Comportamento

Pessoas com deficiência contam como superaram tabus para terem vida sexual

Arquivo Pessoal
Fabiano Di Girolamo e Ana Lucia Quirino Bernardi, no dia do casamento deles imagem: Arquivo Pessoal

Yannik D´Elboux

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

Por causa de um mergulho mal realizado aos 18 anos, o psicólogo Fabiano Puhlmann Di Girolamo sofreu uma lesão medular e perdeu o movimento das pernas. No auge da juventude, teve de reaprender a lidar com seu corpo, inclusive como vivenciar sua sexualidade nessa condição.

“Conheço meu corpo e minhas possibilidades de dar e receber prazer, após a minha lesão, pude experimentar enamoramento, paixão e amor”, diz Girolamo. Depois do acidente, após um período de reabilitação sexual, ele foi capaz de readquirir o controle da ereção e ejaculação.

O psicólogo, casado há 20 anos, especializou-se em reabilitação e sexualidade humana e enfatiza que as pessoas com deficiência precisam de flexibilidade para lidar com as mudanças. “Conhecer as novas possibilidades sexuais exige desprendimento dos condicionamentos anteriores”, declara.

As limitações físicas no sexo vão depender da gravidade e do nível da lesão. Segundo o médico fisiatra Marcelo Ares, diretor clínico da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), que também atende adultos, a sensibilidade na região genital geralmente fica diminuída. “É importante descobrir outras formas de prazer sexual, zonas erógenas e preliminares”, fala.

Durante a reabilitação sexual na AACD, os pacientes também recebem tratamento para as disfunções sexuais, como problemas de lubrificação e ereção, e intenso apoio psicológico. “Nem sempre o orgasmo é produzido como antes, mas é possível sentir prazer”, afirma Ares.

Tabus e autoaceitação

Continuar vivenciando a sexualidade de foma natural, apesar da deficiência, é muitas vezes um desafio para quem sofre um trauma e perde parte de sua mobilidade na idade adulta.

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Cadeirante há 21 anos, Tatiana é mãe de uma menina de cinco anos imagem: Arquivo Pessoal

Para Tatiana Rolim, 38, cadeirante há 21 anos em razão de um atropelamento, esse não foi um problema. “Tinha namorado na época e conseguimos nos adaptar”, diz.

A relação de Tatiana terminou dois anos após o acidente, por outros motivos, e ela conta que teve outros namorados depois. “Tudo passa pela aceitação. Se a pessoa consegue se aceitar, as coisas acontecem naturalmente”, fala Tatiana Rolim, que se formou e psicologia e atua como consultora na área de inclusão.

Apesar de ter lidado bem com sua nova condição, ela revela que a lesão espinhal interfere na satisfação. “Prejudica o prazer, mas não impede, é preciso dar um novo significado ao sexo, compensar de outras formas”, diz.

Fertilidade e preconceito

Aos poucos, a ideia de que as pessoas com deficiência também têm vida sexual vai se tornando mais aceita. Já existem motéis, em diferentes Estados do Brasil, adaptados para cadeirantes.

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Alex Azevedo e a mulher, Suelen Sales imagem: Arquivo Pessoal

Porém, não são apenas os cadeirantes que sofrem com o olhar do preconceito. O funcionário público Alex César de Azevedo, 28, que nasceu com paralisia cerebral, diz que se sentia diminuído, o que lhe acarretou baixa autoestima e problemas para se relacionar. “Tinha dificuldade de me aceitar e também encontrava barreiras de como levar uma vida sexual normalmente”, diz ele, que só perdeu a virgindade aos 20 anos.

Há três anos, Alex Azevedo resolveu se cadastrar no site de relacionamentos "DeficienteSim", com cerca de 20 mil usuários, onde conheceu sua mulher, que também tem paralisia cerebral.

“Achei que poderia encontrar alguém igual a mim”, conta. Ele diz que atualmente tem o melhor sexo que já experimentou. “Tenho ereção e orgasmos normalmente e, às vezes, consigo fazer minha mulher ter orgasmos múltiplos”, fala.

Além da vida sexual, as pessoas com deficiência também alimentam o desejo de ter filhos, apesar do preconceito de incapacidade que os cercam. Tatiana Rolim, mãe de uma menina de cinco anos, enfrentou a desconfiança até de seu médico, que perguntou se seu marido tinha certeza dessa decisão.

“Mudei de médico e engravidei naturalmente”, conta a psicóloga, autora do livro “Maria de Rodas: Delícias e Desafios na Maternidade de Mulheres Cadeirantes” (Scortecci Editora). Alex Azevedo também é pai de uma garota de dois anos, que nasceu perfeitamente saudável.

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