Infância

Mães que adotaram crianças mais velhas contam suas histórias

Do UOL, em São Paulo

A adoção de crianças com mais de três anos já é considerada tardia. Nessa idade, elas possuem certa autonomia: não usam mais fraldas, sabem falar e andar. Por outro lado, também carregam mais vivência do que os bebês, o que pode incluir traumas, medos e vícios de comportamento. E é justamente esse aspecto que assusta os que desejam adotar. Mas aqueles que já passaram pela experiência garantem que tudo pode ser resolvido com amor. Conheça mais detalhes dessas histórias. 

  • Arquivo pessoal

    Filho é filho, não importa a idade

    "Antes mesmo de nos casarmos, eu e meu marido já planejávamos adotar. De início, queríamos crianças até quatro anos mas, após frequentarmos grupos de apoio à adoção, nos conscientizamos de que filho é filho, não importa a idade. Então, optamos por crianças até sete anos. O processo de habilitação, em que avaliam se os pais estão aptos a adotar, levou longos 12 meses. Depois, fomos visitar um abrigo e vimos uma menina tímida e retraída que, aos poucos, ia se soltando. Decidimos que seria ela. Em casa, a adaptação foi difícil. Nos primeiros dias, ela estranhou bastante a mudança de casa e chegou a testar nosso amor. Ela não aceitava 'não' como resposta, só fazia o que queria e na hora que queria. Foi um longo trabalho até ela entender a noção de limites. A adaptação à nova escola também foi dura. Ela rejeitou, a princípio, e nem queria entrar no colégio. O que ajudou muito foi o acompanhamento psicológico semanal, porque era uma nova realidade para nós duas: ela aprendendo a ser filha e eu, a ser mãe. Hoje, após quase dois anos em nossa família, ela é outra criança: inteligente, esperta e faladeira. É a prova de que o amor realmente transforma as pessoas." Ester Montefusco, 36, advogada. Mãe de Sabrina, nove anos.

    Imagem: Arquivo pessoal

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    Adotar foi um processo natural

    "O desejo de adoção é algo que já estava no meu coração desde a adolescência, porque eu tenho dois irmãos adotados. Ao todo, o processo de adoção durou um ano e um mês, até eu conhecer minhas filhas. Eu já tinha um filho biológico, que hoje está com 24 anos. No meu perfil do Cadastro Nacional de Adoção optei por crianças até oito anos e disse que aceitava irmãos ou gêmeos. Então, conheci as irmãs Ana Maria e Ana Clara e foi como um reencontro, tive a nítida sensação de que elas sempre tinham sido minhas. A conexão foi imediata, tanto que não senti que passei por uma fase de adaptação. Quando elas chegaram em casa, foi como se retornassem de uma viagem. Para mim, nada foi inesperado. Todas as birras e alegrias fazem parte do processo de educação e não há diferenças entre os filhos biológicos e os do coração." Eliane Alves Lopes, 48, professora. Mãe de Ana Maria Cristina, quatro anos, e Ana Clara, sete anos.

    Imagem: Arquivo pessoal

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    Na adoção tardia não há revelação

    "Fiquei dez anos tentando engravidar, sem sucesso. Cheguei a conseguir uma vez, mas sofri um aborto espontâneo com seis semanas de gestação. Então, eu e meu marido decidimos adotar uma criança. No início, nos dispusemos a aceitar um filho de até cinco anos e onze meses. Porém, tudo mudou quando conhecemos a Thalia, que tinha seis anos, mas agia como uma menininha de quatro, com uma pureza encantadora. Ela chegou com problemas de fala, porque tinha uma deficiência auditiva que não foi notada. Com isso, desenvolveu problemas de aprendizagem também. Hoje, está dois anos atrasada na escola, mas já fala muito melhor, por conta das sessões de fonoaudiologia e da convivência familiar. A adoção tardia tem o benefício de você não precisar fazer a revelação para a criança, ela já sabe que foi adotada. Mas é preciso ter sensibilidade e consciência de que muitas delas sofreram maus tratos, abandono, negligência e violência. Tem que estar preparado para amar e acolher alguém que pode ter traumas. Hoje, nossa filha é o nosso tesouro. Se soubéssemos como é maravilhoso ser pais adotivos, teríamos evitado muito sofrimento." Aline Tavernard Wrencher Franco, 43, fotógrafa. Mãe da Thalia, nove anos.

    Imagem: Arquivo pessoal

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    Precisamos ensiná-los a amar

    "Eu já era mãe biológica de dois meninos quando eu e meu marido decidimos adotar. Como procurávamos uma menina, nos avisaram de duas gêmeas de nove anos que estavam em um abrigo, em Santa Catarina. Saímos do Rio de Janeiro para conhecê-las e nos apaixonamos. Depois, soubemos que elas tinham dois irmãos, um de 16 anos e outro de 11 anos. Fomos até lá novamente para conhecê-los e decidimos adotá-los também. Só que o Lucas, na época com 11 anos, não quis vir. Ele ainda tinha esperança de que a mãe fosse voltar para buscá-lo. Então, levamos os três para casa. A adaptação do Vitor, o mais velho, foi a mais difícil. Ele sentiu muito a mudança de rotina: todos saíram da cidade natal e também mudaram de escola. Meus filhos biológicos passaram por uma adaptação também: eles tiveram que aprender a dividir o que era deles com outros irmãos. Alguns meses depois, a família ficou ainda maior. O Lucas soube que a mãe dele não voltaria para buscá-lo, porque ela foi chamada pelo juiz e disse isso claramente. Então, ele veio morar com a gente. A chegada do Lucas fez com que o Vitor mudasse de comportamento e se adaptasse melhor à nossa família. Hoje, posso dizer que a adoção tardia não é um bicho de sete cabeças, mas é preciso entender que todos eles tiveram uma vida muito sofrida e não foram ensinados a amar. Quem vai ensinar isso é a família adotiva." Michele Ferreira, 38, turismóloga. mãe de Vitor, 19, Gabriel, 17, Lucas 14, Guilherme, 14, Alice e Laura, 12.

    Imagem: Arquivo pessoal

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    Buscamos uma criança alfabetizada

    "Eu me casei com 47 anos, então sabia que seria difícil ter um filho biológico. Mas, por outro lado, eu e meu marido não queríamos ser apenas um casal. Conhecemos nosso filho oito meses depois de entrarmos no Cadastro Nacional de Adoção. Queríamos uma criança que já viesse alfabetizada para estabelecermos uma boa comunicação. Achávamos que já não tínhamos mais idade para ficar rolando no chão com filho pequeno. O Jonas tinha oito anos quando veio morar com a gente, adorava ler e mostrava muito cuidado com as crianças menores. Nós nos demos muito bem desde o princípio, ele é exatamente o filho que sonhamos. Mas houve um período difícil de adaptação, claro. Ele sentia muito medo na hora de dormir: ficava triste, estranhava os barulhos da redondeza e tinha receio de ser abandonado. Passamos por um momento de teste também, que é quando a criança adotada se comporta de maneira diferente, desafiando a autoridade e as regras, para ter certeza de que realmente é aceita e amada. Mas soubemos lidar com todos os episódios de comportamento agressivo. Entendemos que a criança precisa 'balançar a árvore' para ter certeza de que os frutos estão bem presos, para ela saber que pode confiar em seus pais." Maria Angélica Amarante dos Anjos, 57, psicóloga. Mãe de Jonas, dez anos.

    Imagem: Arquivo pessoal

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