Gravidez e filhos

19 aspectos para considerar antes de decidir pelo parto domiciliar

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Antes de optar pelo parto em casa, gestante precisa saber se tem gravidez de risco imagem: Getty Images

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

A decisão de parir em casa não pode ser tomada sem antes a gestante pensar bem sobre a escolha e suas implicações.

A seguir 19 perguntas e respostas para ajudar a mulher a refletir sobre o tema.

Consultoria: Gabi Prado, doula de parto e pós-parto de Campinas e São Paulo; Vilma Nishi, enfermeira obstétrica e parteira domiciliar de São Paulo; Maira Duarte, terapeuta ayurvédica e doula, de São Paulo, e Camila Latorre Campana, doula, nutricionista e instrutora de ioga, de São Paulo.

  • Por que parir em casa?

    É importante que a gestante tenha claro os motivos que a levam a dispensar o serviço de um hospital e intervenções como anestesia. Quanto mais clareza tiver, mais segura ficará e melhor vai conseguir se preparar para o momento. Pelo fato de o parto domiciliar estar cada vez mais em evidência, muitas acabam sendo tomadas pela euforia e o escolhem sem fazer uma reflexão cuidadosa. O lugar ideal para parir é onde a gestante se sente mais segura e confortável, seja em casa, casa de parto ou hospital.

  • Toda mulher pode ter um parto domiciliar planejado?

    Sim, desde que seja saudável, tenha um pré-natal sem qualquer intercorrência (como pressão alta ou diabetes descontrolada) e não esteja gestando gêmeos ou mais bebês. É preciso também que a criança esteja posicionada e o parto ocorra com mais de 37 semanas de forma natural, sem nenhum tipo de indução.

  • Qual a opinião do CFM (Conselho Federal de Medicina)?

    Desde 2012, o CFM recomenda a médicos e à sociedade a realização dos partos em ambiente hospitalar, preferencialmente, por julgar ser essa a forma mais segura de nascer. Apesar dessa posição, a recomendação do conselho não tem peso de lei, e a entidade ressalta que a autonomia do médico e da mulher deve ser respeitada. Vale esclarecer que não existe lei que proíba o parto domiciliar.

  • Quais profissionais escolher para acompanhar o parto?

    Enfermeiras obstetras, obstetrizes, parteiras e médicos podem atender partos domiciliares --todos são capacitados para o atendimento de emergências obstétricas e reanimação neonatal. Durante a busca pela seleção de profissionais que vão apoiá-la durante o parto, a mulher tem de procurar conhecer cada um o máximo possível, buscar referências e estar ciente de que vai abrir --e muito-- sua intimidade para a equipe. Ela tem de se sentir segura também. Nem todas gestantes gostam dessa ideia e acabam ficando travadas durante o trabalho de parto, por vergonha de se exporem (o que vale para o parto hospitalar natural também). Isso muitas vezes prejudica a evolução do trabalho de parto.

  • Quais materiais a equipe de parto carrega consigo?

    Diversos itens, dentre eles, os usados para procedimentos pós-parto, como campo estéril para sutura, agulha de sutura, anestésico local, material de sutura, luvas, antisséptico (para serem usados em caso de laceração). Também constam na lista os utilizados para reanimação neonatal, como ambu (respirador manual), máscara, cilindro de oxigênio e material de aspiração, e ainda os necessários para emergência pós-parto materna, como soro, material de punção venosa e drogas anti-hemorrágicas. A equipe contratada ainda costuma combinar com a gestante, previamente, o que ela tem de providenciar (como lençóis descartáveis, panos de chão, toalhas de banho e alimentos).

  • É preciso contar para os familiares que o parto será domiciliar?

    Essa é uma decisão bastante pessoal e intransferível. É importante que a gestante sinta que a casa dela é um lugar seguro para parir, não temendo ser pega de surpresa pela chegada de ninguém. Por fim, parto domiciliar não pode ser sinônimo de livre acesso à gestante e ao bebê.

  • É preciso ter um bom plano B caso ocorra algum problema em casa?

    Enquanto os batimentos cardíacos do feto estiverem normais e a mulher estiver em boas condições, não há necessidade de ir ao hospital. Porém, para que o primeiro plano seja o parto domiciliar, é imprescindível definir um esquema para ir ao hospital, caso alguma intercorrência ocorra ou esteja sendo prevista pela equipe (como irregularidade nos batimentos cardíacos do feto), ou ainda se a mulher decidir que quer anestesia. É praxe toda a equipe de parto domiciliar conversar sobre o plano B com a mulher bem antes do dia do nascimento e, inclusive, indicar em quais hospitais é aceita. Nessa conversa, é abordado como será o transporte, quem vai dirigir, qual a instituição mais próxima que aceita o convênio da gestante, que tipo de situação exige deslocamento, dentre outras coisas. Não é preciso deixar nada marcado no hospital com antecedência, afinal, se o plano A é parir em casa --e nesse caso o parto não tem data marcada--, não há como avisar antes. Para dar entrada na maternidade, é importante levar um documento de identificação, como o RG ou a carteira de habilitação.

  • Como a equipe de parto avalia se está tudo bem com a mãe e o bebê?

    Os profissionais fazem monitoramentos constantes dos batimentos cardíacos da criança e dos sinais vitais maternos, e a dilatação é medida com toque manual, pela parteira, médico ou obstetriz. Também vale a pena saber que a equipe conversa com a mulher de tempos em tempos, para saber como ela está se sentindo. Isso ajuda a analisar o estado físico e emocional dela e abre espaço para que ela diga, por exemplo, se quer desistir de parir em casa e buscar um hospital porque quer a anestesia.

  • Em casa é possível fazer algum procedimento para induzir o parto?

    A equipe não pode fazer nada para acelerar ou induzir o parto. Caso um desses procedimentos seja necessário ou a mulher peça por eles, ela precisa ser levada ao hospital.

  • O pai da criança precisa estar de acordo com o desejo de parir em casa?

    O local do parto deve ser escolha da mulher. Por isso, é fundamental que ela se posicione claramente e compartilhe seus desejos e escolhas com o parceiro com bastante antecedência. Quando ele apoia a decisão, sem dúvida, tudo é mais favorável: muitas doulas costumam dizer que o casal dá à luz junto.

  • O que é importante para se informar sobre o parto domiciliar?

    Procurar conhecer mulheres que passaram por essa experiência --há muitos grupos de discussão nas redes sociais e centros e organizações que promovem encontros presenciais a respeito--, ler relatos de parto do gênero, assistir a vídeos disponíveis na internet e buscar acessar as evidências científicas a respeito são atitudes que ajudam a tomar a decisão de maneira racional.

  • Parir em casa é solução para quem tem medo do ambiente hospitalar?

    Parir em casa não pode ser uma opção de fuga. Se você não gosta de hospital, pense em procurar uma casa de parto, por exemplo. Não é um ambiente hospitalar, mas tem uma infraestrutura diferente de uma casa e mais gente ao redor. Pode ser que você se sinta mais à vontade. Lembre-se que seja qual for o lugar escolhido, é fundamental que a gestante se sinta bem nele. Sentir medo, significa liberar adrenalina, hormônio que bloqueia a ocitocina, que, por sua vez, é o hormônio que comanda as contrações.

  • Que tipo de intercorrência pode acontecer que demande ir ao hospital?

    Alguns problemas com a mãe ou com o bebê podem ocorrer e implicam em buscar atendimento hospitalar, como batimentos cardíacos irregulares da criança e mecônio (nome dado às primeiras fezes do bebê) excessivo, mas essas são questões raras em mulheres saudáveis e com gestações sem intercorrências. No mais, o que muitas pessoas imaginam ser motivos para transferência são questões resolvidas no ambiente doméstico, como parto pélvico (o bebê nasce sentado) não identificado no pré-natal. Hemorragia pós-parto também não é razão para transferência para o hospital nem necessidade de reanimar o bebê. Nessas ocorrências, os procedimentos de atendimento em casa são realizados da mesma maneira que no hospital. Há que se destacar que nem sempre estar em um local com toda estrutura e equipamentos médicos é a solução para intercorrências graves. Mãe ou filho podem morrer --há hemorragias que não conseguem ser contidas e bebês que não respondem à reanimação. Quanto mais clareza a mulher tiver sobre isso, melhor. Muitas pessoas acreditam que a opção de ter o bebê em casa é uma negação dos avanços da medicina, já que é necessário ter um médico assistindo o nascimento. Porém, a OMS (Organização Mundial da Saúde) reconhece como profissionais habilitados para prestar assistência ao parto tanto médicos quanto enfermeiras obstetras e parteiras.

  • É necessário ter preparo físico de atleta para conseguir dar à luz em casa?

    Embora muitos médicos afirmem que a mulher tem de estar bem preparada fisicamente para o parto natural, a justificativa não faz sentido. Muitas mulheres praticam esportes durante a gestação toda e têm bom condicionamento físico e, nem por isso, resistem sem anestesia. Outras, depois, contam às amigas que o processo foi muito cansativo, mesmo ela sendo uma atleta. Não há regras. O importante é ter saúde e não apresentar uma gravidez de risco.

  • A casa precisa ser grande para que o parto ocorra?

    É consenso entre parteiras, doulas e outros profissionais que atendem partos domiciliares que a casa da gestante nunca é pequena ou ruim para que o bebê nasça lá. O espaço não é uma questão impeditiva. As salas hospitalares, inclusive, costumam ser menores do que a maioria das casas. Se na residência houver cama e chuveiro à disposição, já se tem o mais importante. A cama é usada geralmente em momentos de descanso e para o pós-parto. O chuveiro com água quente ajuda a aliviar as dores causadas pelas contrações, além de ser útil para a mulher se banhar depois do nascimento da criança. Porém, alguns outros objetos podem garantir mais conforto, de forma a ajudar o trabalho de parto a fluir. Dentre eles, a bola grande de pilates ("over ball"). A gestante pode ficar sentada nela, fazendo movimentos circulares com o quadril, o que não só ajuda a relaxar como faz o bebê descer. Também é interessante usá-la para descansar, ajoelhando-se no chão e apoiando braços cruzados e uma das laterais do rosto na bola. Uma piscina infantil é outro item comum em partos domiciliares. Com água morna, serve para ajudar a relaxar --algumas mulheres também escolhem estar dentro da piscina no momento do nascimento da criança.

  • Após parir sem médico, a mulher precisa ser examinada por um profissional?

    Não. Se o parto não tiver sido acompanhado por obstetriz, é aconselhável que a mãe vá ao ginecologista obstetra uma semana depois do nascimento. Se tiver sido acompanhado por uma enfermeira obstetra, a consulta pode ser marcada para um ou dois meses depois. Evidentemente, caso ela tenha algum desconforto, deve antecipar esses prazos.

  • Um pediatra precisa acompanhar o parto domiciliar?

    Não é necessário. Ao nascer, o bebê será avaliado pela enfermeira obstetra ou pela parteira. A primeira consulta pode ser marcada no consultório médico para uma semana depois do nascimento. Se um pediatra puder ver o bebê no mesmo dia ou visitar a mãe e o bebê no dia seguinte, ótimo. Ele pode ajudar em questões relacionadas à amamentação.

  • Em média, quanto custa parir em casa?

    Os preços variam muito, dependendo da cidade e da equipe contratada. Uma obstetriz pode cobrar entre R$ 3.500 a R$ 5.000 reais, por exemplo --e só ela basta para o parto--, mas há equipes que trabalham com duas obstetrizes e o valor cobrado sai por R$ 6.000 o serviço prestado pela dupla. Quem contrata uma doula geralmente desembolsa entre R$ 1.000 e R$ 2.000 (além de acompanhar o parto, é praxe que o pacote de serviço contemple também entre quatro e seis encontros antes para que doula e gestante se conheçam, a futura mãe tire dúvidas e fale de suas vontades e medos).

  • Há estudos que comprovem a segurança de parir em casa?

    Diversos estudos são publicados de tempos em tempos a respeito. Muitos acabam caindo em descrédito pela comunidade médica porque não têm o rigor acadêmico necessário para ser levado em consideração. Fazem recortes tendenciosos ou avaliam um número insignificante de casos. Um estudo que pode ser tomado como bom exemplo foi realizado pelo Projeto Estatístico da Aliança de Parteiras da América do Norte, em 2014. O documento reuniu dados sobre 16.924 grávidas que planejavam ter parto domiciliar, das quais 89,1% pariram em casa. A maioria das transferências intraparto foi por falha de progressão no trabalho de parto e somente 4,5% das mulheres precisaram de ocitocina ou anestesia. A maioria dos bebês nasceu bem --a taxa de Apgar (avaliação de alguns quesitos da saúde da criança imediatamente após o nascimento) menor que sete foi conferida somente a 1,5% dos casos-- e somente 1,5% das mulheres teve de ser transferida para o hospital depois do parto por alguma complicação, tal como 0,9% dos bebês. A taxa de morte intraparto --ou seja, quando a morte fetal acontece depois de começado o trabalho de parto, porém antes do nascimento da criança-- foi de 1,3 a cada mil nascimentos e a de morte neonatal precoce, de 0,4 a cada mil nascimentos.

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