Infância

Custos transformam creche em 'luxo' educacional nos EUA

Arquivo pessoal
Casal paga mensalidade de creche de US$ 2.145 imagem: Arquivo pessoal

Pablo Uchoa

A conta da creche veio cedo para o português Nuno Geraldes Freire, morador de Chevy Chase, região elegante da capital americana, Washington.

Por causa da alta demanda, e pela prioridade dada a filhos de funcionários federais, embaixadas e instituições multilaterais, ele teve de - como diz - "inscrever o feto" em listas de esperas de diversas instituições.

Cada uma cobrou entre US$ 50 e US$ 150, mesmo sem a garantia de vaga.

Estes gastos foram somente um aperitivo do que Nuno e sua esposa, Hannah, proprietários de um café no centro de Washington, passaram a bancar quando Madalena, hoje com cinco meses de idade, finalmente conseguiu uma vaga.

A mensalidade custa US$ 2.145 e não inclui sequer as fraldas, se queixa o empresário. "Nem mesmo a fotografia que hoje tiramos da bebê é oferecida. Se quisermos, temos de pagar. A esse preço, eu esperava lagosta e uma garrafa de champanhe", ironiza.

"Frequentar a creche está ao preço de uma boa universidade. Talvez num futuro próximo se deva colocar no currículo."

Tirar a sorte

A ironia é que isso é exatamente o que indica um levantamento da ONG Child Care Aware of America, segundo o qual mandar os filhos para um berçário ou creche já custa mais que pagar uma universidade pública em 31 dos 50 Estados americanos.

A média varia entre US$ 4,8 mil por ano (cerca de R$ 10,6 mil), no Mississippi, e US$ 16,5 mil (mais de R$ 36 mil), em Massachusetts, verificou o estudo.

Os valores são altos porque refletem os custos de se operar um serviço fortemente ancorado na mão de obra - que responde por até 80% da sua planilha de gastos - e cheio de regulamentações para garantir a segurança e a qualidade do cuidado das crianças. Para a ONG, não existe "gordura" nos custos das creches, o que indica que o problema não tem solução fácil.

Em Nova York, o custo médio anual de uma creche, US$ 15 mil, equivale a mais que o dobro do que os residentes do Estado pagam para estudar em uma universidade pública, indicou a pesquisa.

Por ser uma área exclusivamente urbana, o Distrito de Columbia, onde está Washington, tem médias tão altas que nem entraram na comparação. O valor pago por Nuno e Hannah não foge da norma na capital americana.

"A tendência geral (nos Estados Unidos) para os custos de educação em todas as suas formas é continuar subindo a um ritmo mais rápido do que tanto a inflação quanto o aumento da renda", disse à BBC Brasil a diretora de Políticas da organização, Michelle McCready.

Porém, diferentemente da universidade - uma despesa para a qual os pais se preparam desde a infância dos filhos - os custos com creche pegam muitos de surpresa, ela diz. As alternativas são escassas e contar com os sogros é inviável em um país onde as oportunidades de trabalho em outros Estados implicam a separação das famílias.

"Quando estes serviços ficam fora do alcance dos pais, muitos optam por opções informais, o que é tirar a sorte", avalia McCready.

Babás contratadas informalmente podem acabar sendo "fantásticas", reconhece a especialista. Mas o resultado de cuidados de baixa qualidade pode ser o desperdício de potencial de crianças, justamente em uma idade crucial para o seu desenvolvimento cerebral e emocional.

Desenvolvimento infantil

Estudos do economista James Heckman, Prêmio Nobel da Universidade de Chicago, indicam que dar estímulos nos primeiros oito anos de vida das crianças tem o efeito duradouro de elevar o seu QI até pelo menos os 21 anos de idade.

Por "estímulos", Heckman se refere a "tudo que os pais de classe média já fazem" para oferecer desde cedo incentivos e um ambiente que estimule as habilidades cognitivas dos filhos.

"Pais em desvantagem econômica simplesmente não estão provendo muita informação para os filhos", disse o economista em uma entrevista recente à rede pública "PBS".

Heckman emprega o termo "abismo" para se referir a este fenômeno, que não deixa de ser um espelho das disparidades de renda e oportunidades na sociedade americana. E que também se traduz na qualidade dos serviços educacionais que os pais podem prover para os seus filhos.

Os Estados Unidos estão entre os países com custo mais alto de cuidados de primeira infância do mundo: equivalente a 23% da renda familiar de um lar em que os dois pais trabalham, segundo os cálculos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Na Irlanda, Reino Unido e Suíça, os custos com o cuidado na primeira infância são ainda mais altos proporcionalmente, mas a média dos países da OCDE é de 11,8%.

O Departamento de Saúde americano considera preocupante quando essa rubrica supera 10% do orçamento familiar.

Segundo a Child Care Aware of America, a creche come em média 18% do salário de um casal em que ambos trabalham - e mais de 60% dos ganhos de uma mãe solteira.

"Os pais necessitam deixar seus filhos em idade pré-escolar em esquemas que funcionem, e a sociedade precisa de mais pessoas trabalhando para fortalecermos a economia", diz McCready. "Portanto, não é um problema apenas social, mas também econômico."

Baque para as mães

O mais comum é que esse baque econômico tenha efeitos sobre os horizontes profissionais das mães. Um levantamento do instituto Pew Research indicou que 30% das mães americanas que saem da força de trabalho nunca mais voltam, comparado a 23% em 1999.

Para o instituto, a explicação está no alto custo do cuidado infantil.

Mesmo quem se planejou e pode arcar com ele, como a advogada Missy McGoogan, não escapa de fazer uma ginástica logística. Solteira, ela voltou a trabalhar cerca de quatro meses após o nascimento do filho Kiran.

Por uma combinação de fatores, a advogada conseguirá trabalhar de casa a maior parte do tempo e contratou uma babá - cujos valores variam entre US$ 15 e U$ 25 por hora nos Estados Unidos - para passar cinco horas por dia cuidando de Kiran.

"Tenho sorte de estar em uma carreira que me permite contratar uma babá", diz Missy. Mesmo assim, ela conta que as primeiras experiências com uma empregada não foram bem sucedidas. "O problema é encontrar alguém em quem você possa confiar."

"Você passa muito tempo pesquisando, procurando e entrevistando candidatas. Muita gente contrata imigrantes ilegais e paga menos, mas as pessoas conscientes pagam salários decentes, plano de saúde e férias. Quem cuida bem do seu filho merece ganhar um salário honesto."

Missy conseguiu solucionar o problema de onde deixar Kiran, mas ainda sente, como outras mulheres, que a menor disponibilidade para o trabalho acabará prejudicando-lhe a carreira.

"As mulheres ainda são vistas pelos empregadores como menos produtivas, porque podem ter de dedicar menos horas ao trabalho", avalia.

A advogada, que trabalhou a vida toda em escritórios privados de advocacia, diz que agora "a perspectiva de uma carreira no serviço público ou em uma organização sem fins lucrativos parece mais atraente".

Brasil

A educação infantil particular tem seu peso no orçamento das famílias brasileiras, mas não é tão expressivo, explica o professor Naércio Menezes, do Insper, com base em dados da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE), de 2008.

"Famílias com gastos mensais acima de R$ 2.743 (equivalente hoje a R$ 3.617, com a correção da inflação) gastavam em média R$ 340 (ou R$ 448) com creches, menos do que gastavam com os ensinos fundamental, médio ou superior", diz o pesquisador.

Para famílias com orçamento inferior a R$ 1.372 (hoje equivalente a R$ 1.809) esse gasto era de R$ 56 (hoje R$ 73) em média.

Mas, como muitas coisas no país, a média esconde cenários extremos.

De um lado, há um deficit de cerca de 8 milhões de vagas em creches públicas em todo o Brasil.

Do outro, a BBC Brasil encontrou, em bairros nobres de São Paulo, creches particulares que chegam a custar cerca de R$ 5.000 (cerca de US$ 2.230) por mês - mais do que a mensalidade de algumas faculdades de primeira linha.

Segundo o Anuário da Educação 2014, da ONG Todos Pela Educação, 44% das crianças de 0 a 3 anos da parcela mais rica da população frequentam creches, contra 16,2% entre as famílias mais pobres.

A meta do Plano Nacional de Educação é atender no mínimo 50% de todas as crianças brasileiras entre 0 a 3 anos até 2016.

Mas, segundo Menezes, isso não é necessariamente algo bom. "Para crianças nessa idade, o mais importante é ter pessoas que interajam com elas. Será que todas as creches, públicas ou privadas, terão atendimento e comida de qualidade? Se não tiverem, talvez seja muito melhor para a criança ficar em casa, sendo cuidada por parentes."

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