Infância

Brincar de mocinho e bandido pode? Saiba a opinião de especialistas

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Para alguns educadores, brincar de mocinho e bandido ajuda a criança a lidar com a agressividade e o medo. Outros defendem que os pais devem estimular os filhos a escolher heróis como bombeiros imagem: Thinkstock

Maurício Horta

Do UOL em São Paulo

Quando Maria Ângela Barbato era pequena, tinha em casa uma réplica de revólver do “Paladino do Oeste”, seriado de faroeste produzido no fim da década de 1950. “Nós a ganhamos em concurso e brincávamos de faroeste com ela”, conta. Hoje, Barbato não é nem justiceira armada, nem bandida. É coordenadora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar da PUC-SP. E agora, com mais de 40 anos dedicados a ensinar pedagogia em universidades, será que ela vê algo de errado em brincar de mocinho e bandido? Não. “As próprias crianças sabem que é faz-de-conta”, diz.

A brincadeira de mocinho e bandido pode parecer violenta, mas é apenas uma variação do pega-pega e do esconde-esconde. Independente de qual for a versão da brincadeira, a regra básica é uma só: uma criança persegue e a outra foge. E isso é importante para o desenvolvimento da criança. Além da atividade física, essa brincadeira trabalha emoções.

Quem corre atrás lida com sua agressividade, e quem tenta escapar lida com o medo, explica Vera Barros de Oliveira, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo e autora do livro “Brincar é Saúde”. Como em quaisquer outras emoções -da frustração de perder à alegria de ganhar-, o medo e agressividade precisam ser trabalhados na infância na forma de brincadeira para, depois, a pessoa saber lidar com eles na adolescência ou na vida adulta.

Faz de conta
“A temática pode ser discutível, mas os pais devem deixar a criança. Se ela estiver brincando de bandido ou herói, isso quer dizer que essa temática é muito significativa para ela”, diz Oliveira. “Já se for proibida, a criança vai ficar pensando naquilo e aumentar a importância. E mais: vai perceber que isso chamou a atenção dos pais, e o que ela quer mesmo é atenção”, diz Oliveira.

O faz-de-conta também é uma forma de comunicação que revela ao adulto coisas que se passam com a criança, mas que elas ainda não sabem elaborar verbalmente. Por isso, em vez de impedir, o importante é observar como a criança está brincando. “Se você proibir a brincadeira, a criança não vai mais brincar na sua frente e você não vai saber o que se passa na cabeça dela”, diz Barbato. A partir disso, o adulto pode avaliar por que esse tema em específico é tão importante para o filho. “Pode ser que a criança esteja vendo muita televisão ou que, em casa, o assunto violência seja recorrente”, diz Oliveira.

Paula Birchal vai além. Segundo a professora da PUC de Minas Gerais, a brincadeira é um meio para a criança elaborar o que é um bandido ou um mocinho. “Não é razoável poupar a criança a ponto de aliená-la. A brincadeira viabiliza a compreensão da vida”, diz Birchal. “É como cantar ‘Atirei o Pau no Gato’. Ninguém está tentando matar o gato. Não adianta cercear demais. Você conseguirá parar uma brincadeira. Mas não vai conseguir impedir um pensamento ou um sonho. Afinal, alguém consegue impedir que você sonhe?”

Há limite?
Não há mocinho e bandido sem arma, qualquer que seja ela. Maria Ângela Barbato concorda que um revólver não é dos melhores presentes para uma criança. “Ele está inserido num contexto muito agressivo”, diz a professora. Mas tampouco adianta proibir a criança de ter uma arma. “Ela vai transformar tudo em arma. Até a colher que a mãe usa para fazer doce.”

E qual é o momento em que a brincadeira deixa de ser saudável? Para Birchal, o limite é tênue, mas simples: a brincadeira deve ser apenas uma brincadeira. “Nenhum ato deve transgredir esse limiar. É como na partida de futebol. Se passar das regras, não pode”, diz Birchal. “E quem vai fazer essa função de juiz é o adulto. Se o filho quiser ser o Super-Homem, os pais podem dar a capa. Mas não podem deixá-lo pular da janela”, diz Birchal.

Outra opinião
Nem todos especialistas concordam com tanta liberdade. “Não há o mocinho se não tiver o bandido. Existem formas de se trabalhar o pega-pega sem expor a criança no lugar do bandido”, diz Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia. "Tem pais que acham que esse tipo de brincadeira estimula a criança a ser mais precavida, a aprender a se defender. Eu critico isso.” 

Para Bombonatto, não se trata de acabar com a figura do mocinho ou da polícia. “Mas a criança pode brincar de polícia como a defensora da cidade. O mal tem que vir de fora, e não estar dentro de uma criança”. E de heróis sem bandidos não faltam exemplos: o bombeiro, o salva-vidas. “Até mesmo o bruxo não precisa ser mal. É só ver Harry Porter, um bruxo que virou herói”, diz Bombonatto.

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