênero da Universidade de Massachusetts, em Boston. “A mensagem para as mulheres tem sido: ‘Menstruação é um problema de vocês’. Seu trabalho é torná-la invisível.”

Jennifer Weiss-Wolf, escritora e advogada de Maplewood, em Nova Jersey, que está envolvida no trabalho para acabar com os impostos e fornecer os suprimentos em banheiros públicos e escolas, diz que seu momento de percepção aconteceu quando jovens de sua cidade lançaram uma campanha de coleta de tampões para um banco de alimentos local como parte do trabalho de um grupo chamado Garotas Ajudando Garotas.

Um pacote médio de produtos sanitários custa entre US$ 7 e US$ 10, mais impostos, e se gasta, em média, um pacote por ciclo --o que os torna uma despesa significativa para mulheres e meninas pobres. Ainda assim bancos de alimentos não recebem fornecimentos regulares de absorventes, diz Margarette Purvis, presidente e executiva-chefe do Banco de Alimentos da Cidade de Nova York. Ela diz que a organização recebe os produtos esporadicamente, em geral quando um distribuidor tem pacotes rasgados, que não podem ser vendidos.

“É algo que o Estado talvez devesse levar em consideração para aquelas que realmente estão lutando, mesmo quando isso é provavelmente a última coisa que passe por suas cabeças”, diz Lakeisha Adams, 39 anos, do Queens, mãe de quatro filhos que depende de assistência pública e diz que precisa pedir dinheiro emprestado a parentes para comprar produtos para menstruação.

“Cresci com cinco irmãos, então sei que é uma coisa sobre a qual muitos homens não querem nem ouvir falar. Mas é uma das coisas mais importantes que deveriam estar disponíveis para as mulheres”, conta ela.

Na verdade, muitos homens evitam o assunto ao máximo, diz Nancy Kramer, organizadora da campanha Libere os Tampões.

“Eles tapam os ouvidos, ‘não fale comigo sobre esse assunto’, até que eu digo: ‘Você tem filhas? Então precisa ouvir isso’.”

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