Gravidez e filhos

Não deixe as tentativas de engravidar abalarem seu relacionamento

Didi Cunha/UOL
Obsessão por engravidar faz mal para o relacionamento e para a vida pessoal da mulher imagem: Didi Cunha/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Para a mulher que sonha em carregar um bebê nos braços, e tem a sorte de contar com o apoio de um homem que divide esse desejo, não há nada mais doloroso do que enfrentar tentativas malsucedidas de engravidar. A cada mês, a chegada da menstruação é permeada por decepção, raiva, sofrimento, numa escala crescente. A sucessão de frustrações acaba comprometendo a relação, e a pergunta que toma conta da vida a dois é: como seguir em frente?

"Vivemos em um mundo imediatista, não temos paciência de esperar que cada coisa tem seu tempo. Percebo que muitas mulheres têm medo de ter problemas para engravidar antes mesmo de começarem a tentar. É preciso dar tempo ao tempo, combater a ansiedade e o perfeccionismo", diz a psicóloga Cecília Zylberstajn. "O que piora ainda mais o quadro é que, além dos aspectos fisiológico e psicológico, há a pressão social da maternidade, que tenta impor até a faixa de idade essencial para que ocorra. A mulher vive uma sensação constante de estresse e derrota", declara a terapeuta sexual Valéria Walfrido.

A autoestima feminina passa por abalos. Como é a mulher que gera a criança em seu ventre, é comum que ela sofra mais e se revolte, inclusive contra a si mesma, o que envenena o relacionamento. "A mulher se sente incompleta por não engravidar. E pode, muitas vezes, culpar o parceiro pelos fracassos. Com isso, surgem os desentendimentos”, conta Cecília. De acordo com Valéria Walfrido, a situação se agrava ainda mais quando as amigas, parentes ou conhecidas ao redor estão ocupadas (e realizadas) com fraldas, mamadeiras e cantigas de ninar. "Como a sensação de fracasso precisa ser exteriorizada, a escolha dessa vazão recai justamente em quem está mais próximo, ou seja, o parceiro", afirma Valéria.

O homem precisa ter paciência e se mostrar disponível para conversar, principalmente porque esse momento difícil costuma gerar inúmeras fantasias para a mulher, entre as quais a de que seu parceiro não a queira mais, por ela não corresponder ao seu ideal de mulher. "É importante estar disposto a ouvir essas preocupações e sinalizar para a parceira o que não corresponde à realidade", afirma a psicóloga Ilana Joveleviths. Entretanto, em alguns momentos, a mulher pode preferir não falar sobre isso e, nessas circunstâncias, apenas estar por perto e se fazer presente com gestos que demonstrem afeto já constituem o apoio necessário. 

Vida pessoal comprometida

Não é só o relacionamento a dois que sofre arranhões com a ideia fixa de engravidar. A imensa vontade de ser mãe pode comprometer a vida da mulher em outras esferas –amizades, ligações sociais, trabalho– por conta do estresse e, em casos mais extremos, de depressão.

Muitas passam a acreditar que há uma falha em sua identidade feminina, crença que as deixam mais fragilizadas e vulneráveis. Situações com as quais não ficariam magoadas, podem ser sentidas de forma mais intensa.

Para a psicóloga Ilana Joveleviths, é importante que a mulher possa conversar sobre o que está acontecendo com outras fontes de apoio além do parceiro, como amigos e família.

“Se houver a necessidade de olhar para essas angústias de forma mais profunda, buscar uma psicoterapia pode ser interessante. Assim ela passa a ter um espaço preservado, seguro e constante para lidar com esse sofrimento", declara.

Segundo a especialista, compreender as emoções torna mais fácil seguir em frente com as demais áreas da vida sem que a frustração interfira de forma destrutiva.

Manter outras atividades também é de extrema importância para que a pessoa não mergulhe por inteiro nessa dor. “A sensação de fracasso não deve ser sentida como algo relacionado à toda sua vida”, diz Ilana.

Brigas e desentendimentos fazem parte da maioria dos relacionamentos, independentemente dessa situação. Portanto, se o casal consegue solucionar suas diferenças com base no diálogo, conseguirá lidar com os conflitos que surgirem por conta dessa questão. "Mas nem todos os desentendimentos precisam ser evitados, pois conseguir passar por eles, discutindo e elaborando questões importantes para os dois, pode fortalecer ainda mais o vínculo existente", explica Ilana.

Uma forma de combater essa fase é investir na intimidade, na parceria. Enquanto a gravidez tão desejada não acontece, vale a pena aproveitar ao máximo os benefícios da vida sem filhos, como fazer programas e passeios sem organização prévia e sem hora de voltar para casa, viagens inesperadas e outras surpresas.

Em alguns casos, é possível que a fissura com a gravidez comprometa o sexo gerando, por exemplo, ansiedade antes de transar ou até mesmo contribuindo para que a mulher passe a valorizá-lo somente com o propósito de engravidar. Alguns tratamentos exigem que o sexo aconteça no momento exato do pico da fertilidade feminina, o que compromete toda a naturalidade da experiência. Investir na intimidade não somente com o objetivo de gerar um filho, mas de ter prazer, faz toda a diferença.

Homem também sofre
Apesar de a mulher ficar abalada e vulnerável com essa fase complicada, nem ela nem seu parceiro devem esquecer que tudo gera efeitos nele do mesmo modo –inclusive frustração e fantasias. “É interessante que ele também possa falar sobre seu sofrimento com sua parceira, na medida do possível”, diz a psicóloga Ilana Joveleviths. O importante é o casal estar unido, em parceria, sem cobranças.

"Os dois padecem juntos, mesmo que de maneiras diferentes. Homens e mulheres encaram a reprodução de formas distintas por motivos culturais e de gênero, mas o parceiro também sofre", conta a psicóloga Cecília Zylberstajn. O homem também precisa e deve sinalizar quando se sente agredido, pois, apesar da delicadeza da situação, é imprescindível que se mantenha o respeito entre ambos.

Para a terapeuta sexual Valéria Walfrido, na maioria dos casos, a mulher se culpa pela dificuldade quando, na verdade, o problema acontece com o homem, que muitas vezes se nega a ir ao médico para realizar exames. "Ele tem um receio oculto de ser o responsável pela dificuldade", conta a especialista.

Quando parar de tentar?
Outro ponto importante, tanto para a mulher quanto para o homem, é ter maturidade e inteligência emocional para saber até que ponto tentar e, se a vontade de ter uma criança e formar uma família é tão grande, pensar em uma adoção, que poderia ser uma alternativa para revigorar a relação, a vida a dois, o futuro. 

"O casal deve se questionar quando isso adquire uma proporção tão grande a ponto de deixarem de viver momentos prazerosos juntos e só conseguirem compartilhar essa dor. Se o desgaste mediante essa situação começa a ameaçar a saúde de um dos dois, ou a relação, é o caso de se perguntarem se vale a pena continuar tentando", diz a psicóloga Ilana Joveleviths.

Exames
Com a revolução feminina, os exames pré-nupciais acabaram caindo em desuso. No entanto, a vida sexual ativa não deveria servir como desculpa para dispensá-los. Eles detectam desde problemas ovulatórios até obstruções tubárias, endometriose, desequilíbrios hormonais e doenças sexualmente transmissíveis que impossibilitam uma gestação. Para os homens, o espermograma é essencial. Feitas com antecedência –antes da decisão de engravidar– as investigações clínicas permitem tratamento adequado e podem evitar muitas lágrimas, discussões e decepções.

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