Infância

Diálogo e flexibilidade são necessários quando pais discordam sobre batizar os filhos

Ricardo Lima/UOL
Thiago Escher, a mulher, Telma, e a filha deles, Luiza: batizado marcado para março de 2013 imagem: Ricardo Lima/UOL

Ludmilla Ortiz Paiva

Do UOL, em São Paulo

Com o aumento da diversidade religiosa no Brasil, tendência apontada pelo Censo Demográfico 2010, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), tem-se tornado comum um dilema nas famílias: a decisão de batizar ou não os filhos e em qual religião.

Apesar de majoritário, o grupo de católicos diminuiu nas últimas duas décadas, representando 64,6% da população no levantamento. Em contrapartida, os evangélicos passaram de 15,4%, em 2000, para 22,2% em 2010. Os espíritas e as pessoas que se declararam sem religião também cresceram, ficando em 2% e 8%, respectivamente.

Dentre os brasileiros que disseram não seguir nenhum credo está o professor Thiago Escher. Casado há cinco anos com a vendedora Telma Aguilar de Aquino Escher, católica, ele nunca havia passado por um conflito de caráter religioso com a mulher até o nascimento da filha, Luiza, de um mês. A menina foi pivô de uma discussão entre os pais que durou quase os nove meses de sua gestação. Telma é a favor do batismo e Escher, contra.

“Nós tivemos longas conversas. Sempre que surgia o assunto, ele dizia que era besteira, que não fazia sentido. Quando a conversa ficava mais tensa, a gente parava. Deixávamos para o dia seguinte. Aos poucos, ele foi cedendo e entendendo a importância do batismo para mim. Então decidimos batizar nossa filha”, disse Telma.

Para a psicóloga Ana Aragão, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, optando pelo diálogo, o casal encontrou uma boa saída para a situação. “É preciso enfrentar a discussão. Ser irredutível não é suficiente para resolver o conflito. Temos de conversar quantas vezes forem necessárias”, declara a especialista.

Para Maria Aznar-Farias, pesquisadora do Laboratório de Psicologia Ambiental e Desenvolvimento Humano da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), os pais precisam encarar a discordância com maturidade e flexibilidade. “Quando a pessoa é inflexível, pode ser que haja um problema defensivo. Ela precisa se agarrar nessas defesas rígidas para se sentir bem. Talvez uma terapia conjugal rápida possa resolver.”

Escher decidiu por batizar a filha. “Por mim, não batizaria. Mas entendi o sentido do batizado para a Telma. Para ela é algo muito especial. Ponderando, concluí que é melhor deixar batizar. Assim evito brigas e conflitos até com a minha família, que também é católica.”

O batizado de Luiza está agendado para março de 2013 e os padrinhos já foram escolhidos. Por enquanto, a situação está resolvida, mas os pais dizem saber que o tema deve voltar à tona, quando a menina estiver na idade de fazer a primeira comunhão. Escher diz acreditar que a filha estará crescida o suficiente para decidir sua vida religiosa. Para Telma, a menina, que terá idade aproximada de 11 anos, ainda não poderá escolher por si.

Quando a escolha é do filho

Deixar a criança escolher foi o caminho encontrado pelos empresários Lúcia e Keiichi Kasegawa, pais de Danilo, 13. O estudante nunca havia frequentado a Igreja Católica quando, há dois anos, decidiu se batizar. “Não tinha ideia de como era até o dia em que a mãe de um amigo convidou a turma inteira da escola para fazer primeira comunhão”, conta o garoto.

  • Fernando Donasci/UOL

    Lúcia e Keiichi Kasegawa deixaram o filho, Danilo, decidir se queria ser batizado

Como na religião católica a pessoa só pode fazer a primeira comunhão após ter sido batizada, Danilo recebeu os dois sacramentos no mesmo dia, na frente dos amigos. Os pais, que são budistas não praticantes, não se opuseram, mas conversaram com o garoto sobre a decisão.

Citando Jorge Larrossa, professor espanhol de filosofia da educação, Ana Aragão diz: “O espaço de conversa deve ser garantido em qualquer situação. Só a conversa ajuda a afinar as diferenças, a conhecer as semelhanças e a entrar em um acordo”.

“Não somos cristãos, mas conversamos e deixamos a escolha a critério dele. Como todos os amigos estavam fazendo catequese, o Danilo também quis. Nós três sabemos que a decisão foi influenciada pelos amigos. Quando ele crescer mais, poderá fazer uma escolha definitiva sobre sua religião”, diz a mãe de Danilo.

E o menino diz saber que sua opinião pode mudar. “Gostei de passar por essa experiência. Mas não sei como vai ser daqui por diante.”

Os avós

Às vezes, a decisão de batizar ou não sofre influência de outros familiares, caso enfrentado pela bancária Jéssica Araújo Seneor Nogueira. Seu avô, Alberto Seneor, 84, é judeu ortodoxo e queria que o bisneto Lucas, quando estava com dois meses de vida, fizesse a circuncisão (remoção da pele que cobre a glande peniana), como requer o judaísmo, mas o pedido não foi atendido.

  • Leandro Moraes/UOL

    Jéssica Araújo Seneor Nogueira e o marido contrariaram o avô dela ao batizarem o filho, Lucas

Jéssica converteu-se ao catolicismo, religião do marido, o gerente comercial Fernando Nogueira Pedro, e provocou diferentes reações na sua família judia. Mesmo assim, casou-se na Igreja Católica e batizou Lucas.

Seneor, que havia ido ao casamento da neta, decidiu não presenciar o batismo do bisneto, cuja cerimônia representou bem a diversidade religiosa brasileira. No altar, como padrinhos do menino, o irmão de Jéssica, que é judeu, e uma amiga da bancária, seguidora da Igreja Luterana.

Hoje, Lucas tem dois anos e meio. Jéssica diz que, por enquanto, a religião dele está escolhida: a católica. “Se futuramente ele quiser ser budista, judeu ou ter qualquer outra religião, terá o meu total apoio.”


 

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