Adolescência

Médicos nos Estados Unidos usam mídias sociais para atrair adolescentes ao consultório

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SMS, Facebook, Twitter e blogs tornaram-se ferramentas para médicos se comunicarem com os jovens imagem: Thinkstock

Jan Hoffman

Do New York Times

O celular da adolescente vibra. Sua médica, Natasha Burgert, acaba de enviar uma mensagem: "Acordou melhor com o remédio?". Outro adolescente olha o telefone. "Está tudo ótimo", diz o discreto texto da especialista. "Continue como planejamos. Responda para eu saber que recebeu a mensagem." E no dia do vestibular, um adolescente que sofre com um estômago agitado recebe o recado da médica: "Preparado. Concentrado. Calmo. Seu corpo está saudável e está tudo bem. Boa sorte hoje".

Natasha é pediatra em Kansas City, no Missouri, Estados Unidos, e atende em domicílio. Ela faz parte do crescente grupo de médicos que utilizam as mídias sociais para envolver os adolescentes. Os pacientes leem seu blog e a seguem no Twitter e no Facebook. Ela participa até mesmo dos blogs de alguns adolescentes, fazendo comentários ocasionais.

Durante as consultas, a especialista não dá mais folhetos com conselhos sobre uma vida saudável aos adolescentes –que reagem com olhares indiferentes e não hesitam em jogá-los na lixeira. Em vez disso, uma lousa na parede de seu consultório apresenta uma lista de links e códigos QR para sites voltados para adolescentes sobre sexualidade, álcool e drogas. Os adolescentes podem fotografar a lousa com seus celulares e guardar a informação para ler quando acharem melhor.

Sem precisar falar a respeito dessas coisas, Natasha tem mais tempo para ouvir seus pacientes. "Esse tempo é para você", diz. "Sobre o que você quer conversar?" Frequentemente, percebe problemas sutis, como dores de estômago causadas por ansiedade antes das provas.

Ela mantém o relacionamento com os jovens por meio das mídias sociais e, em vez de deixá-los sem orientação a respeito dessas difíceis questões de saúde, envia links para os melhores sites. "Faço o melhor que posso para que as mensagens cheguem aos telefones deles, porque esse é o objeto sem o qual não vivem." Naturalmente, Natasha recebe a permissão dos pais, já que não quer que eles olhem os celulares dos filhos e encontrem sites a respeito de doenças sexualmente transmissíveis, por exemplo.

Consultórios médicos estão criando cada vez mais páginas no Facebook para divulgarem os negócios e se aproximarem da comunidade. Ao participarem das redes sociais, pediatras e clínicos estão atraindo os adolescentes, seus pacientes menos engajados. Ao contrário das crianças pequenas, que visitam o pediatra muitas vezes por ano, os jovens quase nunca vão ao médico. Quase sempre saudáveis, só vão ao consultório para se submeterem a exames admissionais, a exames médicos para a carteira de motorista e para equipes esportivas.

Mas mesmo quando eles insistem em se tornarem mais independentes, confundindo privacidade com sigilo, os adolescentes são mais vulneráveis a comportamentos impulsivos e perigosos. Monitorá-los de forma cuidadosa e respeitosa é uma tarefa difícil para pais e médicos. Ainda que, há uma década, os médicos vissem a internet como um inimigo, como uma ferramenta para pacientes exigentes que iam às consultas carregados de material impresso e que ligavam a qualquer momento com perguntas complicadas, agora os especialistas nos cuidados com adolescentes e crianças estão usando a tecnologia a seu favor.

A recompensa, segundo os médicos que enviam mensagens, tuítes e posts, são adolescentes mais bem informados que consideram as mídias sociais uma forma mais rápida e menos embaraçosa de obter respostas para suas perguntas.

"Assim eu me sinto mais próxima da doutora Natasha", afirma Marie, 16 anos, que cursa o primeiro ano do ensino médio em Kansas City, no Kansas. "É divertido, direto, não preciso passar pelas secretárias e gosto de saber que existe um adulto a quem eu possa recorrer."

Mas as mídias sociais também levantam questões a respeito dos limites entre médicos e pacientes, leis de privacidade e de confidencialidade. Os médicos deveriam se tornar "amigos" dos pacientes no Facebook? Que regras deveriam ser estabelecidas pelos médicos na hora de enviar mensagens a adolescentes: conteúdo, horário e expectativa de respostas rápidas? De que forma os médicos devem levar em conta o fato de que os celulares são esquecidos pelos adolescentes e, em seguida, encontrados –e bisbilhotados– por pais e amigos?


Por essas razões, muitos médicos pararam de enviar mensagens por celular. Uma vez que as mensagens não são criptografadas e não obedecem às leis de privacidade. "As regras da minha clínica me proíbem", afirma Wendy Sue Swanson, pediatra que trata adolescentes na Clínica Everett, nos arredores de Seattle, e no Hospital Infantil de Seattle. Mas os adolescentes a seguem no Twitter e no blog "Seattle Mama Doc", no qual ela escreve comentários e posta novidades e vídeos sobre saúde.

Durante as consultas, ela pergunta aos adolescentes qual é a forma mais segura de transmitir informações privadas. Para quem toma pílulas anticoncepcionais, ela diz: "Pegue seu telefone e coloque um alarme diário para se lembrar de tomar a pílula. Chame-o de... 'morango'."

Wendy não responde perguntas individuais em seu blog. "Mas se perguntarem alguma coisa no consultório e eu achar que muitos outros jovens têm a mesma curiosidade, posso colocar o conteúdo no blog, sem identificar o paciente."

Em Nova York, o Centro de Saúde do Adolescente do Hospital Mount Sinai utiliza um programa chamado "Text in the City", desenvolvido para enviar dicas e lembretes para os pacientes a respeito de medicamentos e das consultas. Os pacientes também podem enviar questões, cientes de que as respostas podem demorar até 24 horas para chegar. Katie Malbon, que escreve a maior parte das respostas, diz que acrescenta um aviso: "Apague a mensagem depois de lê-la".

A clínica de saúde reprodutiva para adolescentes New Generation Health Center, em San Francisco, também incorporou as mídias sociais em seus serviços. Se um adolescente recebe um resultado positivo para a presença de alguma doença sexualmente transmissível, por exemplo, e tem medo de contar ao parceiro, um médico pode recomendar algum site para informar os parceiros anonimamente por e-mail.

Recentemente, depois que o financiamento dos programas escolares foi cortado, a coordenadora da clínica, Shawna Pattison, criou o blog "JustAskShawna". Para equilibrar as questões de privacidade, ela permite que os adolescentes enviem questões por e-mail e responde no blog sem revelar o nome do jovem. As respostas são revisadas pela equipe médica da clínica antes de serem publicadas.

Usar o Facebook é mais complicado. Muitos médicos não adicionam os pacientes. Em vez disso, eles enfrentam o desafio de atraí-los para suas páginas profissionais.

Todd Wolynn é pediatra em Pittsburgh e trabalha com outros 18 médicos na clínica Kids Plus Pediatrics, que tem um diretor de comunicações que gerencia uma página no Facebook, além do website do grupo. Para encorajar os adolescentes a seguirem os sites, cujos leitores quase sempre são os pais, a clínica de Wolynn publica temas interessantes para os jovens, como o envio de mensagens de celular enquanto se está dirigindo e a invenção do biscoito de chocolate, além de diversos posts sobre assentos para bebês e dicas para dormir melhor.

Segundo Wolynn, o desafio é fazer com que os adolescentes achem que você é legal o bastante para enviar mensagens que irão aparecer na linha do tempo de suas páginas no Facebook, já que todos os seus amigos irão ver e julgá-los por isso.

Mas muitos médicos não conseguem imaginar como seriam capazes de acrescentar as mídias sociais a um trabalho que já é exaustivo. Natasha, 36, é incansável: ela tem dois filhos, um consultório cheio, um blog no site de seu grupo, escreve no Twitter, manda mensagens para os pacientes e ainda trabalha em tempo integral.

A médica carrega um caderno onde anota tudo o que precisa fazer e passa 15 minutos por dia enviando mensagens e e-mails. Isso a faz economizar horas com conversas por telefone com os pacientes. Segundo ela, os adolescentes não enchem sua caixa com mensagens. "Eles entendem que isso é um privilégio, que nem todos os médicos são assim. Na verdade, tenho mais problemas com os pacientes de primeira viagem."

Natasha leva o iPad para o consultório e, dependendo do assunto, baixa vídeos interessantes e assiste com os adolescentes. Ela não convida os pacientes para serem seus amigos no Facebook, mas pede para que eles a procurem. "Com aqueles que sofrem de ansiedade, problemas alimentares ou tomam medicação para problemas psiquiátricos, tenho uma conversa aberta sobre as redes sociais de que participam."

Recentemente, uma paciente anoréxica postou uma atualização no Facebook: "Fiquei linda com três quilos a menos!" Muitos de seus amigos curtiram o comentário, elogiando seu comportamento autodestrutivo. Preocupados, os pais ligaram para Natasha. A família foi ao consultório com os laptops. Natasha explicou à adolescente que era sua responsabilidade não deixar na internet um registro permanente de sua saúde.

Relutantemente, a menina concordou em sair da rede social para evitar mais comentários perigosamente positivos. "Então, nós duas apagamos juntas sua página no Facebook. Fiquei muito feliz com esse resultado."

Há três anos, Natasha também usa as mídias sociais no consultório. "O objetivo é ajudar os pacientes a tomarem decisões boas e saudáveis. É possível fazer isso se estivermos dispostos a nos arriscarmos um pouco."

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