Gestação

O que os pais têm a aprender com as babás do cinema?

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Mary Poppins é uma babá rigorosa, mas com jeito doce nas telas do cinema imagem: AP

Lucy Townsend

Há 50 anos, a babá Mary Poppins apareceu nas telas de cinema pela primeira vez. O longa-metragem apresentava uma visão muito particular da vida de uma família de classe média. Ao longo dos anos, os filmes têm influenciado o que as pessoas pensam sobre paternidade?

Mary Poppins ensinou aos pais muitas coisas, como, por exemplo, que os quartos ficam melhores se arrumados, que cada tarefa tem seu lado divertido e que um dia organizado é um dia feliz. O jeito rigoroso, mas doce de Poppins controlou a indisciplina dos sapecas Jane e Michael Banks - ela conseguiu o que seus pais e inúmeras babás nunca conseguiram.

Apesar de décadas terem passado desde sua estreia, as técnicas de Poppins ainda são elogiadas pelos pais de hoje em dia.

O blogueiro Kenney Myers, que escreve sobre educação infantil, descreve Poppins como "padrão de ouro", e o especialista em paternidade Michael Grose afirma que há algumas lições importantes que os pais podem aprender com o filme.

A relação entre pais e filhos, ou entre babás e crianças, é um tema frequentemente explorado na ficção. Isso pode resultar em uma inspiração para os espectadores.

Terapia do filme

"Com a personagem, podemos aprender a importância de impor limites e o papel que desempenham na educação dos filhos", explica o psicanalista Bernie Wooder, que usa "terapia do filme", como parte da sua técnica de tratamento.

"Quando ela chega, traz organização e parece mágica, pois tudo começa a dar certo. É uma lição eficaz", afirma.

O psicanalista acrescenta que recomendou a um pai que assistisse ao filme "Uma Babá Quase Perfeita", protagonizado por Robin Williams. No filme, o ator é Daniel Hillard, um pai que perde a guarda de seus três filhos após o divórcio. No desespero para vê-los, ele acaba se fantasiando de mulher – com peruca, maquiagem e seios falsos – e encarna uma babá de sotaque escocês, para conseguir um trabalho na casa de seus filhos e, assim, conviver diariamente com eles.

"Esse filme realmente ajudou um dos meus pacientes, pois expressa o nível de frustração que ele estava sentindo – de que ele estava preparado para fazer qualquer coisa para passar mais tempo com seus filhos", diz Wooder.

Usar um disfarce para burlar a Justiça não é, no mundo real, uma boa ideia. No entanto, o filme traz uma lição sobre proximidade. "Filmes são uma ferramenta importante para ajudar a compreensão das pessoas sobre determinados aspectos da vida. É sobre reconhecer um sentimento ou uma atmosfera e ter algum tempo para sentar, assistir e refletir", diz.

A babá de fala mansa vivida por Williams faz parte de uma série de personagens de filmes que exploram a relação entre pais e filhos. Os longas "Três Solteirões e um Bebê" e "Kramer x Kramer" podem ter ângulos bem diferentes, mas ambos lançam olhar sobre a relação entre pais e filhos na intimidade.

Há também a figura do pai durão, como o capitão Von Trapp, no clássico "A Noviça Rebelde", em que seus filhos marcham em fila ao som de seu apito. A gradual "suavização" de sua abordagem torna muito mais próxima a relação entre o capitão e seus filhos.

Para a especialista Sarah Ockwell-Smith, o desenho animado "Procurando Nemo", da Disney, é o filme que apresenta melhores lições sobre o tema. "É um grande exemplo de uma família monoparental ou, mais especificamente, um pai que cria seu filho sozinho desde o nascimento - algo que se vê raramente em filmes", diz ela.

"No início do filme, o pai de Nemo é o que chamamos de 'pai helicóptero' – sempre vigiando os passos do filho e não dando liberdade. O filme mostra que esse tipo de comportamento não é legal e não é garantia de que nada de ruim possa acontecer ao filho", explica.

"O filme acaba mostrando o quanto Nemo é confiante: um sinal de que houve uma boa criação", diz.

Lançado em 2010, o filme "Minhas Mães e Meu Pai" mostra uma visão diferente de família moderna. Annette Bening e Julianne Moore interpretam um casal de lésbicas que têm dois filhos concebidos por meio de um banco de esperma. Sua filha rastreia o doador e ele, pai biológico, aos poucos se torna parte da família.

Já Cyrus explora a relação muito próxima entre uma mãe e seu filho e as tensões que surgem quando ela começa um novo relacionamento amoroso.

"Filmes ensinam o que fazer e o que não fazer em igual medida", afirma a especialista Claire Halsey. "Eles fornecem uma valiosa lição e um ponto de reflexão", diz.

"É interessante quando os filmes mostram diferentes variações sobre a estrutura familiar. As famílias podem ter formatos e tamanhos diferentes e isso é uma lição para pais e filhos", explica.

Famílias grandes

Famílias grandes são um tema muito explorado em filmes. Muitas vezes caóticas, elas servem para retratar pais nem tão perfeitos. Em "Esqueceram de Mim", o personagem de Macaulay Culkin, Kevin, é esquecido em casa por sua família, durante o feriado de Natal.

Em "Doze é Demais", os pais travam uma constante batalha contra a bagunça de seus muitos filhos. "Muitos filmes mostram o extremo: ou são famílias perfeitas ou cheias de problemas", diz Helen O’Hara, editora adjunta do site da revista "Empire".

"No filme 'Doze é Demais', a família tem uma vida perfeita. Fora ter de lidar com alguma bagunça, a família e o casamento são sólidos e eles vivem em uma bela casa", diz.

"O filme "O Tiro que não Saiu pela Culatra", dos anos 90, foi um pouco além. Havia mais variações de tipos de paternidade e as questões apresentadas eram interessantes", afirma O’Hara.

O filme acompanhou os diversos dilemas enfrentados por famílias grandes. Há a mãe solteira lidando com seu filho adolescente problemático, um pai desesperado tentando fazer com que sua filha seja uma criança superdotada e o pai exuberante, vivido por Steve Martin, que vive de forma caótica com sua crescente família.

"Às vezes, é ridículo pensar que você não pode ser nenhum dos pais retratados no filme, pois você não vai cometer os mesmos erros", diz.

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