Gravidez e filhos

Livro traz experiência com barriga de aluguel

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Dizem que curiosidade mata. Neste caso, ajudou a nascer. Foi muito por curiosidade que a jornalista Teté Ribeiro quis ser mãe: "Não tem como saber o que é, a não ser vivendo". Foi também por curiosidade que ela quis conhecer a barriga de aluguel de suas filhas: "Queria descobrir de que lugar físico vinham meus bebês, quem lhes deu à luz". Entre uma inquietação e outra, surgiu o livro Minhas Duas Meninas (Companhia das Letras, R$ 39,90), que será lançado em 12 de julho.

Teté Ribeiro é editora da revista Serafina, da Folha de S.Paulo. Por sete anos, ela e o marido, Sérgio Dávila, editor executivo do jornal, tentaram engravidar por métodos caros e invasivos, alguns com técnicas experimentais. A questão era que os óvulos dela tinham boa qualidade, mas o útero carecia de aderência. Cansados do "purgatório da infertilidade", entraram com a papelada para a adoção. Em 2013, a tal curiosidade de Teté foi aguçada pelas barrigas de aluguel da Índia, onde a prática é legalizada desde 2002.
 
O casal entrou em contato com a Dra. Nayana Patel, dona de uma clínica em Anand, 90 km ao sul de Ahmedabad, ex-capital da Índia. A médica é famosa: já saiu com destaque em matérias da BBC e da Forbes. Por intermédio da Dra. Nayana, mais de 1 mil bebês vieram ao mundo via "gravidez por substituição". Os candidatos a pais chegam da própria Índia e de vários cantos do mundo, distribuídos mais ou menos na seguinte proporção: 40% locais, 30% indianos que vivem em outros países e 30% estrangeiros.
 
Espera
 
Teté e Sérgio entraram na lista de espera, interessados na estrutura do lugar, na tecnologia avançada e no valor mais em conta que em alguns Estados americanos, na Tailândia e no México, onde a prática também é permitida. No total, pagariam US$ 25 mil. Se a gravidez fosse gemelar, a quantia subia para US$ 31,5 mil. Somente mulheres casadas, entre 21 e 45 anos, e que tenham pelo menos um filho podem colocar sua barriga à disposição. Vanita, a escolhida pela dra. Nayana, tinha 28 anos à época e um filho, Aarav, de 5.
 
O maior dilema - a mãe de aluguel se arrepender e decidir ficar com o bebê - é resolvido por um contrato. Ela não tem nenhum direito sobre a criança, que ganha a nacionalidade dos pais biológicos. "A legislação indiana e a brasileira, até este momento, têm um encaixe perfeito para as barrigas de aluguel", escreve Teté. "A maior preocupação do governo da Índia é que Rita e Cecília não sejam cidadãs indianas; a do Brasil é que não tenham dupla cidadania."
 
Informações. O que não se encaixou tão perfeitamente foi o jeito indiano de editar e divulgar as informações. É compreensível que, por lei, os obstetras indianos não possam revelar o sexo dos bebês durante a gravidez. Entre a classe média e média baixa do país, é comum o aborto provocado quando se sabe que uma menina está abrigada no útero.
 
Acontece que, crente de que acompanharia o parto, Teté chegou um mês antes do previsto. Só no dia seguinte soube que suas crianças estavam "um pouquinho nascidas". A cesárea tinha acontecido três dias antes. Rita e Cecília estavam bem, precisavam apenas engordar até os 3 quilos, quando ganhariam o selo "fit to fly", prontas para voar de volta. Não era por isso que lhe negaram um e-mail ou um telefonema avisando do nascimento. "Para aqueles indianos com quem convivi, a versão contada é aquela que eles supõem que você deva saber."
 
Teté quer que suas filhas conheçam todo o processo. O casal fez um álbum com as fotos do primeiro mês de vida na Índia e o deixa à mão das garotas. "Elas têm só 2 anos, ainda são pequenas para formular qualquer pergunta, vou deixar que a curiosidade delas guie a informação."
 
Em tempo: Teté troca fotos das crianças com Vanita por WhatsApp. Com o dinheiro que lhe coube na oferta da barriga, US$ 8 mil, a indiana pagou dívidas. A família, porém, continua em dificuldade. Vanita não pode ser mãe de aluguel de novo, já que fez duas cesarianas. Quer ser cuidadora em Israel, de idosos ou bebês. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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