Infância

Na Ucrânia, o caratê combate estereótipos sobre síndrome de Down

Genya Savilov/AFP/Reprodução
O menino Vova Tkachuk, que tem síndrome de Down, luta caratê na Ucrânia imagem: Genya Savilov/AFP/Reprodução

Da AFP

Kiev, 8 Jul 2016 (AFP) - O pequeno Vova, com síndrome de Down, pode ter alguma dificuldade para se expressar, mas não quando se trata de lançar um golpe com o cotovelo em sua aula de caratê em Kiev.

Com seis anos, ele faz parte de um grupo de crianças que praticam essa arte marcial na capital ucraniana, quebrando estereótipos nessa antiga república soviética, onde crianças com deficiência costumam ser marginalizadas e incompreendidas.

"Ainda não fala muito bem, mas consegue nos fazer entender que quer ir ao caratê", conta sua mãe, Marina, enquanto o ajuda a vestir o quimono.

"Todas as manhãs, ele acorda e sabe que tem treino à noite. Isso o deixa feliz", completa Marina.

Os cursos acontecem no ginásio de uma escola de Kiev. É um dos poucos lugares na Ucrânia onde uma criança como Vova pode interagir com outros pequenos com a mesma alteração genética.

Para a maioria dos pais, brincar com outras crianças é essencial para o desenvolvimento dos filhos. Na Ucrânia, existem aulas especiais para as crianças com deficiência, e é muito difícil obter todas as autorizações necessárias para a criação de grupos mistos. Trata-se de um trabalhoso e desanimador processo burocrático.

Na escola visitada pela AFP em Kiev, a instituição simplesmente ignora todas essas obrigações. Por isso, seu diretor insistiu em que o nome e a localização do estabelecimento não fossem revelados.

"Os pais e eu mesma assumimos toda a responsabilidade", afirma a treinadora da escola, Natalia, 48.

Falta de cursos 

A escola abriu seu primeiro curso para crianças com síndrome de Down em 2013. Em 2015, começou a oferecer as aulas mistas. Desde então, seis crianças com Down participam dos cursos.

"Essas crianças estão isoladas na Ucrânia", comenta Natalia.

"Aprendem a conviver com outras pessoas apenas por intermédio dos pais ou nas escolas especiais, onde estão cercadas de crianças com a mesma síndrome", fala.

Segundo Natalia, a presença de outras crianças é eficaz, e as crianças de seu curso já fizeram grandes progressos no plano físico, além de terem desenvolvido um verdadeiro interesse pelo esporte.

Alguns chegam a participar de competições quase no mesmo nível que as demais crianças.

Para a mãe de Vova uma preocupação permanece, porém: a reação dos outros pais.

"Em geral, os pais de crianças 'normais' têm medo de que haja crianças com a síndrome nas aulas", relata.

"Infelizmente, poucas pessoas no nosso país sabem o que é a síndrome. Não entendem que essas crianças são verdadeiramente amáveis, e não agressivas", completa.

Outra mãe, Liudmila, lamenta a falta de oportunidades para essas crianças. Ela conta que passou meses procurando um lugar onde o filho Denis, de dez anos e também com síndrome de Down, pudesse praticar atividade física.

"Meu filho é hiperativo. Quando estava no jardim de infância faltava um lugar para gastar toda sua energia", diz.

"Gostaria de tê-lo colocado para fazer esporte mais cedo, mas não achávamos cursos", afirma essa mãe, feliz com os avanços que o filho já fez no caratê.

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