Comportamento

Aplicativos facilitam sexo a três e outras fantasias

Arquivo pessoal
Dimo Trifonov e a parceira, Ana Kirova, que o inspirou a lançar o aplicativo 3nder imagem: Arquivo pessoal

Yannik D´Elboux

Colaboração para o UOL, do Rio de Janeiro


"Ele faz as buscas dele, e eu faço as minhas. Quando nos deparamos com um 'match' (combinação) mostramos um ao outro e, se interessar para ambos, começamos a conversar”, explica Marina*, 26, estudante de direito, sobre os aplicativos que usa com o namorado para buscar parceiros sexuais para ménage. O casal, junto desde julho de 2015, utiliza programas tradicionais de paquera, como Tinder (iOS e Android) e Happn (iOS, Android e Windows Phone). “Já encontramos pessoas legais por meio deles, mas as mulheres recebem melhor o convite de outra mulher, então, minhas buscas têm mais sucesso”, diz.

Apesar de ter tido boas transas, Marina conta que não é fácil uma desconhecida topar fazer sexo com um casal. Muitas estranham o convite. Para facilitar o encontro dos mesmos interesses, já existem aplicativos específicos para quem está em busca de relação a três, outras fantasias e também envolvimento poliamoroso.
 
O 3nder, um dos primeiros a ser criado, surgiu de uma necessidade pessoal do búlgaro Dimo Trifonov, 26, fundador do aplicativo. “Ele foi inspirado principalmente pela minha parceira, que estava curiosa para conhecer garotas, mas se sentia envergonhada por causa da nossa sociedade preconceituosa”, conta.
 
Segundo seu idealizador, com 750 mil usuários registrados em diferentes países, o 3nder funciona como uma rede social de paquera, com mecanismo de busca específico para aqueles que procuram uma terceira pessoa para o sexo, além de interessados em realizar outras fantasias.
 
"Cerca de 30% são casais, e o Brasil é o nosso terceiro maior mercado”, declara Trifonov sobre o aplicativo que funciona nos sistemas iOS e Android.

Jovens e curiosos

De olho no aumento do debate sobre relações livres, o empresário baiano Venicios Belo resolveu lançar em janeiro o Pitanga Club (Android), primeiro aplicativo brasileiro nessa área. “Criamos o programa para os interessados em poliamor, não era intenção ser apenas um aplicativo de sexo”, afirma. Contudo, os usuários podem escolher se querem apenas uma aventura, apimentar o relacionamento ou estão atrás de romance.
 
Gláucia*, 23, analista financeiro, fez um perfil de casal com o namorado no Pitanga em busca de uma experiência nova além do sexo. Acostumados a encontrar homens, mulheres e casais para transar, os dois estavam querendo vivenciar algo menos superficial. “Conhecemos um casal para construir amizade, fomos à casa deles, conhecemos o filho, sabemos da vida e dos gostos”, conta. 
 
Segundo ela, essa afinidade também contribuiu para a qualidade do sexo. “A sintonia que tivemos virtualmente foi a mesma sintonia física, tudo encaixou certinho, parecia que tínhamos transado mais de mil vezes”, fala empolgada.
 
Assim como Gláucia, os usuários desse tipo de aplicativo, costumam ser bastante jovens. A maior parte dos cadastrados no 3nder tem entre 22 e 28 anos. “Existem evidências de que jovens têm mais atitudes positivas em relação a se engajar sexualmente a três”, diz Ítor Finotelli Júnior, psicólogo, psicoterapeuta sexual e presidente da Sbrash (Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana). De acordo com Finotelli Júnior, essa maior abertura entre os mais novos não significa que a vontade passe para a prática.

Mais homens menos diversidade

Os homens costumam ser mais numerosos nos aplicativos, entretanto, a busca maior é por mulheres dispostas a participar de sexo a três. Dos 5.740 usuários registrados no Pitanga até abril, 3.630 eram homens. “Isso também acontece porque muitos homens se cadastram para fazer a busca para o casal”, afirma Venicios Belo.
 
As mulheres parecem também ser mais liberais na hora de experimentar a bissexualidade. “Culturalmente, o homem tem pouca abertura para diversidade em práticas sexuais”, diz Ítor Finotelli.
 
Para o fundador do 3nder, esse cenário não é exatamente como se imagina. “Você se surpreenderia em ver quantos homens se identificam como héteroflexíveis”, diz Dimo Trifonov.
 
Os aplicativos estão facilitando a vida de quem deseja expandir seus horizontes sexuais. Com a proteção do anonimato que as redes proporcionam, ficou mais simples se aventurar, mas o presidente da Sbrash lembra da importância de não se engajar em qualquer ato apenas para dizer que realizou, assim como um troféu encostado na estante.
 
"O casal precisa compreender quais são seus objetivos nessas práticas e o que elas acrescentariam na vida sexual do casal”, declara Ítor Finotelli.
 
*Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.
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