Relacionamento

Violência doméstica vai além de formas físicas de abuso

Maggie Chiang/The New York Times
O controle coercitivo descreve uma estratégia contínua com táticas que incluem manipulação, humilhação, isolamento, violência financeira e perseguição imagem: Maggie Chiang/The New York Times

Abby Ellin

Do The New York Times

O namorado de Lisa Fontes nunca bateu nela nem puxou seus cabelos, mas invadiu seu computador e instalou uma câmera para espioná-la em seu quarto e, sutilmente, distanciou-a dos amigos e da família.

Mesmo assim, ela não se considerava uma vítima de violência doméstica. "Só conseguia ver nosso relacionamento como uma relação ruim", conta Lisa, de 54 anos, que leciona educação para adultos na Universidade de Massachusetts, campus de Amherst.

Foi somente após fazer uma pesquisa sobre violência emocional que ela descobriu um nome para o que vivenciava: controle coercitivo, um padrão de comportamento que algumas pessoas –geralmente homens, mas nem sempre– empregam para dominar os parceiros. O controle coercitivo descreve uma estratégia contínua e múltipla, com táticas que incluem manipulação, humilhação, isolamento, violência financeira, perseguição, "gaslighting" (manipulação psicológica envolvendo a distorção de informações) e, às vezes, violência física ou sexual.

"O número de comportamentos violentos não importa tanto quanto o seu grau. Uma mulher me contou que o marido não queria que ela dormisse de costas. Ela devia encher o carrinho de compras de determinada maneira, vestir roupas de certa forma, lavar-se no banho em uma ordem determinada", diz Lisa, autora de um livro sobre controle coercitivo.

Embora o termo "controle coercitivo" não seja amplamente conhecido nos Estados Unidos, o conceito de formas não físicas de abusos como um tipo de violência doméstica está ganhando reconhecimento. Em maio, a hashtag #MaybeHeDoesntHitYou decolou no Twitter, com usuárias relatando suas histórias.

Em dezembro, Inglaterra e Reino Unido ampliaram a definição de violência doméstica para "comportamento coercitivo e controlador em um relacionamento íntimo ou familiar", transformando-o em delito penal com sentença máxima de cinco anos. Até agora, pelo menos quatro homens foram condenados segundo a nova lei.

"Nessa abordagem, muitos atos que eram tratados como contravenções menores ou que não eram vistos como delitos são todos considerados parte de uma única conduta criminosa séria", diz Evan Stark, assistente social forense e professor emérito da Universidade Rutgers, que ajudou a redigir a nova lei.

Stark observa que a lei inglesa diz respeito a uma conduta que ocorre ao longo do tempo. A lei norte-americana não trata do controle coercitivo; ela trata somente de episódios de agressão e protege principalmente as mulheres que se viram sujeitas a ataques físicos. Mas em quase 20% dos casos de violência doméstica não existe lesão corporal, ele explica.

O controle coercitivo costuma se transformar em violência física contra o cônjuge, como constatou estudo de 2010 publicado em "The Journal of Interpersonal Violence". "O controle é realmente a questão", afirma Connie Beck, uma das autoras do estudo e professora adjunta de Psicologia da Universidade do Arizona. "Se você conseguir controlar verbalmente as liberdades básicas da pessoa –aonde ela vai, quem ela vê, o que ela faz– não é necessariamente preciso bater nela com frequência, mas se a pessoa não obedece, então o agressor costuma recorrer à violência física."

Para uma vítima de controle coercitivo, uma ameaça pode ser interpretada equivocadamente como amor, principalmente nos primeiros estágios de um relacionamento ou quando a pessoa se sente muito vulnerável.

Lisa, por exemplo, era recém-divorciada e tinha mais de 40 anos quando conheceu o ex-namorado. Ele era encantador, amoroso e, embora fosse meio obsessivo, ela deixou para lá. Pouco importava que ela fosse doutora em aconselhamento psicológico e especializada em violência infantil e contra a mulher.

"Para uma pessoa procurando por amor e romance, pode ser maravilhoso que alguém queira monopolizar seu tempo", ela admite.

Para Rachel G., 46 anos, mãe de três filhos que mora nos arredores de Boston (ela não quis revelar o nome completo para proteger sua privacidade), a manipulação era exaustiva. O ex-marido a obrigava a dividir a escova de dente e nunca a deixava fechar a porta do banheiro. Ele instalou câmeras pela casa e um aparelho de GPS em seu carro para vigiar seus movimentos. Às vezes, ele aparecia sem avisar no trabalho dela, "sempre dizendo que precisava saber onde eu estava caso as crianças necessitassem de mim ou porque ele tinha saudade e queria me ver, mas era seu estilo de controlar meu comportamento".

Ela se sentia infeliz, mas aguentou durante 18 anos. Nunca lhe ocorreu ir embora. Por causa dos filhos e porque "ele me convencera de que eu seria infeliz em outro lugar", conta Rachel, que arrecada doações para uma entidade beneficente. "Eu era uma esposa ruim, em todos os sentidos, uma mãe negligente ou dominadora, não o apoiava, uma cozinheira ruim, dava prioridade ao trabalho, minha família gostava mais dele do que de mim, nossos amigos gostavam mais dele do que mim. Quanto pior eu me sentia em relação a mim mesma, quanto mais duvidava de mim mesma e internalizava a maneira como ele me via e a maneira como o mundo deveria funcionar, mais submissa e condescendente eu me tornava."

No final, foi ele e não ela quem pediu o divórcio, depois de flagrá-la tendo um caso. Ela não se orgulha dos atos, mas agradece ao fato de que isso a livrou daquele relacionamento. "Eu não teria ido embora se ele não pedisse a separação. Eu tinha medo." Desde então, ela vem tentando restabelecer o contato com parentes e amigos.

Por fim, Lisa deixou o parceiro após quatros anos. A decisão nasceu depois que ela viveu duas semanas longe dele e percebeu como estava diminuída. "Recebia inúmeros telefonemas e e-mails todos os dias, mas era um grande alívio acordar e me deitar sem ter de estar com ele. Recuperei a noção de ser uma pessoa independente, ter minhas próprias opiniões, minha própria perspectiva."

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