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Reality de namoro com "pelados" tem a ver com exibição e não relacionamento

Invision for VH1/Divulgação
Participantes do programa de TV "Dating Naked", exibido pelo canal VH1, da TV americana imagem: Invision for VH1/Divulgação

Do UOL, em São Paulo

Pelo menos três programas de namoro na TV da atualidade –“Undressed”, “Dating Naked” e “Naked Attraction”, todos em exibição no exterior-- estão colocando os participantes em trajes íntimos ou nus para que encontrem um par. Os produtores das atrações falam em aumentar a conexão entre as pessoas, mas as especialistas ouvidas pelo UOL não validam essa justificativa.

Para Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan –centro de estudos da sexualidade humana--, o modelo tem mais a ver com exibicionismo do que com relações amorosas reais.

“É diferente de um Tinder ou outros aplicativos do gênero, nos quais as pessoas participam de fato e marcam encontros. Nos programas de TV, é um quadro para chamar atenção, sob o pretexto de arranjar namorado”, afirma Maria Helena.

As três atrações despem os candidatos, mas têm variações nas suas propostas.

Em “Undressed” (despidos em português), duas pessoas se veem pela primeira vez em um estúdio de TV equipado apenas com uma cama e um telão. Só há tempo para os cumprimentos até aparecer a instrução na tela: dispam um ao outro.

TLC/Divulgação
Casal se despindo no "Undressed" imagem: TLC/Divulgação

Mesmo constrangidos, eles têm de tirar a roupa da pessoa que acabaram de conhecer até que os dois estejam de roupa de baixo. Então, ambos vão para a cama e por lá conversam durante 30 minutos. Passado o tempo, terão de decidir se o encontro acaba ou continua. O programa foi lançado na Itália e, após um imenso sucesso, ganhou versão no Reino Unido, estreando em julho no canal TLC.

O “Dating Naked” (namorando pelado, em português) foi lançado, nos Estados Unidos, pelo canal VH1, em 2014, e está na terceira temporada. Na atração, os participantes são levados para uma ilha, onde tiram as roupas e saem em múltiplos encontros para se conhecer e descobrir com quem a química acontece. Embora todos estejam nus, o telespectador não vê os genitais, que sempre aparecem em imagens borradas.

Talvez por isso, o lançamento de “Naked Attraction” (atração nua, em português), no Channel 4, também no Reino Unido, causou alvoroço no mês passado. No programa, não há censura das genitálias. Os participantes escolhem com quem querem sair baseados unicamente no corpo da outra pessoa. O formato dos seios ou do peitoral, o tamanho das nádegas ou do pênis são parâmetros de avaliação e eliminação.

Channel 4/Divulgação
No "Naked Attraction", os participantes são avaliados por seus atributos físicos imagem: Channel 4/Divulgação

O rosto só é mostrado na última etapa, quando o participante central precisa escolher com qual dos dois finalistas quer sair para, enfim, conversar.

Os produtores da nova versão de “Undressed” defendem que o mote provocativo é só uma forma de chamar a atenção para um roteiro que prima pela conexão entre pessoas. Eles dizem que, sem roupa e em cima de uma cama, os casais desenvolvem intimidade rapidamente e ficam mais à vontade para se conhecer.

Maria Helena Vilela, do Kaplan, diz acreditar que isso aconteça, mas só enquanto as câmeras estão ligadas. “As duas pessoas nuas, conversando, estão mais vulneráveis e não conseguem esconder ou evidenciar determinadas características. Mas eu não apostaria nisso como um instrumento para estreitar laços ou formar vínculos. Se fosse assim, aqueles que saem uma noite e transam criariam laços também.”

De acordo com a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, são relações que prezam pelo prazer momentâneo. “Essas pessoas percebem alguém interessante para um contato físico e querem viver isso, sem a necessidade de um namoro”.

Tanto para Maria Helena quanto para Carmita, esses programas apontam para uma tendência de relacionamentos que contrapõe as relações virtuais, em que as pessoas se envolvem sem nunca ter se encontrado pessoalmente ou baseadas em fotos que muitas vezes não condizem com a realidade.

Verdade seja dita: participar desses programas exige uma dose de autoconfiança, porque é preciso ter uma boa relação com o corpo para estar lá. Essa segurança em relação à imagem pode justificar o sucesso das atrações na Europa.

“O nu entre os europeus é mais comum. Na Inglaterra e na Itália, o corpo é encarado com menos rigidez”, diz a psiquiatra Carmita Abdo. Prova disso é que os participantes possuem biotipos diferentes: corpos sarados, gordos, muito magros e maduros se misturam.

Mas e se houvesse uma versão brasileira dos programas? “Nós estamos à vontade com as roupas leves, mas não com a nudez. Aqui, as pessoas teriam de se sentir muito satisfeitas para expor seu corpo e as que estão fora do padrão não iriam participar”, diz Carmita.

O sucesso de audiência dessas atrações está relacionado com o fetiche de ser voyeur da intimidade alheia. “Prende a atenção, porque gera um estímulo em quem está assistindo. Esse é o motivo de a pornografia vender tanto”, declara Maria Helena.

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