Gravidez e filhos

Amamentação até os sete anos divide opiniões entre mães e especialistas

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Ivonete Lucirio

Do UOL, em São Paulo

Giulia Martins tem sete anos e já está na primeira série. Quando chega da escola, perto da hora do almoço, vai correndo procurar o peito da mãe. “Tento enrolar porque, se mamar, ela não almoça direito”, diz Fátima Martins, a mãe. “Mas não acho que ser amamentada por tanto tempo seja um problema”. Fátima conta que a frequência da amamentação vem diminuindo naturalmente. “Até os cinco anos, eram três ou quatro vezes por dia. Agora é só quando chega da escola e antes de dormir”. Giulia não conta para os amiguinhos que ainda mama porque tem medo que riam dela, e a mãe respeita o segredo da filha.

São muitas as mães que sequer conseguem dar o peito ao filho até os dois anos. Os impedimentos variam: falta de tempo, necessidade de voltar ao mercado de trabalho, preocupação com o corpo. Boa parte das crianças é deixada desde cedo com babás ou em escolinhas. Fátima, mãe de Giulia, só é capaz dessa proeza porque é professora particular e tem um horário bastante flexível, além de não ter outros filhos. Antigamente, os períodos de amamentação geralmente eram curtos, porque a mulher logo engravidava novamente e o novo bebê tomava o lugar do irmão mais velho nos seios da mãe.

O que dita por quanto tempo a criança vai mamar é mais a dinâmica da sociedade do que fatores biológicos. “A amamentação é um fator determinado socioculturalmente. Por isso amamentar por mais tempo causa estranheza”, diz Keiko Miyasaki Teruya, do departamento de aleitamento materno da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Mas biologicamente e psicologicamente, não vejo problema nenhum nisso”. Keiko conta que, certa vez, em uma reunião com índios, perguntou até que idade as crianças mamavam. "Sabe qual foi a resposta? ‘Até quando elas quiserem’”.

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Faz bem para a criança? 
As opiniões sobre o aleitamento por longos períodos são controversas. Grande parte dos pediatras defende que, se não faz bem, mal também não faz. A principal função do leite materno nos primeiros meses de vida é servir como fonte de nutrição para a criança e proteger sua saúde. Até os seis meses, a proteção dos anticorpos presentes no leite materno é fundamental, e continua sendo significativa até os dois anos. Por isso, a Organização Mundial de Saúde aconselha a amamentação exclusiva por seis meses e complementar até dois anos ou mais -sem, entretanto, especificar quanto é esse “mais”. Não há estudos mostrando o papel do leite materno no sistema imunológico depois desse período. Também não há estudos definindo as características nutricionais do leite de uma mulher que amamenta por cinco ou seis anos. “Nessa fase, o leite ainda tem algumas características nutricionais, como vitaminas, mas não são tão significativas como logo após o parto”, diz o pediatra Roberto Issler, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e consultor da IBLCE, organismo internacional que certifica profissionais especialistas em aleitamento materno.

No aleitamento materno não estão envolvidos apenas componentes nutricionais e de saúde, mas também emocionais. Logo após o nascimento, a amamentação ajuda a solidificar os laços entre mãe e filho. E segurança e aconchego continuam sendo a percepção de crianças que mamam por mais tempo, segundo um estudo realizado pela Universidade Western Sidney, na Austrália, em 2007. Foram avaliadas 107 mulheres que amamentavam além de cinco anos - muitas delas, mais de uma criança ao mesmo tempo. Segundo o estudo, as crianças até apreciam o gosto do leite, mas o que relatam de mais significativo é a proximidade com a mãe e o conforto que isso traz.

Segundo Issler, é importante observar o estado psicológico da mãe e da criança. “A mulher precisa se sentir bem com a situação. E a criança deve ser independente, brincar e se relacionar com outras pessoas”, diz o pediatra. “O pai também deve ser ouvido, não pode estar incomodado. Se todos os membros da família se sentirem confortáveis com a situação, não há mal nenhum”.

Mas não são todos os médicos que veem com bons olhos essa amamentação tardia. “Aos seis, sete anos, a criança já deve ter desenvolvido independência, aprendido a comer sozinha e ir à escola”, diz a pediatra Fátima Rodrigues Fernandes, do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo. “Há outras formas de manter o vínculo afetivo entre mãe e filho, como atenção, brincadeiras, conversa e carinho”, diz. “Isso sem contar que, aos sete, a criança já tem a dentição e a mastigação totalmente desenvolvidas, o que não é muito compatível com a amamentação”.

E na hora do desmame?
O desmame é um momento de tensão para a maior parte das mães. No caso de uma amamentação mais longa, a preocupação permanece. A designer Sueli Danelon não enfrentou problemas ao desmamar seu filho Breno, de quase quatro anos. “Nos últimos meses, eu só deixava ele mamar quando ia dormir. Na hora de desmamar, quando o Breno pedia o peito, eu começava a contar historinhas até que pegasse no sono', diz Sueli. "Ficava pertinho dele na cama até que adormecesse. Funcionou”.

Não existe uma técnica definitiva de desmame, seja aos dois ou aos sete anos. Mas, com a criança maior, a mãe pode explicar que é melhor parar. Nessa fase, a criança pode começar a dormir na casa dos amigos, e a dependência do peito da mãe pode atrapalhar a socialização. O importante é que o processo do desmame aconteça de forma suave, sem traumas para a mãe ou para a criança.  

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