Comportamento

Por que algumas pessoas não sabem terminar um relacionamento?

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Sumir para terminar um relacionamento é mais uma atitude covarde do que canalhice imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para o UOL, em São Paulo

“Fugir do Alan* me pareceu a melhor solução. Eu o admirava e gostava dele, mas como amigo. E não sabia como dizer isso sem magoá-lo. Hoje admito que fui imatura, mas, na época, pesei as alternativas e concluí que passar a ignorá-lo era o ideal para não assumir um namoro que não queria”, conta a publicitária Janete*, 28.

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Desaparecer sem mandar notícias para terminar um relacionamento –ou melhor, para forçar o seu término– sempre aconteceu. No entanto, parece ter se tornado mais comum na era digital devido à possibilidade de “sumir” de sites e aplicativos de encontros, plataformas bastante adotadas para os romances atuais, e da facilidade de ignorar mensagens de texto e chamadas de celular. Em inglês, esse comportamento é chamado de “ghosting”, termo derivado de “ghost” (fantasma), que, no ano passado, foi eleito como uma das palavras de 2015 pelo dicionário britânico “Collins”.

De acordo com especialistas ouvidos pelo UOL, a atitude não deve ser encarada como falha de caráter. “Sair sem colocar um ponto final é mais um sinal de covardia e imaturidade emocional do que de canalhice”, afirma Lígia Baruch Figueiredo, mestre e doutoranda em psicologia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

Antes de sofrer, a pessoa que é alvo do "ghosting" deve fazer um exercício de autoconhecimento: será que o sumiço machuca tanto porque eu realmente me importo com quem “sumiu” ou não sei lidar com o fato de alguém não me querer?

“Há indivíduos que querem ser especiais para o outro independentemente de estarem ou não apaixonados. Esse tipo de dor é muito narcisista e aponta para questões emocionais mal trabalhadas”, diz Juliana Bonetti Simão, psicóloga especializada em sexualidade, de São Paulo.

Reações

Não querer magoar o “futuro ex-par” costuma ser o motivo mais adotado para justificar o abandono sem explicações. Afinal, discutir a relação não é tarefa das mais fáceis –e expor as razões para terminá-la, menos ainda.

Segundo o psicólogo clínico e terapeuta de casal Marcelo Lábaki Agostinho, do IP (Instituto de Psicologia) da Universidade de São Paulo, quando nos envolvemos com alguém, a tendência, principalmente no início de relacionamento, é idealizar o outro, vendo apenas suas boas coisas. Com o tempo, as imperfeições vão surgindo e sendo percebidas. É preciso, então, desmontar a idealização do par.

“Se por um lado isso pode ser sofrido, pois implica abrir mão do mito da perfeição, por outro lado, há a possibilidade de entrar em contato com o parceiro de forma mais realista. E é justamente nesse ponto que surgem os conflitos”, afirma.

Nessas DRs, o casal se defronta eventualmente com aspectos menos maduros de cada um e com os quais, claro, nem sempre se quer entrar em contato. Assim, fugir poderia ser entendido mais como uma fuga do encontro com os nossos aspectos desconhecidos do que necessariamente a fuga real da relação com o outro, embora concretamente a ação seja de sumir da vida do par.

“Uma relação amorosa pode nos colocar em contato com nossos aspectos inconscientes, o que torna a continuidade da relação insustentável, mesmo que a pessoa que abandona não consiga ter claro esse motivo na cabeça”, diz Agostinho.

Ferida aberta

O fato é que sumir machuca muito o outro, pois não há a possibilidade de conversar, de avaliar a relação, saber o que deu certo e o que não deu. É provável que quem foi abandonado leve muito tempo para conseguir elaborar a separação, como a dentista Marília*, 31.

“Levei quase um ano para me dar conta de que o problema era do Marcelo*, não meu. Ele simplesmente parou de atender minhas ligações ou mandava dizer que não estava. Só quando encontrei um amigo em comum descobri que, na verdade, ele ainda não tinha superado o fora da ‘ex’”, fala.

Para Lígia Baruch, muita gente amarga a sensação de desamparo, desprezo. “Não mereço nem uma conversa ou despedida?” é a pergunta que fica ecoando na cabeça. “Isso acontece porque quem é dispensado está a alguns passos atrás na história e fica revirando o 'filme' da relação mil vezes, até entender qual foi o motivo. Essa elaboração quase obsessiva faz parte do luto, mas, quando não se sabe as respostas, essa fase tende a ser muito mais longa e dolorosa”, afirma Lígia.

Na opinião de Juliana Bonetti, medo algum transforma o ato de sumir em algo louvável. “É sempre válido enfrentar as situações. Se começou um relacionamento, então, termine. Não só pelo outro, mas por você também”, declara.

Enfrentar e finalizar os processos, segundo os especialistas, é necessário. Isso leva à disponibilidade para ser mais empático, maior capacidade de construir vínculos e mais sabedoria para lidar com outras situações que envolvam os sentimentos das pessoas, de modo geral.

* Nomes trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

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