Gestação

Guia politicamente incorreto ensina a deixar filhos doentes na escola sem professora notar

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Capa do livro: com humor, autoras tentam mostrar que é importante preservar um tempo para si mesma imagem: Divulgação

Juliana Zambelo

Do UOL, em São Paulo


Se você é o tipo de mãe que, às vezes, finge para seu filho que está dormindo só para ter mais uns minutos de paz na cama ou usa TV e guloseimas para distraí-lo enquanto realiza uma ligação de trabalho importante, vai se identificar com o livro "Sh*tty Mom: The Parenting Guide for the Rest of Us" ("Mães de Merda: o Guia de Maternidade para o Resto de Nós", em tradução livre do inglês), da editora Abrams. Longe de incentivar a prática irresponsável do ofício de ser mãe, a mensagem da obra é clara: não dá –e tudo bem– para ser perfeita o tempo todo.

Lançado nos Estados Unidos em setembro –e ainda sem previsão de lançamento no Brasil–, "Sh*tty Mom" encara, com muito humor e leveza, os momentos em que as mães quebram as regras dos manuais tradicionais e se mostram impacientes, cansadas e inseguras. Com essa abordagem, a obra vem recebendo elogios de jornais, revistas, blogs e se aproximando do topo dos rankings de mais vendidos do gênero.

Na introdução, apresenta-se como um guia de sobrevivência a bebês e crianças. "É sobre atalhos e como cuidar dos filhos com 40% de esforço. É sobre como fazer um trabalho meia boca, mas fazer isso bem o bastante para que ninguém perceba. É sobre não deixar aquele bebê vencer todas as batalhas."

A obra foi escrita a oito mãos. A ideia nasceu em um encontro da jornalista e escritora Karen Moline com as produtoras de TV Mary Ann Zoellner e Alicia Ybarbo, e o toque de humor ficou a cargo da comediante Laurie Kilmartin, que atualmente trabalha como roteirista do apresentador Conan O'Brien. Todas são mães, com filhos de idades variadas.

Em suas páginas, o guia reúne conselhos para todas as fases da maternidade e trata ainda da relação com o companheiro e com outras mães. Os capítulos dedicam-se a situações específicas, que ficam bem claras em títulos como "Você deve parar de trocar mensagens pelo celular se outra mãe está gritando com seu filho?", "Como deixar seu filho doente na escola antes que a professora perceba" e "Seu pai é um traidor maldito e outros sentimentos que você deve guardar só para você".

Para as autoras, o livro olha de uma maneira mais realista para a tarefa de cuidar dos filhos. "Há muita pressão e estresse em ser mãe e pai hoje em dia. Preferimos rir desses momentos não tão perfeitos em vez de nos estressar", diz Alicia. Ela e Mary Ann conversaram com o UOL Gravidez e Filhos por e-mail. Leia a seguir os melhores trechos da entrevista:

  • No sentido horário, as autoras do livro: Alicia, Mary Ann, Laurie e Karen

UOL Gravidez e Filhos: Como nasceu a ideia de escrever esse livro?
Mary Ann Zoellner: Alicia, Karen e eu saímos uma noite e começamos a dividir umas com as outras os nossos momentos de "mães de merda" e percebemos que ali existia uma coisa sobre a qual queríamos falar com outras mães. Nós tentamos começar a escrever, mas não estava ficando engraçado, então nosso agente nos apresentou à talentosa Laurie Kilmartin. Ela trouxe o lado do humor. Nós tínhamos as ideias e entregávamos para Laurie. Ela nos mandava e-mails quando precisava de novas ideias.

UOL Gravidez e Filhos: Vocês acham que têm um modo menos convencional de encarar a maternidade?
Mary Ann: Não achamos que é não-convencional. Somos pais do mesmo jeito que nossos pais costumavam ser –um pouco egoístas e não vivendo em função dos nossos filhos 24 horas por dia, sete dias por semana. É o modo realista de ser pai e mãe.

Alicia Yarbo: Há muita pressão e estresse em ser mãe e pai hoje em dia. Preferimos rir desses momentos não tão perfeitos em vez de nos estressarmos. Às vezes é difícil, mas é necessário.

UOL Gravidez e Filhos: Vocês têm recebido reações negativas ou olhares de reprovação?
Mary Ann: Apenas algumas reações negativas –e até agora nenhum olhar de reprovação. A maioria das pessoas ama o livro e adora dividir conosco os seus próprios momentos de "mães de merda". O livro tem feito muitas mães se sentirem melhor sobre elas mesmas.

Alicia: Tivemos muito poucas críticas negativas, mas percebemos que, quando acontece, é porque a pessoa não entendeu a mensagem do livro. Nossa mensagem é amar os filhos com todo o coração, mas encontrar uma maneira de ter um tempinho para você mesma.

UOL Gravidez e Filhos: O que as mães de vocês acharam do livro?
Mary Ann:  Elas amaram! Nós dedicamos o livro a elas.

Alicia: Elas gostaram especialmente porque percebemos a razão pela qual elas queriam que nós tivéssemos filhos. Não era só porque elas queriam ser avós. Queriam que passássemos pelo mesmo inferno que nós as fizemos passar!

UOL Gravidez e Filhos: Vocês acham que mães julgam outras mães de maneira muito dura?
Mary Ann: Sim, há muita mulher apontando o dedo para outra. E muitos dedos apontados para mães sem sequer saber o que elas estão passando. Precisamos julgar menos e tentar nos ajudar mais.

Alicia: Mas também é horrível como nós, mães, atormentamos a nós mesmas pelas decisões que tomamos, erros que cometemos. Isso também não deveria mais acontecer.

UOL Gravidez e Filhos: No livro vocês falam sobre bebês e crianças como se eles fossem o inimigo. Vocês realmente se sentem assim?
Mary Ann: Por ser um livro de humor, é preciso ter um protagonista e um antagonista. Mas, sinceramente, quando seu filho está tendo um chilique épico no meio de uma loja, você realmente pensa coisas que não são muito bonitas.

UOL Gravidez e Filhos: Vocês não têm medo de assustar as grávidas ou mulheres que ainda não têm filhos?
Alicia: Mulheres solteiras têm falado para nós que deram uma olhadinha no livro. Nós queremos preparar as futuras mães.

Mary Ann: Nada vai impedir as mulheres de terem filhos. Muitas estão dando o livro de presente em chás de bebê como um aviso: "Olha, você vai passar por momentos difíceis e é melhor saber que o dia a dia não vai ser perfeito e, nessa hora, vai ser melhor rir do que chorar".

UOL Gravidez e Filhos: Quantos dos conselhos dados no livro vocês testaram de verdade em seus filhos? 
Mary Ann: Todos os itens foram testados por nós ou por alguém que conhecemos. Ignorar o filho no meio da noite, dormir até as nove da manhã nos fins de semana, a lista é longa.

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