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Cinco armadilhas de festas infantis e como escapar delas

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Caso de menino britânico de cinco anos que recebeu 'fatura' de R$ 63 após faltar a festa de amigo da escola causou polêmica imagem: Getty Images

Luís Guilherme Barrucho e Mariana Della Barba Da BBC Brasil em São Paulo

O que fazer quando convidados trazem "agregados" e o salgadinho e o guaraná correm o risco de faltar? Puxe o coro do "Parabéns pra Você" na metade da festa.

Foi assim que a assessora Letícia Alencar conseguiu contornar uma situação delicada: em uma das festas infantis que organizou, recebeu 50% a mais de convidados do que previa a lista oficial do aniversariante.

"A festa tinha duração inicial de cinco horas. Percebi que veio muito mais gente do que prevíamos. Não deu outra: quando o relógio marcou três horas e meia de festa, corri para cantar 'Parabéns'", conta ela.

Seguindo a tradição sacralizada em estados como Rio e São Paulo, o "Parabéns pra Você" era um eufemismo para "acabou a festa". "No fim, deu tudo certo", relembra ela, aliviada. "Mas não sei o que faria se a comemoração tivesse sido realizada em outra região do país, visto que, em outros estados, a música é cantada no início e a festa continua depois disso", acrescenta.

Independentemente de qual parte do Brasil ou do mundo a festa aconteça, há sempre a possibilidade de surgir alguma saia-justa. Recentemente, na Inglaterra, um menino de cinco anos recebeu uma conta de 15,95 libras (R$ 63) após faltar à festinha de um amigo da escola.

No país, o costume é que os anfitriões enviem um pedido de confirmação aos pais das crianças convidadas –e o faltoso havia confirmado a sua presença.

A BBC Brasil ouviu pais e organizadores de festas infantis para listar cinco saias-justas de aniversários infantis –e como eles conseguiram livrar-se delas.

Cultura do atraso

Atire o primeiro brigadeiro quem nunca chegou atrasado em uma festa. Mas, para os pequenos, o descomprometimento dos convidados com o horário tende a gerar cansaço e uma ansiedade difícil de controlar –e talvez só interrompida quando o primeiro amigo chega.

"Sempre quando faço festas para os meus filhos, sei que os convidados vão atrasar, no mínimo, de uma hora a uma hora e meia. Uma vez, meu filho começou a chorar porque, uma hora depois de começar a festa, nenhum convidado ainda havia chegado", conta Mariana Della Barba, repórter da BBC Brasil, blogueira sobre assuntos de maternidade e mãe de Theo, 5 anos, e Liz, 2.

"Por isso, tomei uma decisão: só digo ao meu filho que a festa começou quando os primeiros convidados chegam. Dessa forma, ele não fica tão ansioso."

Para especialistas, o diálogo aqui é a melhor solução. "Diga aos convidados que a festa tem hora para começar e terminar. Especialmente se for realizada em uma casa de festas. Ou seja, quanto mais atrasados eles chegarem, menos tempo terão para aproveitar o evento", sugere Letícia Alencar.

A mesma recomendação vale para quem não quer de maneira alguma deixar o local. "Isso é muito comum em festas nas quais os pais são muito jovens. Pais jovens costumam ter amigos também jovens e sem filhos que, por causa disso, ficam até o último minuto", conta Tatiane Carvalho, gerente da Magia e Cia, casa de festas infantis há 20 anos no mercado paulistano.

Excesso de convidados

Precavidos, organizadores de festas infantis calculam entre 10% a 20% o número de convidados extras, ou os populares "penetras". Sim, eles também existem fora do mundo adulto.

O que fazer quando seu filho comemora aniversário e um amigo dele aparece na festa com um primo? Ou com o primo e um amigo do primo? Se a indelicadeza não for o seu forte, invariavelmente, haverá uma conta a pagar.

"Sempre recomendo a meus clientes que encarem a festa infantil como uma festa de adultos. Envie um 'save the date', que nada mais é do que um aviso, com, no mínimo, dois meses de antecedência. No convite, peça a confirmação da presença, disponibilize seus contatos para facilitar a comunicação. E, por fim, reserve um tempo para ligar para as mães dos amiguinhos", diz Kika Duarte, sócia-fundadora da Auguri Festas.

Adultos que não se comportam

Especialistas pedem bom senso quando o assunto é convidar os colegas de classe para a festa

Festas são um prato cheio para "barracos". E com as infantis não é diferente. A culpa recai, normalmente, na ingestão excessiva de bebidas alcoólicas.

"Uma vez; uma senhora bebeu tanto que, no fim da festa, começou a xingar todo mundo em alto e bom som. Foi horrível e extremamente constrangedor. Ela não podia beber, mas bebeu escondido no banheiro", conta Carvalho, da Magia e Cia.

"Em outro episódio, o pai do aniversariante bebeu tanto que deu em cima da prima na frente da mulher. A mãe da criança ficou em prantos e nem preciso dizer que a festa acabou ali mesmo", acrescenta.

A paulistana M.F, mãe de um menino, passou por maus bocados com o marido de uma amiga.

"No aniversário do meu filho do ano passado, uma amiga levou o namorado novo, e o sujeito já chegou meio bêbado. Além de estar lá de bico, tinha as piores brincadeiras. Em determinado momento, ficava puxando o pé das crianças e acabava derrubando várias delas. Fora que fez várias piadas de mau gosto, deixando o pessoal sem graça", contou.

"Sério, tanto bar, restaurante, balada pra ir e ele vai em uma festa de criança? Chamei minha amiga de canto e falei pra eles irem embora imediatamente. Não pode ficar cheio de dedos nessas horas!"

Para evitar vexames como esses, especialistas recomendam moderação na oferta de álcool em festas infantis ou oferecer festa no estilo 'inglês' em que as crianças são deixadas no local da comemoração por cerca de duas horas, sem a presença dos pais.

Crianças que não se comportam

Uma dúvida atormenta os pais, normalmente de primeira viagem: tenho direito de chamar atenção dos filhos dos outros?

Segundo os especialistas, a resposta é sim. Até porque a indiferença pode sair cara, especialmente se a atitude da criança colocar em risco sua própria segurança ou a de seus colegas.

"Aqui na casa de festas, os monitores estão preparados para lidar com situações como essa. Certa vez, contrariando uma determinação do recreador, o aniversariante, um menino de apenas cinco anos, disse: 'posso fazer o que quiser, porque estou pagando'. Nessa hora, treinamos a equipe para não dar o braço a torcer. É claro que em nenhum momento elevamos o tom com os pequenos; apenas explicamos a eles o que podem ou não podem fazer."

F.P, pai de uma menina, contou à BBC Brasil: "Na festa de quatro anos da minha filha, uns coleguinhas dela começaram a mexer em um brinquedo que ela ganhou. Ela começou ficar nervosa, os pais das outras crianças não falavam nada, fui lá e guardei o brinquedo. Pouco depois, uma das meninas estava tentando escalar uma estante. Falei uma vez. Não adiantou. Logo em seguida, ela acabou derrubando a minha câmera".

"Fiquei irado. Dei uma megabronca. Acho que temos de ter liberdade para chamar atenção do filho dos outros, especialmente em festinha, quando eles, às vezes, saem de controle. Acho válido ter essa liberdade, do mesmo jeito que gostaria que outros pais tivessem com minha filha."

Convidar todos os colegas de classe?

Qual é o protocolo quando seu filho pequeno faz aniversário? Ele é obrigado a chamar a classe toda? Ou pode escolher seus amigos mais próximos? A dúvida consome tantos pais que até escolas de São Paulo se viram obrigadas a determinar um procedimento padrão sobre como agir nesses momentos.

Na Suécia, uma escola confiscou todos os convites de aniversário de um menino de oito anos porque ele deixou de fora de sua festa dois colegas de classe. O imbróglio chegou a ser levado ao Parlamento do país.

Segundo especialistas, não há uma regra única nesses casos, mas vale o bom senso.

"Era o aniversário de oito anos do meu filho e íamos levar os amiguinhos dele para dormir no nosso sítio. Deixamos que ele escolhesse cinco –não tínhamos como olhar muitas crianças", conta P.V., mãe de dois meninos.

"Depois da festinha, coloquei algumas fotos no Facebook da criançada se divertindo. Um pai veio tirar satisfação porque não chamei a filha dele. Tentei explicar, mas ele nem respondeu de volta", afirmou.

"Não esperava esse tipo de comportamento de adultos, mas não me arrependo. Meu filho ficou feliz e isso que importa."

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