Infância

Videogame pode ter efeito positivo desde que não vire "babá"

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É papel dos pais observarem o conteúdo do jogo e avaliar se é adequado à faixa etária do filho imagem: Thinkstock

Juliana Zambelo

Do UOL, em São Paulo

É inevitável, nos dias de hoje, que as crianças tenham acesso a algum tipo de videogame. E com o avanço da tecnologia, que coloca à disposição jogos em plataformas das mais variadas e portáteis, esse contato se dá cada vez mais cedo. Mas, ao contrário do que muitos pais ainda acreditam, videogames não são vilões absolutos. Se jogados com limites, podem ajudar no desenvolvimento das crianças.

Estudos realizados em todo o mundo sobre o uso constante dessa forma de lazer apontam benefícios e prejuízos. Segundo pesquisa da Michigan State University, nos Estados Unidos, divulgada em 2011, meninos e meninas de 12 anos que jogam videogame com regularidade se mostraram mais criativos do que os que não jogam. Outro estudo, realizado com jovens americanos pela Universidade de Rochester, concluiu que games de ação ajudam a aumentar a velocidade de raciocínio.

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Já a Universidade de Iowa, também nos Estados Unidos, divulgou em 2010 uma pesquisa que constatou que longos períodos na frente da TV, jogando videogames ou assistindo a programas, dificultam a concentração das crianças na escola, além de estarem ligados ao aumento de peso infantil.

Daniel Spritzer, psiquiatra especializado em crianças e adolescentes e coordenador do GEAT (Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas), diz que os games podem estimular raciocínio, memória, criatividade e coordenação motora, além de serem uma importante fonte de diversão. “As desvantagens aparecem quando o uso é intensivo.”

“Na vida nada é só bom ou ruim, tudo depende do quanto a criança fica exposta a esses jogos”, afirma a psiquiatra Ivete Gattás, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Para a especialista, jogos que propõem desafios de conquista, construção, resolução de dilemas ou criação de estratégias melhoram a capacidade da criança de pensar.

 

Sedentarismo

É preciso, no entanto, colocar limites. Uma das principais críticas aos jogos é o incentivo ao sedentarismo, que pode resultar em aumento de peso e obesidade.

"A maioria dos jogos é sedentária. Outra questão é quando a criança não quer parar de jogar e por isso acaba comendo porcarias para não perder tempo ou leva qualquer coisa para comer no quarto enquanto joga”, declara Daniel Daniel Spritzer.

Para os especialistas ouvidos pelo UOL Gravidez e Filhos, mesmo os jogos interativos, que reproduzem na tela os movimentos realizados pelos participantes, não substituem atividades físicas mais completas. “Eles não são a mesma coisa que estar ao ar livre, em movimento, porque você usa muito mais o tronco e os membros superiores”, fala Ivete, da Unifesp. “Eles são legais quando a criança não tem possibilidade de brincar fora ou possui alguma incapacidade física, como uma criança cadeirante. Com esses jogos de esporte, ela pode de alguma forma se sentir participando desse mundo.”

É importante, então, estipular limites. Segundo Ricardo Halpern, presidente do Departamento de Pediatria do Comportamento e Desenvolvimento da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), não há um tempo máximo a partir do qual a atividade passa a ser prejudicial. O que deve ser observado é que o período dedicado aos games não afete negativamente outras áreas da vida da criança, como estudos, família, atividades físicas, alimentação e contatos sociais.


Dependência

Para Daniel Spritzer, não é possível determinar se uma criança está dependente do videogame pelo número de horas que ela dedica a ele. “O quadro é de dependência quando o uso é muito intenso e acompanhado de sintomas de abstinência, ou seja, se a criança, quando fica sem poder jogar, mostra-se irritada, inquieta, angustiada.” O psiquiatra afirma que crianças com esse quadro podem apresentar isolamento social e piora no rendimento escolar.

Um dos pontos mais polêmicos quando se trata de jogos eletrônicos está relacionado à influência que games violentos podem ter sobre o comportamento. Segundo Spritzer, trata-se do aspecto mais estudado em relação aos videogames.

Para o psiquiatra, no entanto, a agressividade deve ser vista como um fenômeno complexo. “Jogar games violentos pode ser mais um fator que vai se somar a outros e aumentar o risco de que a criança desenvolva um comportamento violento, mas o jogo não pode ser visto como um fator único.”

“Existem estudos que apontam que jogos violentos vão ser mais maléficos para crianças que já têm um comportamento agressivo. Essas são as que não deveriam ficar expostas por muito tempo a games com violência, lutas, armas”, diz Ivete Gattás.

Segundo a psiquiatra, antes de julgar o jogo em si, é preciso avaliar quem é que está diante dele. “Se a criança vive em um ambiente agressivo, em uma casa em que se briga muito, grita muito, e, além disso, ficar também muito exposta a jogos violentos, corre o risco de começar a achar que aquilo é uma coisa normal, que a violência e a agressão são inerentes ao viver e vai lá fora repetir o que está vivenciando”, declara.

Ana Luiza Mano, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da PUC de São Paulo, afirma que jogos violentos permitem que o jogador libere agressividade dentro de um ambiente controlado. “Ele é uma ferramenta para as pessoas expressarem sentimentos, mas não existe uma ligação direta entre jogar um game violento e ir matar pessoas em uma escola. Se o videogame de fato gerasse agressividade, teria muito mais gente violenta por aí.”

Para lidar melhor com essa situação, os pais devem conhecer o conteúdo dos jogos que seus filhos costumam usar para se divertir, observar a faixa etária à qual o game é indicado e conversar sempre que acharem que algum comportamento está exacerbado.

“O adulto tem a obrigação de saber o conteúdo, assistir ou participar com a criança para entender o que acontece no jogo e a motivação do filho diante dele”, afirma Ivete. “Pais não podem ter medo de falar não. Têm de falar: 'não vou comprar esse jogo porque não é para sua idade' ou 'porque acho que ele não é adequado'. Eles têm esse dever.”

Spritzer também fala sobre a importância de observar a reação da criança ao jogo, se ela manifesta comportamentos ou sentimentos negativos. “O ato de jogar videogame tem de ser prazeroso.”

Babá eletrônica

Não existe uma idade mínima considerada ideal para deixar que a criança tenha acesso a jogos eletrônicos. Vem se tornando comum ver crianças cada vez menores manipulando os tablets dos pais.

“Hoje temos crianças de um ou dois anos com tablets em todos os lugares. Só vamos saber se foi um estímulo bom ou ruim quando elas crescerem”, diz Ivete.

Para Ana Luiza, da PUC, os games se tornam prejudiciais quando são usados pelos pais para que a criança fique quieta, substituindo a presença e a supervisão da família. “É um problema quando a criança fica jogando por muito tempo sem que os adultos se preocupem em cuidar, conversar.” Mas, nesse caso, o videogame não pode ser culpado. “Ele só está entrando em uma relação que é mais complicada do que isso, dos pais que deixam de ensinar limites ou dar educação e, no lugar, dão um jogo para o filho se distrair.”

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