Gravidez e filhos

Fotos profissionais de partos viram moda nos EUA; serviço chega a R$ 4 mil

Stephanie Diani/The New York Times
A fotógrafa Briana Kalajian acompanha o parto de Rhisie Hentges e seu marido, Laurent imagem: Stephanie Diani/The New York Times

Elissa Gootman

New York Times Syndicate

Lynsey Stone não coloca o pé no chuveiro sem deixar seu celular ao alcance da mão, caso contrário pode perder uma mensagem de texto urgente de uma mulher em trabalho de parto. Ela marca suas férias com dez meses de antecedência para assegurar que não entrem em conflito com datas previstas de nascimento, e quando a família sai, ela e seu marido deixam seu lar em Granbury, Texas, em carros separados, para o caso dela precisar correr para o hospital.

Stone, 33 anos, não é médica, enfermeira, doula (acompanhante de parto) ou parteira: ela é uma fotógrafa de parto, parte de uma profissão pequena, mas crescente, dedicada a narrar um rito de passagem que é tão importante quanto um casamento –apesar de um pouco mais complicado de registrar em filme.

“No começo, eu achava que as pessoas estavam brincando comigo, tipo, ‘Sério? Você quer que eu vá ao seu parto?’” disse Stone, cujos negócios decolaram depois que uma conhecida grávida, impressionada com as fotos que Stone tirou de sua própria família, perguntou se ela fotografaria o momento em que desse à luz.

O parto já foi considerado um momento que deveria ocorrer atrás de portas fechadas –um evento complicado, doloroso e temível, onde nem a mãe e nem o bebê estão em sua melhor aparência. Então os pais ansiosos entraram em cena, tirando fotos ou fazendo vídeos com mãos trêmulas. Agora, há tanto o aumento do interesse na experiência do nascimento –não apenas na chegada do bebê, mas também como um momento para ser saboreado por seus próprios méritos– quanto um maior desejo de registrar todos os momentos da vida (e frequentemente compartilhá-los no Facebook).

Fotógrafos de parto surgiram nos últimos anos por todos os Estados Unidos, de Los Angeles até Salt Lake City e Cincinnati. A Associação Internacional dos Fotógrafos Profissionais de Parto –um grupo iniciado por uma fotógrafa do Texas que era bombardeada por perguntas de mulheres em outros Estados à procura de um fotógrafo de parto próximo delas– conta atualmente com cerca de 400 membros.

Os fotógrafos e seus clientes se acostumaram às expressões intrigadas e às sondagens (fotos do quê, exatamente?). Mas o argumento deles é simples: se você pretende documentar cada colherada de banana amassada de seu bebê como se fosse um evento histórico, não faz sentido que a entrada dele ou dela no mundo seja fotografada de modo profissional?

  • Stephanie Diani/The New York Times

    A fotógrafa de parto Briana Kalajian registra o recém-nascido Rocco, em 12 de junho de 2012

“Eu quero ver o momento do meu trabalho de parto”, disse Rhisie Hentges, de Long Beach, Califórnia, que pagou US$ 1.895 (cerca de R$ 4 mil) para que Briana Kalajian, coproprietária da Shoots and Giggles Photography, documentasse o nascimento de seu primeiro filho. “Aquele momento em que meu marido e eu olhamos para ver qual é o sexo, aquele algo que quero ver acontecer.” (Na ocasião, o parto teve que ser por meio de cesariana, e a fotógrafa não foi autorizada a entrar na sala de operação, apesar dela ter tirado muitas fotos artísticas antes e depois).

Alguns fotógrafos oferecem pacotes de parto entre um grande número de opções, incluindo fotos da gravidez e da família; outros, como Stone, se concentram no parto. Ela começou seis anos atrás, após ter fotografado seu primeiro parto e a mãe ter compartilhado as fotos com amigas de um grupo local de mães.

Stone agora faz em média cinco partos por mês, cobrando US$ 700 dos novos clientes. Ela tenta chegar quando a mulher está com 6 centímetros de dilatação, para capturar os estágios finais do parto. Isso já resultou em várias multas por excesso de velocidade.

Outros riscos do trabalho: mulheres que ficam abatidas quando as coisas não transcorrem de acordo com o plano e precisam fazer cesariana –não a imagem que gostariam de registrar -; as “divas”, como colocou uma fotógrafa, que pedem para que seus rostos sejam mostrados de certos ângulos lisonjeiros; e bebês que nascem rápido demais.

“Um nasceu no estacionamento”, lamentou Karen Fenton, uma fotógrafa de parto em Orting, Washington, perto de Seattle e Tacoma.

Em Cincinnati, uma mulher chamou Melanie Pace e Kelly Smith, da Beautiful Beginnings Birth Photography, no dia em que recebeu os resultados de seu teste de gravidez, lembra Pace. Várias telefonam quando estão grávidas de cinco ou seis semanas.

“Eu digo, ‘Sério?’” disse Pace. “Você não gostaria de primeiro consultar um médico e confirmar a gravidez?”

Alguns hospitais proíbem fotografias enquanto as mulheres estão dando à luz. Em muitos, os médicos e enfermeiros encarregados determinam não oficialmente suas próprias regras, com alguns até mesmo permitindo a presença de fotógrafos durante cesarianas. A gravação de vídeos costuma causar mais alarme do que fotos, um motivo para a maioria dos profissionais se dedicar apenas à fotografia. Em partos feitos em casa, dizem os fotógrafos, a mãe é que dá as ordens.

“As regras do hospital são bem claras –não são permitidas câmeras fotográficas e de vídeo próximas tanto na sala de operação quanto na sala de parto”, disse o dr. Jacques Moritz, diretor de ginecologia do St. Luke’s-Roosevelt Hospital Center em Nova York. “A política oficial e o que é permitido são duas coisas diferentes.”

Moritz disse que se alguém anuncia a chegada de seu fotógrafo de parto profissional, “a reação é, ‘Sério? Saia daqui’”. Ele disse que é mais comum ver mulheres chegarem “com uma ‘amiga’, que por acaso está com duas Nikons com lentes de alta qualidade”.

A dra. Randi Hutter Epstein, autora de “Get Me Out: A History of Childbirth from the Garden of Eden to the Sperm Bank”, disse que muitos estímulos culturais fazem algumas mulheres sentirem a necessidade de tornar seus partos “fotografáveis”.

“Há muita pressão não apenas para apreciar a experiência do parto, mas também para promovê-lo como uma coisa bonita”, ela disse. “Então você veste seu jeans apertado no dia seguinte e tira uma foto bonita de você com aparência absolutamente bela e descansada, com seu bebê de aparência perfeita, como todas as celebridades.”

Mesmo assim, disse Epstein, “agora que meu filho está com 18 anos, seria maravilhoso poder olhar essas fotos bonitas de seu nascimento”.

O filho dela, ela acrescentou, provavelmente discordaria. “Agora ele não gosta nem mesmo que tirem foto dele”, ela disse. “Ele não ia querer uma foto dele saindo da minha vagina.”

Há uma pergunta que é feita com mais frequência aos fotógrafos: onde você fica precisamente quando o bebê está saindo? A resposta: geralmente perto da cabeça da mãe, a menos que seja feito um pedido de foto do bebê saindo.

“As pessoas perguntam se eu vou tirar uma foto de parto tipo ‘National Geographic’”, disse Kalajian, da Shoots and Giggles Photography, referindo-se às fotos mais explícitas de parto. “Elas perguntam de 10 modos diferentes.”

Outra pergunta feita com frequência: por que não deixar o pai, ou parceira, tirar as fotos?

Uma resposta potencial está em uma foto que Fenton, a fotógrafa em Orting, Washington, tirou no ano passado de um pai cujo bebê nasceu por cesariana. Ele não reagiu muito bem. Mas como Fenton estava presente, aquele momento também será lembrado.

“Ele desmaiou e caiu no chão”, ela disse. “Eu tenho uma foto dele em uma cadeira, segurando um copo de suco e transpirando.”

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  • Arte UOL

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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