Gravidez e filhos

Brinquedo não tem gênero: boneca e carrinho podem divertir meninos ou meninas

Segundo estudiosos, brincar de carrinho ou de boneca não determina identidade nem orientação sexual

Maurício Horta

Do UOL, em São Paulo

"Passamos por um restaurante de beira de estrada, e minha menina, então aos 3 anos, se apaixonou por um caminhão, daqueles bem grandes. Grande o suficiente para ela caber dentro dele", conta Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia. A mãe não teve dúvida. Incluiu o caminhão entre os brinquedos da garota –um dos prediletos dela e do irmão três anos mais velho. "Eles usaram o brinquedo de uma forma muito interessante: ela ficava dentro do caminhãozinho e o irmão a puxava." 

Mas nem todos os pais gostam da ideia de uma filha brincando de caminhão. Ou de um filho brincando de casinha. "Já vi pai impedir o filho de andar de bicicleta porque era rosa", conta Maria Ângela Barbato, coordenadora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar da PUC-SP. "Mas, para a criança, a bicicleta é apenas uma bicicleta, e tudo o que ela quer é brincar. Quem acha que é para menino ou para menina é o adulto."

Afinal, existe algum problema em menino brincar de boneca e menina de carrinho? Especialistas ouvidos pelo UOL são unânimes: não. "Esse tipo de brincadeira, muitas vezes, faz parte do desenvolvimento normal das crianças. Não caracteriza nada nem determina identidade nem orientação sexual", diz o psiquiatra Alexandre Saadeh, do Núcleo de Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do HC-USP.

Mesmo quando a criança brinca com um objeto socialmente identificado com o outro gênero, a inversão de papéis só existe na cabeça dos adultos. É o caso do menino que gosta de brincar de boneca porque vê o pai ou um irmão mais velho cuidando de um irmão menor. "O menino não está fazendo o papel de mãe, mas o de pai ou de irmão que toma conta dos menores", diz Barbato. E se tiver cinco meninas brincando de casinha e apenas ele de menino, é normal que ele vá brincar com elas. "Mesmo nessa brincadeira, as meninas vão dar a ele um papel masculino". 

Esse papel masculino não é mais dar ordens à mulher enquanto se senta na salinha de faz de conta, assistindo ao futebol. "Se hoje o pai troca fralda e cozinha e mãe dirige, por que o menino não pode brincar de cozinhar e a menina brincar de carrinho?", diz Paula Birchal, psicóloga, professora da PUC de Minas Gerais e mãe de uma menina de 9 anos. 

Não contém gênero
Algumas famílias e escolas começam a dar um passo além: não apenas liberam brincadeiras independentemente do gênero da criança, como também procuram eliminar sinais de diferença de gênero na educação. É o que faz a pré-escola Egalia, em um bairro de classe média de Estocolmo, na Suécia. 

Lá, professores não usam os pronomes hon (ela) ou han (ele) para se referir às crianças, mas o hen, um pronome neutro inventado, mencionado pela primeira vez por linguistas nos anos 1960. Brinquedos não são divididos em categorias, meninos podem brincar de se vestir e bonecos são assexuados. Nos livrinhos, nada de "Cinderela" ou "A Bela Adormecida". No lugar disso, a história de girafas que adotam um bebê-crocodilo abandonado. 

Entre pais, há os adeptos do gender neutral parenting (criação sem distinção de gênero, em tradução adaptada) –como a blogueira americana Arwyn Daemyir, mãe de um menino de 5 anos e uma menina que completa um ano em setembro. Hoje, seu filho –que ela apelida no blog de Chickboy (algo como “menino-garota”)– se considera garoto. Mas quem começou a se referir como menino foi ele próprio, a partir dos 3 anos. Já a filha de Daemyir é nova demais para se chamar de menino ou menina. 

O psiquiatra Alexandre Saadeh não vê necessidade para excessos. "A criança deve saber que há diferenças de gênero, e aí ela poder circular de maneira saudável, não preconceituosa, e saber qual é a sua identidade." 

Quando o menino se sente menina. E vice-versa.
Daemyir tem seus argumentos para criar os filhos sem distinção de gênero. Segundo ela, expectativas sociais não só limitariam as escolhas de suas crianças como também podem lhes trazer sofrimento caso elas não se identifiquem com seu gênero anatômico. É o que na psiquiatria se chama de "transtorno de identidade de gênero", uma condição que se estabelece bem cedo, a partir dos 2 ou 3 anos de idade.

E como saber se a criança não quer apenas brincar, mas se identifica com o gênero oposto? "Brincadeiras, maneira de se portar, uso de roupas de gênero anatômico diferente, pronomes ou artigos trocados, se constantes e persistentes, são sinais de possível transtorno de identidade de gênero na infância", diz Saadeh. 

Mas que fique claro: o caso aqui não é o de uma brincadeira ocasional, mas de um comportamento insistente, em que a criança fica com raiva ou retraída quando é cobrada de se vestir com roupas correspondentes ao gênero anatômico. Se esse comportamento for intenso ou persistente, Saadeh aconselha que os pais procurem orientação de um psiquiatra ou psicólogo especializado em sexualidade.

Por que isso acontece? Primeiro, não culpe ninguém. A diferenciação dos cérebros em masculino ou feminino acontece ainda dentro do útero, segundo pesquisas recentes, feitas durante a gestação e ao longo do desenvolvimento da criança. "Por volta dos 3 ou 4 anos de idade, a identidade de gênero final da criança já se estabelece", explica Saadeh. Nem todo transtorno de identidade de gênero na infância evolui para transexualismo. A maioria evolui para homossexualidade. 

Segundo Saadeh, o problema não é a criança se identificar com outro gênero, mas sofrer por isso. "Por isso, deve-se ter o cuidado de não fazer julgamentos morais, censura ou inibição pura e simples, mas, sim, buscar a compreensão do significado do comportamento para aquela criança e ajudá-la no que for possível".

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