Infância

Compaixão e generosidade podem ser ensinadas desde cedo

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O papel dos pais é oferecer aos filhos oportunidades para fazerem o bem imagem: Thinkstock

Perri Klass*

Do New York Times

A mãe estava tentando segurar a bebê de forma que ela ficasse quieta, enquanto eu puxava delicadamente a orelha da criança, tentando enxergar o seu tímpano de um ângulo melhor. Contorcendo-se, a menina não estava gostando nada daquilo. Logo, seus soluços se transformaram em um choro desesperado.


De repente, o irmão da criança, também pequeno, que apenas assistia inocentemente, sem correr perigo de ter os próprios ouvidos examinados, começou a chorar, criando o tipo de cacofonia harmônica que faz com que os transeuntes estremeçam. E a pobre mãe, com as mãos ocupadas, só teve como passar os olhos pelo menino e tranquilizá-lo: sua irmã está bem, não se preocupe, não se sinta mal.

Por qual motivo, porém, o garoto estava chorando de fato? Será que ele estava cansado e frustrado, assustado com o barulho ou com ciúme da atenção que a mãe estava dando à irmã? Ou será que ele estava, na verdade, perturbado porque a irmã estava perturbada –um primeiro passo em direção à empatia, à simpatia, à bondade e à caridade?

A capacidade de perceber o sofrimento dos outros e de se comover com ele pode ser um componente fundamental do chamado comportamento pró-social, ações que beneficiam os outros: indivíduos, grupos ou a sociedade como um todo. Psicólogos, neurobiólogos e até mesmo economistas estão cada vez mais interessados na questão primordial de como e por que procuramos dar o melhor de nós mesmos.

Como as crianças desenvolvem comportamentos pró-sociais? Há, de fato, alguma maneira de incentivá-las a desenvolvê-los? Será que, se o fizermos, formaremos por fim adultos altruístas, do tipo que compram sapatos para um mendigo em uma noite gelada ou que se apressam a ajudar alguém a pegar um trem quando ele se aproxima da plataforma?


Nancy Eisenberg, professora de psicologia na Universidade Estadual do Arizona, é especialista no desenvolvimento do comportamento pró-social –"o comportamento voluntário destinado a beneficiar o outro"– entre crianças. Tal comportamento é frequentemente examinado por meio da capacidade do menino ou menina de perceber e reagir ao sofrimento de alguém. É possível verificar manifestações de preocupação e apoio entre crianças a partir do primeiro ano de vida.

Eisenberg faz uma distinção entre empatia e simpatia: "A empatia, pelo menos do jeito como eu a compreendo, consiste em vivenciar a mesma emoção ou uma emoção muito semelhante àquela que a outra pessoa está sentindo", disse ela. "A simpatia consiste em sentir preocupação ou pesar pela outra pessoa." Embora isso possa ser baseado em parte na empatia, disse ela, ou na memória, "as emoções sentidas são diferentes".

Pesquisadores descobriram que, por si só, a empatia intensa –sentir realmente a dor de outra pessoa– pode sair pela culatra, causando tanto sofrimento pessoal que o resultado final é um desejo de evitar a fonte da dor. Os ingredientes do comportamento pró-social, desde a bondade até a filantropia, são mais complexos e variados.

Incluem a capacidade de perceber o sofrimento dos outros, o sentido do ser que ajuda a compreender a sua própria identidade e sentimentos, as competências reguladoras que impedem que a angústia se torne tão grave a ponto de se transformar em aversão e o entendimento cognitivo e emocional da importância de ajudar.

Pesquisas sobre gêmeos têm sugerido que existe um componente genético ligado às tendências pró-sociais. Ao reagirem a um adulto que finge estar angustiado, por exemplo, gêmeos idênticos se comportam de modo mais semelhante do que gêmeos fraternos (bivitelinos). À medida que as crianças crescem, essas manifestações iniciais de simpatia e empatia se tornam parte de situações complexas de tomada de decisão, assim como da moralidade pessoal.

"Existe um certo grau de hereditariedade", disse Carolyn Zahn-Waxler, pesquisadora sênior da Universidade de Wisconsin-Madison, que realizou alguns desses estudos sobre gêmeos. Mas ela observa que o efeito é pequeno: "Não há nenhum gene ligado à empatia nem ao altruísmo. O que pode ser hereditário são algumas características da personalidade".

Scott Huettel, professor de psicologia e neurociência na Universidade Duke, descreveu duas teorias gerais para explicar o comportamento pró-social. Uma delas, disse ele, era basicamente motivacional: é bom ajudar outras pessoas. Os economistas também analisaram a questão de altruísmo e elaboraram a hipótese de que existe um efeito de satisfação especial que explica as doações feitas para fins de caridade.

Estudos experimentais têm demonstrado que a mesma região do cérebro que é ativada quando as pessoas ganham dinheiro se ativa quando elas o doam para fins de caridade. Há uma espécie de "recompensa" neurológica embutida no sistema motivacional do cérebro.

"A caridade pode ativar os mesmos centros ligados ao prazer pelo recebimento de recompensas no cérebro, os centros dopaminérgicos, intimamente ligados à formação de hábitos", disse Bill Harbaugh, economista da Universidade de Oregon que estuda o altruísmo. "Isso sugere que talvez seja possível tornar a caridade um hábito como outros que conhecemos."

A outra teoria do comportamento pró-social, disse Huettel, é baseada na cognição social –o reconhecimento de que as outras pessoas têm necessidades e objetivos. As duas teorias não são mutuamente excludentes: a compreensão cognitiva acompanhada por uma recompensa motivacional reforça o comportamento pró-social.

Moldar o comportamento pró-social, porém, é um negócio complicado. Por exemplo, certos incentivos financeiros parecem deter impulsos pró-sociais, um fenômeno chamado de debilitação da recompensa, disse Huettel.

Considere que nos Estados Unidos, historicamente, pagava-se aos doadores de sangue, mas não na Grã-Bretanha. E os britânicos doavam mais sangue. "As motivações extrínsecas podem suplantar as intrínsecas", disse ele.

O que os especialistas dizem sobre como estimular o comportamento pró-social em crianças, fomentando desde a bondade até a caridade?

Os exemplos dos pais são importantes. A simpatia e a compaixão devem fazer parte da experiência das crianças muito antes de elas conhecerem essas palavras.

"Explique como as outras pessoas se sentem", disse Eisenberg. "Considere os sentimentos da criança, mas não deixe de chamar atenção se ela machucar alguém."

Não ofereça recompensas materiais pelo comportamento pró-social, mas ofereça chances de fazer o bem –oportunidades que a criança possa aproveitar voluntariamente. E ajude-a a se considerar e a considerar o seu próprio comportamento como generoso, bondoso, útil, assim como fez a mãe que estava na minha sala de exames.

Lidando com o temperamento de uma criança, aproveitando que ela está começando a formar a compreensão de si própria e incrementando a sua compreensão cognitiva do mundo –apoiada pelos centros de recompensa do cérebro–, os pais podem tentar promover esse efeito de satisfação especial e a visão de mundo que o acompanha. A empatia, a simpatia, a compaixão, a bondade e a caridade começam em casa, e muito cedo.

*Perri Klass é médica pediatra

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