Equilíbrio

Mais de um em cada quatro adultos LGBT passam fome nos EUA, diz pesquisa

Yana Paskova/The New York Times
William Gonzalez, 50, é gay e vive no Queens, ele sobreviveu a um crime de ódio e vive com uma pensão do governo e recebe comida de um banco de alimentos imagem: Yana Paskova/The New York Times

Roni Caryn Rabin

The New York Times

Gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros americanos estão mais visíveis do que nunca: o executivo-chefe da Apple, Tim Cook, e a apresentadora de talk show Ellen DeGeneres são gays. Kate Brown, do Oregon, é a primeira governadora abertamente bissexual. Caitlyn Jenner, medalhista nas Olimpíadas e transgênero, tem um reality show.

Mas a riqueza dessas figuras famosas esconde uma realidade sombria: muitas pessoas da comunidade LGBT passam fome.

Um novo relatório descobriu que mais de um em cada quatro adultos LGBT não conseguiu se alimentar, ou a seus familiares, pelo menos uma vez no ano passado. Em comparação, apenas um em cada seis heterossexuais adultos relataram problema semelhante.

Determinados subgrupos da comunidade LGBT são particularmente vulneráveis à insegurança alimentar, incluindo minorias, mulheres, solteiros, bissexuais, os que não têm formação universitária, os mais jovens e aqueles que têm crianças em casa. (Acredita-se que os transgêneros também passem fome, mas não há muitos dados sobre esse grupo.) Especialistas dizem que os adolescentes LGBT, não incluídos estudo, também correm o risco de ficar sem alimento, especialmente se estiverem desabrigados.

Por trás das estatísticas, há pessoas como Sofia Torres, uma lésbica que, aos 71 anos, está desempregada e recebe apenas 35 dólares por semana em vale-alimentação após os cortes recentes; ou William Gonzalez, de 50 anos de idade, gay do Queens que sobreviveu a um crime de ódio, recebe uma pensão por invalidez do governo e depende de um banco de alimentos de grupos de caridade chamada “The River Fund” para suas compras; ou Tanya Asapansa-Johnson Walker, uma mulher transgênero de 53 anos que há tempos depende desses bancos, pois arrumar um emprego é muito difícil.

"Logo que percebem que você é trans, a expressão do rosto muda; a coisa para por aí", disse Tanya.

Sofia trabalhou a vida toda na construção civil, com carpintaria e em serviços de segurança, mas nunca casou ou teve filhos, por isso o sistema de apoio é menor. Mesmo tendo amigos, ela diz: "Amigos vêm e vão".

O novo relatório, "Food Insecurity and SNAP Participation in the LGBT Community" (Insegurança Alimentar e Programa de Vale-Alimentação na Comunidade LGBT, em tradução livre do inglês), publicado neste mês, usa dados de quatro grandes pesquisas nacionais que, quando combinadas, representam a vida e os desafios de quase 20 mil pessoas da comunidade LGBT.

"Ele abriu os olhos de muita gente, mesmo para quem luta para combater a fome e que normalmente não trabalha com a comunidade LGBT. Vi muitas pessoas de diferentes organizações se surpreenderem, pois não sabiam que a fome era uma questão tão grande nessa comunidade", disse Adam P. Romero, do Instituto Williams da Escola de Direito da UCLA, que é um dos autores do novo estudo.

Especialistas dizem que existem muitas razões pelas quais as pessoas LGBT enfrentam desafios econômicos maiores do que as heterossexuais. Um relatório de 2013 sobre pobreza descobriu que lésbicas, gays e bissexuais podem enfrentar discriminação no emprego e uma probabilidade maior de não ter seguro.

Para alguns, a ausência de apoio familiar também faz a diferença. A falta de acesso aos benefícios financeiros do matrimônio também afeta o status econômico de gays e lésbicas, porém, isso deve mudar agora que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado.

"As conclusões também surpreenderam muitos dentro da comunidade LGBT. Nossa própria comunidade ignora essas estatísticas tanto quanto o mundo hetero", disse Lorri L. Jean, diretora-executiva do Centro LGBT de Los Angeles.

As pesquisas incluem a pesquisa Diária de Adultos do Gallup, a Pesquisa Nacional de Crescimento Familiar, a Pesquisa da Comunidade Americana de Casais que Coabitam e a Pesquisa de Saúde Nacional de 2014. (O SNAP mencionado no título se refere ao Programa de Assistência à Nutrição Suplementar, comumente chamado de vale-alimentação.) A ConAgra Foods garantiu algum financiamento para o relatório.

Yana Paskova/The New York Times
Sofia Torres, 71, é lésbica e recebe apenas 35 dólares em vale-refeição por semana imagem: Yana Paskova/The New York Times

De acordo com essa nova análise, a probabilidade de um adulto LGBT relatar a falta de dinheiro para sua própria alimentação ou para suas famílias, em algum momento do ano passado, foi 1,6 vez maior que os de outros grupos. Casais do mesmo sexo se mostraram 1,6 vez mais propensos a ter recebido vale-alimentação no ano passado, em comparação com casais heterossexuais.

A insegurança alimentar tem um efeito desproporcional sobre as minorias. As respostas à pergunta, "Houve momentos nos últimos 12 meses em que você não teve dinheiro suficiente para comprar a comida que você ou sua família precisava?", tiveram diferenças marcantes.

Quase metade dos afro-americanos LGBT (42%) respondeu sim, comparados com 28% dos afro-americanos heterossexuais. Entre os hispânicos, 33% dos adultos LGBT havia passado fome, em comparação com 24% dos heterossexuais. Entre os brancos, 21% dos LGBT relataram não ter dinheiro suficiente para se alimentar no ano passado, comparados com 13% dos heterossexuais.

Notadamente, entre os nativos americanos e os do Alasca, adultos LGBT e heterossexuais passaram pela mesma situação de fome, com cerca de 30% de cada grupo relatando a falta de dinheiro para comprar comida no ano passado. Os dados são da Pesquisa Diária de Adultos do Gallup, que avaliou 81.134 heterossexuais e 2.964 pessoas que se identificaram como LGBT.

Entre esses últimos, as mulheres estavam mais propensas a passar fome do que os homens; 31% delas e 22% dos homens relataram não ter dinheiro suficiente para se alimentar no ano passado.

A percepção de que a comunidade LGBT tem dinheiro, é educada e está bem posicionada foi perpetuada por personagens de Hollywood, como o advogado Will Truman, da série "Will & Grace", e reforçada por vários empresários, atletas e celebridades.

Casais de gays e lésbicas são historicamente menos propensos a ter filhos, por isso há também uma percepção de que têm uma renda disponível maior que pessoas com famílias. Embora os dados sejam bastante escassos, a maioria dos estudos na verdade mostra que homens gays ganham menos em média que outros.

A crença de que a maioria das pessoas LGBT é próspera é "um dos mais persistentes e, francamente, perniciosos mitos sobre a comunidade. Em parte surgiu no próprio grupo, como uma estratégia de marketing que mostra essa população como um mercado consumidor atraente", disse Gary J. Gates, que escreveu o primeiro relatório sobre insegurança alimentar na comunidade LGBT e também é autor do novo relatório.

"A estratégia de promoção do dinheiro 'colorido' e do poder de compra da comunidade LGBT tem o apoio de várias empresas e aumentou sua compreensão das questões desse segmento", disse ele, mas também escondeu os problemas econômicos enfrentados pelos membros mais vulneráveis.

"Não é como na TV, onde todos os gays são fabulosos e vivem em apartamentos em Manhattan e são brancos", disse Cathy Bowman, diretora do projeto LGBT e HIV dos Serviços Legais do Brooklyn.

Muitos organizadores de programas de combate à fome agora estão começando a pensar sobre como transformar seus serviços de modo mais acolhedor para pessoas LGBT e como abordar a questão de uma perspectiva política, disse Abby Leibman, presidente e executiva-chefe da Mazon, grupo nacional de combate à fome.

Lorri, do Centro LGBT de Los Angeles, disse que planejava usar o novo relatório para conscientizar e "criar tumulto", além de pressionar a operação de bancos de alimentos locais para restaurar a distribuição que costumava existir em seu centro.

"Já vi financiadores do governo ao longo dos anos me dizendo coisas como: 'Mas vocês não precisam'. Há esse mito em nossa sociedade de que os gays são ricos, mas isso não é verdade. Temos um enorme contingente de pessoas que ganham menos do que seus colegas heterossexuais, e a maioria das pessoas, mesmo em nossa própria comunidade, não sabe disso."

 

Topo