Equilíbrio

Cultura machista faz com que mulheres se sintam culpadas por violência

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Uma educação menos sexista é fundamental para combater a violência contra a mulher imagem: Getty Images

Yannik D´Elboux

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

"O delegado estava querendo me botar de culpada de todas as formas." O desabafo da adolescente vítima do estupro coletivo no Rio de Janeiro, em entrevista ao programa "Domingo Espetacular" (Record), mostra como a sociedade, muitas vezes, responsabiliza a vítima pela agressão sofrida.

“Por que ela estava na casa com os 30 homens”, “Tinha envolvimento com algum deles?” e “Se já tinha feito sexo grupal” foram algumas das perguntas que a garota de 16 anos ouviu do delegado responsável por colher seu depoimento --já retirado da investigação pelo comando da Polícia Civil.

Mesmo fragilizada, a adolescente conseguiu perceber e nomear a absurda transferência de responsabilidade, o que Fátima*, estuprada pelo tio aos 10 anos, não conseguiu. “A família toda dizia que aquilo aconteceu porque eu tinha me insinuado”, conta ela, agora uma estudante universitária de 20 anos.

Depois do episódio na infância e outros abusos que se sucederam na adolescência, ela passou a esconder o corpo em trajes masculinos e a evitar sair de casa. “Não usava mais roupas de mulher e tinha medo de sair na rua, receber cantadas.”

Enquanto a sexualidade dos meninos é estimulada, acontece o oposto com a das garotas. “As meninas são socializadas para serem controladas e se sentirem culpadas”, diz Viviana Santiago, especialista em questões de gênero da ONG Plan International Brasil, atuante na capacitação e no empoderamento de crianças e adolescentes.

Na cultura machista, os homens crescem em um meio com muito mais liberdade do que as mulheres, geralmente reprimidas em suas escolhas, das roupas às atitudes. Nesse cenário, predomina a visão de que cabe a mulher não se expor ao perigo, abusando de sua sensualidade.

“O homem é visto como um ser indomável, incapaz de se controlar se uma mulher estiver de saia curta”, declara a psicóloga Paula Licursi Prates, integrante da diretoria da ONG Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde.

Na opinião de Paula, as famílias contribuem para a reprodução desses estereótipos, como se fosse natural para os homens ter esse ímpeto e para as mulheres aceitarem essa condição.

Nos casos de violência, a pessoa agredida às vezes sente vergonha pelo ocorrido e pensa ter colaborado de alguma forma para o abuso. “As vítimas incorporam o julgamento moral, sentem-se responsáveis por aquilo”, afirma a defensora pública Arlanza Rebello, coordenadora do Nudem (Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher), do Rio de Janeiro.

Por bastante tempo, Fátima carregou sentimento de culpa pela violência e os abusos que sofreu. Só recentemente passou a entender que a responsabilidade é sempre do agressor. “Passei a estudar o movimento feminista e, há menos de um ano, comecei a tirar essa culpa da minha cabeça”, diz a estudante.

Para a defensora pública, a violência sexual contra a mulher é consequência da desigualdade. “Precisamos de uma educação menos sexista e mais respeitosa”, fala Arlanza.

Responsabilidade do agressor

As mulheres estão bastante suscetíveis a casos de abuso e assédio. Segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas), estima-se que no mundo uma em cada cinco mulheres seja vítima de estupro ou tentativa de estupro.

No Brasil, em uma pesquisa com 2.285 moças, com idade entre 14 e 24 anos, realizada pela Énois Inteligência Jovem em parceria com o Instituto Vladimir Herzog e o Instituto Patrícia Galvão, 77% das entrevistadas afirmaram já terem sido assediadas sexualmente e 94% verbalmente.

Para Paula Prates, além de apoiar as vítimas e responsabilizar os agressores, é preciso fazer um trabalho com os homens que cometem a violência. “Temos de olhar para o todo, senão focamos apenas em metade do problema”, diz.

A psicóloga diz acreditar que em vez de segregar os homens das mulheres, a exemplo de iniciativas como vagões femininos exclusivos no metrô, seria mais útil combater a situação por meio da educação e da conscientização. Há cinco anos, o Coletivo Feminista atende um grupo de homens agressores. “Existe possibilidade de transformação. A reincidência da violência diminui”, afirma.

Dificuldade em denunciar

Apesar da existência de dispositivos legais, como delegacias especializadas e a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340), em vigor desde 2006 com o propósito de coibir a violência contra a mulher e punir os agressores, muitas vítimas ainda relutam em denunciar.

Fátima foi ameaçada ser expulsa de casa pela família caso denunciasse o tio que a estuprou, com quem até hoje é obrigada a conviver.

A despeito da violência sexual extrema que sofreu do ex-marido, Neusa*, 58, de Fortaleza, nunca pôde denunciá-lo, já que dependia financeiramente dele. Além disso, ele era bastante influente na cidade.

“O que adianta denunciar e ter de voltar para a mesma casa com o agressor?”, fala Neusa, que diz acreditar que o caminho seria a criação de programas de proteção às vítimas.

O ex-marido de Neusa fez sexo anal forçado com ela no dia em que ela voltou da maternidade carregando a primeira filha deles. Depois do ato violento, ela conta que teve de ser internada, passar por algumas cirurgias e ficou com incontinência fecal como sequela. “Cada fralda que troco lembro dele”, diz com a voz embargada.

Na época, três décadas atrás, Neusa ainda permaneceu mais dois anos casada depois do acontecido, apesar dos abusos que se repetiram. “Achava que tinha feito algo para merecer aquilo.”

*Nomes trocados para preservar a identidade das entrevistadas.

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