Relacionamento

Relacionamento sempre envolve algum interesse? Especialistas respondem

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Para a psicóloga Ana Maria Fonseca Zampieri, o interesse é básico nos vínculos imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Quando pensamos em relação por interesse, costuma vir à cabeça o clássico exemplo do casamento por dinheiro. Mas, de acordo com especialistas ouvidos pelo UOL, todo relacionamento envolve interesse, não necessariamente por bens materiais.

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Segundo Sérgio Tamai, presidente do Departamento Científico de Psiquiatria da APM (Associação Paulista de Medicina), a justificativa é simples: somos seres sociais. Esse fato é um imperativo biológico e uma das características do ser humano.

“Dependemos da relação com outras pessoas para nossa sobrevivência, o desenvolvimento neuropsicológico e de nossa personalidade. Nossos antepassados relacionavam-se em busca de alimentos, procriação e proteção contra predadores. Atualmente essas necessidades básicas são supridas mais facilmente, e os interesses podem ser mais abstratos, tais como prestígio, poder e dinheiro”, declara.

Para Ana Maria Fonseca Zampieri, mestre em psicologia clínica pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, a palavra interesse tem popularmente uma conotação negativa, como se estivesse ligada a pessoas inescrupulosas ou antiéticas.

“O interesse é básico nos vínculos. Como ele se dará é que vai poder qualificá-lo de várias maneiras”, diz Ana Maria. A psicóloga diz que toda relação demanda algum interesse: emocional, afetivo, biológico, religioso, político, social, financeiro, de descendência, de pertinência, de redes sociais, filosófico e muitos outros. As necessidades variam conforme o indivíduo.

Esperamos das pessoas, inclusive, que validem nossa existência e nos ajudem a descobrir quem somos. “Está em nosso DNA a necessidade de precisar do outro para que possamos forjar nossa identidade e subjetividade. É impossível fugir dessa tendência inata”, diz a psicóloga Elaine Franzini Soria, analista junguiana pela SBPA (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica).

Às vezes, o interesse pode estar escamoteado. As amizades podem parecer que surgem naturalmente ou por afinidade, mas também são para tirar proveito, mesmo que não nos demos conta disso.

Pontos em comum

“Costumamos nos aproximar de pessoas que têm propósitos, valores, crenças e ética similares aos nossos, para que possamos crescer e ter a vida que desejamos. Algumas amizades contribuem com a vida que desejamos, outras nos limitam”, diz Sílvio Celestino, sócio-fundador da Alliance Coaching, empresa paulistana de consultoria e treinamento de executivos.

Na esfera amorosa, é comum buscarmos sempre, ainda que inconscientemente, um parceiro que nos ajude a conquistar nossos objetivos. Isso acontece porque várias de nossas escolhas não só são feitas de forma inconsciente como são governadas por mecanismos biológicos, que foram aprimorados ao longo da evolução de nossa espécie.

“Por exemplo, mulheres com cintura afilada e quadris largos são sexualmente mais atrativas para os homens, porque geralmente são vistas como mais férteis. E estudos indicam que mulheres consideram mais sexualmente atrativos homens altos de ombros largos e braços fortes, que podem prover mais proteção”, afirma o psiquiatra Sérgio Tamai.

Não é leviano afirmar que também procuramos para par alguém que nos complete e que nos traga aquilo que nos falta. Isso ocorre desde nossas primeiras experiências afetivas, com a mãe. “No início, o bebê não tem consciência de que é um ente separado da mãe. Quando não consegue obter alimento e sente fome, percebe que é um indivíduo dependente e busca a interação com outro indivíduo por meio do choro. É questão de sobrevivência”, fala Tamai.

Ao longo da vida, segundo Elaine, buscamos parceiros que atendam nossas necessidades em determinados momentos e que nos levem a descobrir e atualizar demandas da psique mais profunda, inconsciente.

No âmbito profissional, investir no networking é algo sempre aconselhado e valorizado –são relações puramente interesseiras, digamos assim, mas extremamente valorizadas e até desejadas para construir uma carreira de sucesso. Há uma reciprocidade implícita: da mesma forma que posso beneficiar alguém com uma indicação de emprego, posso ser também beneficiado.

“Talvez esse tipo de relacionamento seja melhor visto porque não existem laços afetivos”, diz Andrea.

Interagir e se relacionar por interesse, portanto, é uma questão de sobrevivência. A psicóloga Elaine lembra da relação de Chuck Noland (Tom Hanks) com a bola apelidada de Wilson no filme “Náufrago”, de 2000.

“Se o protagonista não tivesse inventado o Wilson, provavelmente, teria enlouquecido por ficar naquela ilha sozinho durante seis anos. A bola, que era um espelhamento do próprio Chuck, teve papel fundamental para que ele pudesse manter uma relação com um outro, dentro e fora de si mesmo, e para que não fosse tragado em um mar de loucura pelo trauma sofrido. Inventar o Wilson foi uma estratégia de sobrevivência, de resiliência, de saúde mental”, declara Elaine.

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