Adolescência

Atualizada em 28.11.2012 11h39

Sem orientação, a dupla musculação e shakes de proteína pode prejudicar adolescente

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Tanto o treino quanto o uso de suplementos precisam ser orientados de forma rigorosa imagem: Thinkstock

Adriana Nogueira

Do UOL, em São Paulo

Preocupados em conquistar um corpo com músculos definidos, garotos na adolescência têm aderido à prática de musculação e ao uso de shakes de proteínas para turbinar o ganho de massa muscular. É o que aponta uma pesquisa publicada pela revista americana “Pediatrics”, em 19 de novembro de 2012.

Foram ouvidos, 2.793 adolescentes, com idade média de 14 anos, de 20 escolas dos Estados Unidos. Entre os 1.307 meninos que participaram do estudo, 34,8% disseram consumir os shakes com regularidade variada. Entre as 1.486 meninas, o percentual foi de 21,3%.

A principal preocupação dos especialistas no Brasil sobre o consumo desses suplementos é que esses produtos são classificados como alimentos de atletas e portanto dispensados de registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). As empresas têm apenas de notificar o órgão sobre a produção e que esta segue os parâmetros técnicos necessários. Neste caso, a fiscalização, segundo a Anvisa, deve ser feita pelos órgãos municipais de saúde.

Alerta

"Há relatos de suplementos contaminados por esteroides anabolizantes", afirma o pediatra Ricardo Barros, coordenador do grupo de trabalho em medicina esportiva da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), tendo como base um estudo realizado pelo Laboratório Antidoping de Colônia, na Alemanha, entre outubro de 2000 e novembro de 2001. A pesquisa, financiada pelo Comitê Olímpico Internacional, analisou 634 suplementos nutricionais de tipos variados, de 215 fabricantes e 13 países diferentes. No resultado, 94 produtos, ou 14,8% do total das amostras, apresentavam precursores hormonais não declarados em seus rótulos, que poderiam ser causa de doping positivo se usados por atletas em competições.

Em 2009, o Instituto Adolfo Lutz, órgão da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, divulgou resultado de uma pesquisa na qual foram analisadas 111 amostras de vários tipos de suplementos vendidos na capital e no interior do Estado. O estudo constatou que um em cada quatro produtos continha esteroides não declarados no rótulo. O levantamento também apontou que 85,6% dos suplementos não apresentavam qualquer informação sobre sua procedência.

"No Brasil, é desconhecida a situação dos suplementos no que se refere à contaminação por esteroides, mas sabe-se que é grande o consumo de suplementos importados, principalmente dos Estados Unidos. Com isso, é possível que o problema persista [a oferta de produtos contaminados]", afirma Anna Paola Pierucci, coordenadora do Laboratório de Desenvolvimento de Alimentos para Fins Especiais (LabDAFEE), do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2011, Anna Paola –em parceria com outros dois especialistas– publicou o estudo "Contaminação de Suplementos Dietéticos Usados para Prática Esportiva: uma Revisão de Literatura", na "Revista Brasileira de Ciências do Esporte", que reuniu e analisou estudos internacionais sobre o assunto.

Em janeiro de 2011, Don Catlin, fundador da organização de pesquisa Anti-Doping Research, em Los Angeles, e pesquisador reconhecido da área, divulgou que ele e o filho, Oliver Catlin, vice-presidente do instituto, compraram pela internet vários suplementos alimentares. Do total, testaram quatro produtos e o resultado foi que três deles apresentaram substâncias não declaradas no rótulo e que acusariam positivo em caso de teste de doping.

Usados com o intuito de melhorar o desempenho de atletas profissionais, os efeitos dos esteroides só são conhecidos em adultos. Entre os problemas que podem causar estão os danos hepáticos e o carcinoma (um tipo de câncer). Nos homens, o uso dessas substâncias ainda pode levar à impotência sexual parcial ou definitiva e à infertilidade. Nas mulheres, há o risco do crescimento excessivo de pelos no corpo.

De acordo com Barros, o uso exagerado de suplementos de proteínas pode causar problemas renais e hipertensão arterial em adolescentes com predisposição genética.

Benefícios

"Todos os nutrientes que os shakes de proteína dizem conter podem ser obtidos por meio de uma alimentação balanceada", diz o doutorando em educação física Renato Barroso da Silva, cuja tese está sendo desenvolvida dentro do Laboratório de Treinamento da Força da USP.

Para o fisiologista do esporte Turibio Leite de Barros, que é professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o jovem pode tirar proveito do uso de shakes de proteína desde que o produto seja de boa procedência e o consumo seja orientado.

"Há situações em que o uso de suplemento pode potencializar os resultados de um programa de condicionamento e ganho de massa muscular", diz ele. 

Somente um especialista é capaz de dizer se o jovem precisa ou não de algum suplemento e em que quantidade. Segundo Leite de Barros, o consumo de proteínas deve obedecer ao limite diário máximo de aproveitamento desse nutriente pelo organismo. "O que for ingerido além do necessário terá de ser processado pelos rins, trazendo o risco do desenvolvimento de problemas renais."
 
De acordo com o pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria, os shakes de proteínas podem ser indicados em alguns alguns casos para adolescentes, mas o uso, obrigatoriamente, tem de ser supervisionado de forma rigorosa e contínua por um médico ou nutrólogo.

Renato Barroso da Silva, da Escola de Educação Física da USP, fala que se o adolescente tiver uma dieta alimentar superior às suas necessidades calóricas, ao consumir shakes, pode armazenar a energia proveniente do suplemento em forma de gordura, em vez de conquistar músculos definidos.

Musculação segura

A prática bem orientada da musculação, com acompanhamento atento durante o treino e apoio médico, tem muito a agregar ao desenvolvimento do adolescente. Aumento da coordenação motora, da densidade mineral óssea (concentração de cálcio nos ossos), melhora do sistema cardiovascular e do equilíbrio são alguns dos benefícios listados por Renato Barroso Silva, da Escola de Educação Física da USP.

De acordo com Barros, da Sociedade Brasileira de Pediatria, crianças a partir de oito anos, desde que sob acompanhamento individualizado e rigoroso, podem praticar o chamado aprendizado com peso, um passo antes da musculação propriamente dita, e usufruir de seus benefícios (desde que, no máximo, três vezes por semana e com cargas que não ultrapassem 15 quilos).

Mas para o especialista, como um cenário corriqueiro nas academias é um professor ter de orientar vários alunos ao mesmo tempo, seria sensato esperar até que o adolescente atingisse o ponto máximo de desenvolvimento para começar a praticar. Nas meninas, isso acontece após a primeira menstruação e nos meninos, depois do chamado estirão de crescimento.

No caso dos garotos, somente o pediatra, com base na curva de peso versus altura que acompanha o desenvolvimento do paciente desde seu nascimento, seria capaz de determinar esse momento ideal. "A prática desorientada da musculação por filhos de pais de baixa estatura, e por isso com potencial de crescimento menor, pode vir a prejudicar a altura final alcançada. Basta reparar naqueles adolescentes baixinhos que exibem um corpo troncudo", declara Barros.

O fisiologista Turibio de Barros Leite, porém, chama de "excesso de zelo" esperar até que a garota tenha a sua primeira menstruação ou o garoto passe pelo estirão de crescimento, mas concorda com o pediatra da SBP sobre a necessidade de orientação profissional adequada para a prática de qualquer exercício. "No caso de um adolescente franzino, um programa de musculação bem orientado pode trazer benefícios não só para a saúde do menino como para a sua autoestima".


 

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