Adolescência

Saiba lidar com o comportamento consumista do seu filho adolescente

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O entorno social também pode alimentar ainda mais o desejo de consumir do jovem imagem: Thinkstock

Por Simone Sayegh

Do UOL, em São Paulo

Quem tem filhos sabe o quanto é difícil administrar os pedidos de presentes. Questão que se complica ainda mais quando a adolescência chega, pois a lista de desejos de consumo passa a ter itens itens cada vez mais caros: smartphone, MP3, tablet, roupas de grifes famosas, tênis importados. E, de preferência, os modelos mais recentes.

Segundo Henrique Feldmann, mestre em desenvolvimento econômico pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), crianças e adolescentes passaram a ter mais espaço na sociedade após a Segunda Guerra Mundial, com o fenômeno chamado "baby boom", um significativo aumento da taxa de natalidade em todo o mundo.

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De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apesar da tendência de envelhecimento da população brasileira, em 2012 o número de pessoas com entre 15 e 17 anos deve atingir a marca de 27 milhões no país. (O Estatuto da Criança e do Adolescente coloca a adolescência entre os 12 e os 18 anos). Essa fatia vem ganhando a atenção de numerosos segmentos do mercado, com investimentos maciços em campanhas publicitárias direcionadas a ela.

"Os adolescentes de hoje foram estimulados desde cedo a comprar e recebem promoções voltadas a seus interesses", afirma Feldmann. Nesse cenário, é natural que o jovem queira ter tudo, mas, a despeito da condição financeira da família, o importante é saber se ele deve ter.

Segundo Maria da Graça Marchina Gonçalves, doutora em psicologia social e professora do Departamento de Psicologia Social da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), o principal entrave ao enfrentamento da questão dos desejos de consumo do jovem é a crise de autoridade que muitos pais estão sofrendo e que os impedem de contrariar os filhos, sejam eles crianças ou adolescentes.

"Ninguém quer correr o risco de deixar de ser amado ou de ser uma exceção aos imperativos de felicidade veiculados pela indústria do consumo e ter de suportar também uma experiência de perda ou de falta", declara Luciana Gageiro Coutinho, doutora em psicologia clínica pela PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e autora do livro "Adolescência e Errância: o Laço Social no Contemporâneo" (Nau Editora).

Limites e valores

A primeira atitude que os pais devem tomar ao lidar com os desejos de consumo do adolescente é deixar claro quais são os limites que consideram adequados para o objeto almejado pelo filho, ou seja, quanto podem gastar com ele.

"É preciso ser sincero, e o adolescente deve ser parceiro na situação. Não deve ser excessivamente protegido dos problemas [financeiros] como também não deve ser responsabilizado por algo que não pode enfrentar", diz Maria da Graça.

Tão fundamental quanto deixar os limites materiais claros, é os pais falarem sobre seus valores de vida, o que para eles é importante consumir, suas prioridades e seus objetivos. "É preciso que os pais ensinem suas referências aos filhos, mas estejam sempre abertos a conhecer novas visões", afirma Maria da Graça.


Exemplo

Para a psicóloga Luciana, da PUC do Rio, a atitude do adolescente diante do consumo depende bastante do entorno social e cultural em sua passagem do universo familiar ao social. "Muitas vezes, eles são levados a crer que só serão reconhecidos e amados se possuírem determinados objetos".

Segundo a especialista, o que muitos jovens acabam experimentando é uma sensação de estar sempre em falta em relação ao que deveriam ser e ter, mesmo no minuto seguinte a compra.  "Isso não é só um sentimento do adolescente, mas de todos nós que vivemos nessa cultura, embora possa acontecer com diferentes intensidades para cada um".

Feldmann também diz acreditar que muitos dos estímulos de compra são produzidos em casa. "Presentear sem razão torna-se uma forma de compensação associada a inúmeros desejos de reparação dos adultos", afirma.

Segundo Michelle Bronstein, mestre em comunicação social pela PUC do Rio, toda ação de consumo é movida pelo desejo, seja para atender uma necessidade humana básica ou obter distinção dentro dos ambientes sociais. No caso do adolescente, como o desejo de pertencer a um determinado grupo é significativo, possuir determinados bens materiais pode dar a impressão de facilitar esse pertencimento.

Para a especialista, como aquilo que se pode comprar acaba sendo mais fácil de possuir do que aquilo que se pode ser, a tendência é que as pessoas comprem cada vez mais para tentarem ser mais sexy, ousadas, interessantes e confiantes. Portanto, é comum que os pais, também imersos nessa lógica competitiva alimentada pelo consumo, queiram suprir cada mínima vontade do filho adolescente, como maneira de suprir também as suas próprias. 

"Acredito que tanto os pais quanto a escola possam contribuir para construir com os adolescentes uma atitude mais crítica sobre determinadas imposições da cultura em que vivemos”, declara Luciana, doutora em psicologia clínica. Diante desse quadro, a especialista diz que é preciso estar alerta para a frustração contínua gerada no jovem exposto a necessidade de ter para ser. “Esse processo leva a uma falta de referências estáveis com as quais ele possa contar na construção de seu eu e de seus projetos futuros".

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