Infância

Amigo mais velho pode fazer a criança "queimar" etapas

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Os pais precisam acompanhar de perto a relação e saber a hora de colocar limites e fazer proibições imagem: Thinkstock

Cristina Moreno de Castro

Do UOL, em Belo Horizonte

As crianças normalmente fazem amigos da mesma idade, na maioria das vezes surgidos na escola. Mas não são raras aquelas que acabam se tornando amigas de grupos mais velhos, com uma diferença de idade que, nessa fase da vida, é significativa. O menino de dez anos que passou a andar muito com os amigos de 14 do irmão mais velho. O garoto de 11 que joga bola com os adolescentes de 15 na rua do bairro e acaba entrando para a “turma”. A menina de 11 que se encanta pelo aluno de série mais adiantada do colégio, que permite a aproximação.

Há vários motivos possíveis para essa amizade e eles demandam uma atenção especial por parte dos pais. A criança pode ser mais madura do que os colegas da mesma idade. Problemas de relacionamento podem fazer com que o jovem procure um amigo mais novo. A pressão social, muito forte hoje em dia, para que as pessoas cresçam logo, e a consequente supervalorização da adolescência.

Para Leila Cury Tardivo, professora do Instituto de Psicologia da USP, mesmo considerando as diferenças individuais, queimar etapas não é bom para a criança. “Parece que a infância está diminuindo e a adolescência aumentando. As coisas acontecem no seu tempo. Alguma coisa que você não viveu em uma determinada etapa poderá fazer falta mais adiante e causar problemas no casamento, quando tiver um filho ou quando for trabalhar.”

Segundo Leila, os pais devem acompanhar a relação de perto, conversar com o orientador da escola e, se for necessário, procurar a ajuda de um psicólogo. A especialista afirma que limites e proibições são fundamentais para manter a situação sob controle. “Uma proibição sempre é difícil. Mas se a festa é para jovens de 16 anos, só pode ir com 16.”


A psicóloga Jacqueline de Vicq, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, Criança e Adolescente Fernandes Figueira, ligado à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), reforça que é responsabilidade dos pais intervir. “Tem de falar, conversar, explicar e dar limites. Pai e mãe não são amigos. O filho pode não gostar do limite, mas, no futuro, vai agradecer pelo interesse.”

Preencher o tempo da criança com atividades adequadas à faixa etária dela, como a prática de alguma atividade física ou um curso, pode ajudar. “Se a criança estiver mais feliz, não vai buscar uma fonte de satisfação que possa não ser legal para ela”, declara Jacqueline.

Cuidado com o "bullying"
 

A diferença de idade abre caminho para a criança mais nova ser vítima de “bullying”. “Os pais têm de ficar muito atentos para que o filho não fique indefeso em uma situação de influência negativa. Se ele só conviver com pessoas mais velhas, vai ser sempre o que tem menos força”, fala a psicóloga.

“Os adultos têm de verificar se é uma amizade verdadeira mesmo ou se a criança está andando com pessoas mais velhas, mas é motivo de chacota e não percebe”, afirma a psicoterapeuta Cecília Zylberstajn. Para a especialista, essas relações podem não trazer consequências negativas, mas é temerário que a criança experimente vivências da adolescência de forma precoce.

Experimentar situações e comportamentos para os quais não se tem maturidade é o principal risco, de acordo com o psiquiatra e psicanalista Elko Perissinotti, vice-diretor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. “Os malefícios são muito mais prováveis, como o risco do tabaco, do álcool e a tentativa de viver uma adolescência em plena infância ou puberdade”, fala o especialista.

Para Perissinotti, os adultos podem intervir procurando estabelecer maior convívio com amigos cujos filhos tenham idade mais próxima do seu, observar alterações de comportamento surgidas a partir da amizade com o colega de faixa etária diferente, manter os dois sempre por perto e procurar desenvolver alguma amizade com os pais do outro.

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