Equilíbrio

Por que a "outra" é sempre a vilã da história?

Hannibal Hanschke/Reuters
Mal saiu a notícia da separação de Pitt e Jolie (acima, em foto de 2009), Marion Cotillard foi apontada como a responsável imagem: Hannibal Hanschke/Reuters

Mirian Goldenberg

Colaboração para o UOL

Na guerra de notícias sobre a separação de Angelina Jolie e Brad Pitt, é interessante perceber a repetição de um enredo que demoniza a personagem da “outra”.

Quando Brad Pitt se separou de Jennifer Aniston, Angelina Jolie foi muito atacada, especialmente pelas mulheres, por ser uma “destruidora de lares”. Após ter sido apontada como o pivô do drama protagonizado pelo casal Brangelina, a atriz francesa Marion Cotillard --que elegantemente negou ter envolvimento com o rompimento-- foi duramente criticada na internet.

Vale também lembrar o massacre virtual que Isis Valverde sofreu por ter sido considerada culpada --o que desmentiu-- pelo fim do casamento de Cauã Reymond e Grazi Massafera.

Paramount Pictures via AP
Marion Cotillard em cena do filme "Aliados", no qual contracena com Brad Pitt. A produção só estreia no Brasil em 2017 imagem: Paramount Pictures via AP

Por que a “outra” é sempre a vilã da história?

Na minha pesquisa sobre infidelidade com 1.279 homens e mulheres, grande parte das respostas apontou a "natureza masculina" como a principal causa da traição.

Inúmeros pesquisados acreditam que os homens não conseguem ser fiéis porque existe uma "natureza masculina" incontrolável. Eles seriam "poligâmicos por natureza". Alguns afirmaram que a infidelidade masculina é uma questão biológica, genética, inscrita no DNA.

Muitos homens me disseram que, mesmo amando e tendo uma boa vida sexual com as mulheres, não conseguiam --e não queriam-- controlar os seus "instintos animais". Afirmaram ainda que a verdadeira traição seria "trair a própria natureza".

No entanto, ninguém falou de uma "natureza feminina" propensa à traição ou que as mulheres seriam "poligâmicas por natureza". Quando elas traem, as causas seriam as crises do casamento ou as faltas e defeitos dos maridos.

Se muitos acreditam em uma "natureza" que não pode ser controlada, de quem seria a culpa pela traição masculina?

Como é fácil perceber nos xingamentos virtuais, a verdadeira culpada seria a "outra". Representada como uma mulher manipuladora, fatal e perigosa, a "outra" seria uma ameaça ao casamento, à família e aos lares felizes.

Já que os homens não conseguiriam controlar a própria natureza, muitos acreditam que quem pode --e deve-- controlar seus desejos sexuais são as mulheres. Por isso, as "outras" são acusadas, especialmente pelas mulheres, de serem vagabundas, exploradoras, interesseiras, mentirosas, chantagistas, malignas...

É curioso que as "outras" que pesquisei também não culpam os homens pela traição. Elas acreditam que as mulheres deles são as verdadeiras culpadas, já que não "tiveram competência" para "controlar" ou "prender os maridos". São acusadas de serem dependentes, submissas, coitadas, neuróticas, mal-amadas, invejosas, chatas, burras, feias, gordas, velhas...

É inquestionável que, nas últimas décadas, houve uma profunda transformação nas relações conjugais, mas é fácil constatar que na infidelidade --e também na liberdade do comportamento sexual-- ainda existe um enorme "privilégio" masculino.

Quando uma mulher xinga uma outra de "vagabunda" não percebe que está contribuindo --mesmo que inconscientemente-- para fortalecer a desigualdade entre os sexos e a lógica da dominação masculina?

Mirian Goldenberg é antropóloga, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora dos livros “A Outra” e “Por que Homens e Mulheres Traem?”, ambos da editora Bestbolso.

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