Bebês

O que mudou nos cuidados com o bebê do tempo das avós para cá

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Uma forma de diminuir conflitos entre pais e avós é levar estes às consultas do bebê com o pediatra imagem: Getty Images

Melissa Diniz

Do UOL, em São Paulo

Não há como negar que no tempo das vovós os cuidados com o bebê eram muito diferentes dos preconizados hoje. As mudanças --amparadas em pesquisas científicas-- algumas vezes são radicais e podem criar conflitos de gerações entre os pais novatos e os avós experientes.

Para evitar divergências em família, o pediatra e homeopata Moises Chencinski, de São Paulo, diz que pede aos pais que levem também os avós nas consultas do bebê. “Eles estranham algumas das recomendações, por isso facilita se ouvirem o que fazer e o que não fazer da boca do médico”, afirma o especialista.

Confira alguns cuidados de alimentação, higiene e sono que mudaram ao longo das últimas décadas.

  • Introdução alimentar após os seis meses

    Chencinski diz que as principais mudanças que têm acompanhado em sua prática clínica se aplicam à alimentação. "Quando eu me formei, há 36 anos, recomendava-se dar suco de frutas para o bebê com um mês, papa de frutas, com dois meses, almoço, com três, e jantar com quatro. Hoje isso é impensável. Recomendamos o aleitamento materno exclusivo e em livre demanda até o sexto mês de vida", afirma. Segundo o médico, não se deve dar suco a bebês abaixo de um ano, pois a bebida aumenta o risco de obesidade e diabetes. Já as frutas, introduzidas após os seis meses, não devem ser passadas na peneira para que não percam as fibras.

  • Leite de vaca

    Outro alimento antes liberado a partir dos seis meses e hoje proibido até que a criança complete um ano é o leite de vaca, bastante associado ao surgimento de alergia alimentar. Segundo o médico, no passado, havia a cultura de que criança gordinha era saudável. Por isso, as mães davam mamadeira com açúcar e farinha, imaginando que o leite do peito pudesse ser fraco. "O leite materno é o alimento mais completo para o bebê, e criança gordinha fica em observação porque é um potencial obeso infantil", declara Chencinski.

  • Nada de papas líquidas e salgadas

    O hábito de bater a comida no liquidificador ou passar na peneira para o bebê comer mais também deve cair por terra. "Isso dilui demais a comida, destrói as fibras, transforma tudo em líquido, levando a criança a ingerir mais do que precisa. Além disso, mastigar é muito importante para desenvolver a musculatura da face e da boca e a fala." O especialista explica que também não se deve salgar a papinha de bebês abaixo de um ano. O sódio em excesso faz mal à saúde. "Alguns pais reclamam que a comida sem sal fica sem gosto, mas isso é muito relativo, pois o bebê não tem referência para comparar."

  • Chupeta

    Outra questão polêmica é a chupeta. De acordo com o médico, o melhor é não usar. "Assim como a mamadeira, a chupeta estimula a pega incorreta do bico, levando o bebê a parar de mamar na mãe." Para o pediatra, a chupeta resolve o problema dos pais, que têm menos disponibilidade hoje do que tinham há 40 anos. "Costumam usá-la quando querem que a criança pare de chorar, é uma solução mais fácil e não mais adequada", diz.

  • Produtos neutros

    A neonatologista Clery Bernardi Gallacci, do Hospital e Maternidade Santa Joana, em São Paulo, fala que, ao contrário do que se fazia antigamente, hoje não se recomenda o uso de produtos de higiene com perfume em bebês, para evitar alergias. Tudo deve ser neutro.

  • Banho morno

    Clery afirma também que, décadas atrás, os pais tinham o hábito de usar água muito quente no banho do bebê. "O mais indicado é usar a água em temperatura morna. Também não há necessidade de ferver", diz.

  • Não exagere nas pomadas

    Se antes nas trocas de fraldas, o uso de pomadas era abundante, hoje, sabe-se que em excesso os cremes contra assadura podem modificar o pH da camada natural da pele, destruindo a flora bacteriana e predispondo a irritações. "Usa-se o mínimo possível, lembrando de limpar com água e algodão e jamais passar talco, que pode causar rinite e até sufocamento", diz Clery Bernardi Gallacci.

  • Evite agasalhar demais a criança

    Outro cuidado importante é não agasalhar demais a criança. "Era comum colocar luvas, touca, roupinhas quentes, mesmo no verão, pois se acreditava que o bebê sentia mais frio do que um adulto. Isso não procede. Ele tem a temperatura corpórea normal e deve ser vestido de acordo com o clima, de acordo com Clery. Alguns objetos como pulseirinha, colarzinho, mantas com babados e fitas não são mais indicados, pois podem ser engolidos ou enroscar, causando acidentes.

  • Fuja das crendices

    A pediatra e neonatologista Claudia Marilia Fenile Conti, do Hospital e Maternidade São Cristóvão, no Rio de Janeiro, conta que algumas dúvidas trazidas pelos avós estão relacionadas a crendices. "Alguns acreditam que deixar o bebê se olhar no espelho atrapalha o desenvolvimento da fala, que se as roupinhas ficarem expostas ao sereno, o bebê terá cólicas. Não há comprovação científica sobre isso. Outros usam álcool para baixar a febre, mas sabemos que não se deve fazer isso, pois o álcool pode ser facilmente absorvido pelo organismo do bebê", fala.

  • Sem moeda no umbigo

    Claudia Conti costuma ser questionada também sobre o costume de colocar uma moeda sobre o umbigo do bebê e enfaixar para a evitar o surgimento de hérnias. "Não é recomendado. O cuidado ideal é limpar com álcool 70% a cada troca de fralda e manter sempre seco, isso vai fazer o coto umbilical secar e cair naturalmente."

  • Cuidado com o charutinho

    Embora bastante popular, a técnica de enrolar o bebê para que ele se acalme e durma melhor, conhecida como charutinho, também exige cuidados dos pais. Pesquisas recentes apontam que ela aumenta em 25% o risco de morte súbita. O risco também está presente se a criança dormir de bruços. "Hoje, indicamos que o bebê durma de costas, sem travesseiro, sem paninho ou protetor de berço", diz Chencinski. Por segurança, um estudo publicado neste ano no periódico científico "Pediatrics" sugere que os pais deixem de enrolar o bebê a partir do momento em que ele adquire a capacidade de se virar sozinho. Para o médico, outro problema relacionado à prática é a possibilidade de causar um quadro conhecido como luxação congênita de quadril. "As perninhas do bebê não são esticadas, permanecem um pouco dobradas nos primeiros meses de vida. O charutinho pode forçá-las a ficarem retas, levando o fêmur a se deslocar do quadril", diz o pediatra.

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