Equilíbrio

Mulheres ainda sofrem com o estigma de solteirona

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Na nossa sociedade, a mulher é sempre ligada à casa, filhos e casamento para existir socialmente imagem: Getty Images

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Uma discussão velha –e que já deveria ter sido superada—ainda ronda o dia a dia das mulheres com mais de 30 anos que não se casaram: por que a sociedade ainda olha como se faltasse algo na vida delas, como se fossem incompletas?

Você que está solteira já se sentiu julgada por não ter um par?

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Para a psicóloga Maria Rita Polo Gascón, é como se a mulher precisasse de alguém para se definir socialmente. “Na nossa sociedade, mulher é sempre ligada à casa, filhos e casamento”, diz Marta Bergamin, doutora em sociologia e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Segundo o levantamento Registro Civil 2014, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), entre 2004 e 2014, houve queda de 9,9 pontos percentuais (de 86,3% para 76,4%) na taxa de casamentos entre homens e mulheres. E, dentre as mulheres que se casam, de acordo com a mesma pesquisa, a idade subiu de 23 para 27 anos, entre 1974 e 2014. Ou seja, mais mulheres estão optando por ficarem solteiras e, quando consideradas as que se casam, elas estão firmando compromisso mais velhas.

De acordo com Marta Bergamin, apesar do julgamento que ainda existe, hoje, há mais espaço para as solteiras do que antigamente. Os relacionamentos são mais dinâmicos: estar com alguém não significa estar com a pessoa para sempre, até a morte. É possível estar solteira em diversos momentos da vida, não uma condenação sem fim.

Julgamento diferente para homens

“A figura da solteirona recai principalmente sobre as mulheres com mais de 30 anos, por conta do relógio biológico, que dita o prazo para a maternidade. Já no caso de um homem solteiro com mais de 30 anos, as pessoas acham que é uma decisão dele, que tudo bem se manter assim”, diz a psicóloga Maria Rita.

De acordo com a doutora em sociologia Marta, aos homens ainda é dada mais liberdade de escolha, inclusive no que diz respeito à própria vida. “Um homem solteiro em qualquer idade pode ser visto como aquele cara que está aproveitando a vida ou que aproveitou muito enquanto era jovem. Já a mulher tem de ter uma boa explicação para não ser interrogada pelos outros”, fala.

Sem muita cerimônia, as pessoas falam coisas como “Você já está com mais de 30 anos e não está pensando em se arrumar na vida? Depois não vai dar tempo de ter filhos!” ou “Você não tem medo de sobrar? Logo, não vai ser mais bonita assim, o corpo envelhece e você vai ficar para titia”. Não raro, os comentários só cessam quando a solteira tem uma posição profissional sólida, bem remunerada e de sucesso. Mas, mesmo assim, as pessoas encaram o fato como um prêmio de consolação, dizendo: “Pelo menos, você tem uma carreira”.

Prazer de estar a sós

Com a conquista do espaço no mercado de trabalho, a ascensão na carreira e mais voz e peso nas decisões em geral que a mulher obteve ao longo dos tempos, é fato que embora o estigma permaneça, o peso dele para as mulheres mudou.

Maíla Sandoval, 35, escritora, de São Paulo, está solteira há cinco anos, depois de manter um relacionamento de uma década, e tranquila com o estado civil.

“Tenho vários prazeres solitários, sou bastante independente e não preciso compartilhar decisões. Posso ser totalmente eu mesma, não preciso me moldar a ninguém. Acho que estou cada vez mais próxima do que quero ser e vejo que muita gente abdica do que é na essência para manter um relacionamento”, fala Maíla.

A escritora ainda rebate a frase padrão que costuma ser associada às solteiras: “Está sozinha por falta de opção”. “Já me apaixonei várias vezes, até tentei namorar, mas todas as tentativas pedem investimento no outro e é mais difícil dar certo quando não queremos ceder muito. Sei que podem dizer oficialmente que fiquei para titia, mas esse estigma não é pesado para mim, não.”

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