Comportamento

Cultura da magreza faz "casal gordo e magro" ser alvo de discriminação

Arquivo pessoal
Arthur e Ana Luísa estão juntos há cinco anos e enfrentaram um episódio de preconceito no início do relacionamento imagem: Arquivo pessoal

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo


O fato de modelos plus size estarem conquistando cada vez mais espaço no mercado da moda tem colocado luz sobre a discriminação que as pessoas com excesso de peso sofrem. A despeito desse avanço, a sociedade ainda aponta o dedo para os que fogem do padrão de beleza do corpo magro. Quando um casal é formado por um magro e um obeso, o preconceito ainda se manifesta fortemente, mesmo que de forma velada.

Recém-saída do "Big Brother Brasil" (Globo), Cacau viu seu namoro com o colega de confinamento Matheus ser questionado na internet. Houve quem atribuísse o interesse do rapaz por ela a um prêmio de R$ 150 mil que ela ganhou na casa. Já os sem filtro foram direto ao ponto, perguntando o que Matheus viu na garota e chamando-a de "gordinha" e Peppa (referência à porquinha rechonchuda do desenho infantil de mesmo nome).

Reprodução /Instagram /claudiiaoficial
Cacau foi apelidada de Peppa Pig, desenho infantil, e recebeu "avisos" de que Matheus só fica com ela por interesse imagem: Reprodução /Instagram /claudiiaoficial

Para Alexandre Saadeh, docente da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, quando o assunto é o relacionamento entre uma pessoa obesa e uma magra, o preconceito não distingue gênero. "Casais que têm um dos integrantes obeso, seja o homem ou a mulher, chamam atenção de uma maneira negativa. As pessoas ligam a gordura ao descuido com a saúde e com a beleza, vendo a figura gorda como agressiva. A partir disso, não entendem o que um magro faz ao lado de um gordo", declara.

Segundo Saadeh, diante de um casal "diferente", as pessoas manifestam pensamentos arraigados na cultura brasileira. Se a mulher está com um homem obeso é porque ele deve ter dinheiro. Se for o contrário, provavelmente, ela é bem-humorada, boa de cama ou "bonita de rosto".

Embora a discriminação não escolha sexo, os especialistas entrevistados pelo UOL concordam que os homens sofrem maior pressão na roda de amigos para terem ao lado alguém que se enquadre no estereótipo esperado. Prova disso é o que relata Arthur Souza, 30, que namora Ana Luísa Assis, 28, há cinco anos. Ele passou pelo constrangimento de ser "avisado" por um amigo que ela não era mais como na época em que haviam se conhecido, porque tinha engordado bastante e não estava mais "tão bonita".

"A gente se conheceu na adolescência e ficamos muito tempo sem nos ver. Anos depois, começamos a flertar pela internet e decidimos sair. Foi então que esse amigo em comum quis me dar um 'toque'. Foi estranho ouvir o que ele me disse. Mas a resposta foi imediata porque sempre enxerguei a Ana Luísa como uma mulher inteligente e estava buscando uma companheira e não um corpo. Bingo! Acertei na escolha. Afinal, de que adianta estar com alguém no 'padrão' e que não te soma nada? Hoje tenho uma mulher parceira ao meu lado em todos os momentos, o que sempre quis", diz o analista de telecomunicações. 

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A escolha de Pierce Brosnan por Keely Shaye, sua mulher, gerou espanto do público por causa do peso dela imagem: Getty Images

A relações públicas conta que o então pretendente relatou o episódio de cara e, felizmente, o fato não foi capaz de constrangê-los. Porém, confessa que se sentiu insegura antes do primeiro encontro porque tinha consciência de que havia mudado fisicamente. "Como ele tinha me conhecido no peso 'normal', isso mostra que podemos nos encantar por alguém não só pela beleza física, mas por outros atributos. Esse amigo pensou que ele ia se decepcionar e não foi o que aconteceu. Começamos a namorar e nunca senti insegurança --a não ser aquela típica do início do relacionamento. O Arthur me dá muita segurança, e o namoro me ajudou a superar problemas que tinha comigo mesma por estar acima do peso", afirma.

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A atriz Melissa McCarthy e o marido, Ben Falcone, no Critics' Choice Awards, em janeiro deste ano imagem: Getty Images

"O desejo é algo muito pessoal e vai variar de acordo com a cultura, crenças e valores. Muitos se interessam pela inteligência, outros pela espontaneidade, pelo jeito carinhoso, entre outras características. Não tem como decifrar o que dispara em nós o desejo sexual. E se é para ter um motivo, já ouvi muito relatos de que, ao se relacionar com pessoas acima do peso, também é possível sentir-se mais livre do julgamento em relação ao próprio corpo", afirma Luciana Kotaka, psicoterapeuta especialista em obesidade e transtornos alimentares.

Arthur diz que filtrando os julgamentos é possível preservar o relacionamento. Para Ana Luísa, não há receita, mas qualquer pessoa "precisa se amar do jeito que é para conseguir abrir espaço para o amor do outro". E de acordo com a psicoterapeuta Luciana Kotaka, o raciocínio do casal procede.

"A questão está mais na cabeça do que no corpo em si, pois muitas mulheres magras evitam o sexo porque têm uma gordurinha mínima aqui ou ali. Percebo claramente que a cultura do corpo magro destrói relacionamentos. Elas, principalmente, costumam ter baixa autoestima mesmo quando são bonitas e estão dentro do peso ideal para sua altura. Pequenas imperfeições ou mesmo estrutura corporal são rejeitadas porque há uma distorção do que isso representa", fala Luciana.

O coordenador do Departamento de Psiquiatria da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), Adriano Segal, explica que o ideal de sucesso pessoal da sociedade moderna inclui o desejo de estar magro. Em contrapartida, "é a minoria que alcança o objetivo de ser o ícone de beleza universal cobrado por tantos". "Se a gente imaginar que a obesidade e o sobrepeso estão cada vez mais presentes na sociedade, o mais provável é encontrar casais em que um dos dois tenha esse excesso. Esse tipo de par é mais a regra do que a exceção, por isso não faz sentido julgar."

Por outro lado, o especialista ressalta o lado positivo de tanta fiscalização. "A ideia de que excesso de peso faz mal à saúde é importante de ser discutida e as pessoas devem sempre procurar algo para ajudar com isso e cuidar da saúde. Não pode existir cobrança entre o casal no que diz respeito ao peso, mas se você tem um exemplo saudável dentro de casa, pode ser mais fácil resolver o problema."

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