Infância

Robôs, naves espaciais e semáforos feitos por alunos reforçam ensino da ciência em escolas públicas

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Aulas de robótica permitem a crianças da rede municipal de Cascavel aprender como funcionam postes e carros imagem: Divulgação

Paula Adamo Idoeta Da BBC Brasil em Sao Paulo

O tempo que Maurício Emanoel da Silva, 10, antes passava vendo TV ou jogando videogame depois das aulas, hoje, ele dedica, durante quatro horas semanais, a construir robôs e programas de computador em sua própria escola.

"Já inventei robôs diferentes que se mexem. E também uma nave espacial", conta o menino, aluno do ensino fundamental da rede municipal de Cascavel (PR). "Comecei a gostar mais dessas coisas de ciência da escola por causa do projeto."

O projeto a que ele se refere é o Robótica Educacional, aplicado desde o ano passado e em curso hoje em três escolas da rede municipal da cidade paranaense, com o objetivo de desenvolver o raciocínio lógico de crianças de nove a 11 anos, estimular a resolução de problemas e aumentar seu interesse pelas aulas.

Atualmente, no chamado contraturno --período após as aulas reservado a atividades extracurriculares--, ou mesmo durante as aulas, os alunos usam peças plásticas coloridas produzidas em impressoras 3D e aulas de programação de informática para criar projetos de robótica e aprender como funcionam objetos e sistemas cotidianos, como os de semáforos, carros e postes de luz. As aulas abrangeram cerca de mil alunos até agora.

"A gente percebia o desinteresse dos alunos pelas aulas tradicionais, que perdiam o significado para eles", diz à BBC Brasil o professor Jocemar do Nascimento, responsável pela iniciativa.

"O objetivo é trazer para a aula o que os alunos veem no dia a dia e usar isso em qualquer disciplina. Não é uma aula de robótica em si, mas uma forma diferente de ensinar o conteúdo das aulas tradicionais e outras habilidades."

Simulações

Em uma das aulas, o instrutor Thiago Sodré explicou aos alunos do 4º e 5º anos do ensino fundamental como funcionam as lâmpadas LED de postes de luz e como sensores eletrônicos garantem que elas acendam somente à noite.

"A partir disso, fazemos a programação no computador para criar nossos próprios postes e ver como eles funcionam", fala.

Gabrielli Dressel, 10, diz que o que mais gosta é programar, mais até do que colocar os projetos em realidade com a montagem das peças. "No computador, conseguimos simular o quanto tempo cada luz do sinaleiro (semáforo) vai durar --o amarelo, o verde e o vermelho", ela conta à BBC Brasil por telefone.

"Vou à escola à tarde só por causa da robótica mesmo. Torna o aprendizado muito mais legal."

Um dos destaque do projeto é justamente ter aproximado a ciência de meninas como Gabrielli, diz Sodré.

"Foi entre as alunas que percebemos o melhor desenvolvimento (após a adoção das aulas de robótica)", diz o instrutor. "Elas têm grande facilidade em manipular e montar peças pequenas."

Engajamento

Não há uma medição oficial dos resultados da iniciativa até o momento, mas Sodré e Nascimento dizem notar empiricamente que os alunos participantes tendem a faltar menos às aulas, se engajar em outros projetos da escola, desenvolver raciocínio lógico e a se interessar mais por ciência e matemática.

"Alguns estão visualizando que podem trabalhar com eletrônica no futuro, com condições melhores do que as que têm hoje em sua família", afirma Sodré. "Chegam em casa e desmontam seus carrinhos para montar algo novo e me trazem no dia seguinte."

Mauricio é um desses: já destruiu um carrinho de plástico para adaptá-lo em uma criação própria. Ele agora se prepara para criar seu projeto final, que é um robô que consiga controlar pelo tablet.

A meta, diz Sodré, é que alunos como Mauricio continuem se interessando pelo tema mesmo depois de encerradas as aulas extras, no quinto ano do fundamental.

Outro objetivo é estender o projeto para outras escolas de Cascavel, algo em fase de estudos.

Segundo Nascimento, o Robótica Educacional pode ser replicado em qualquer ambiente escolar porque depende apenas de uma impressora 3D para a montagem e reposição das pecinhas e de programas abertos, que não pagam direitos autorais.

"Com R$ 20 mil, conseguimos comprar um kit básico completo para uma escola."

O mais difícil, diz ele, é dar o primeiro passo: convencer e capacitar os professores para ensinar o método e integrar suas aulas.

"A capacitação do professor é essencial para o projeto ir para a frente", diz. "Tentamos mostrar que a nova metodologia pode ser integrada às antigas. É algo que não faz parte da formação inicial dele (professor), mas temos notado que muitos têm interesse em usar esses novos recursos."

Para ser levado para além de Cascavel, o projeto foi incluído na Rede Conectando Saberes, iniciativa da Fundação Lemann que reúne professores engajados em mudanças na educação para que eles troquem experiências entre si.

"Aqui em Cascavel já tínhamos certa tradição de ensinar informática nas escolas, mas mesmo isso era feito de forma mais tradicional, apenas com uso de textos e cálculos", explica Nascimento. "Isso tem de mudar, porque o aluno de hoje é outro, tem outra bagagem. Só com o básico, ele fica disperso na sala de aula."

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