Adolescência

Receio de falar sobre sexo prejudica vacinação contra HPV

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Muitos pais temem que vacinar a filha possa ser confundido com um estímulo para o início da vida sexual imagem: Thinkstock

Sabrina Tavernise

Do New York Times

O governo americano recomendou anos atrás que todas as meninas adolescentes fossem vacinadas para se protegerem contra o câncer cervical. Mas passados quase sete anos após sua chegada ao mercado, a grande maioria das meninas ainda não foi vacinada.

Apenas 35% das meninas com idades entre 13 e 17 anos receberam todas as doses da vacina, que protege contra as cepas do papilomavírus humano, causador do câncer cervical, segundo dados de 2011 dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês). E um estudo na revista "Pediatrics" neste mês, também baseado nos dados dos CDC, diz que a intenção de vacinar está em queda: 44% dos pais em 2010 disseram não ter intenção de vacinar suas filhas, em comparação a 40% em 2008.

Alarmados com as taxas teimosamente baixas, médicos e autoridades de saúde federais estão discutindo como fazer mais adolescentes serem vacinadas.

"Por trás desses números estão pessoas que desenvolverão o câncer cervical que poderia ser evitado", disse o médico Bruce Gellin, diretor do Escritório Nacional do Programa de Vacinas do Departamento de Saúde e Serviços Humanos.

Em uma reunião em Washington no mês passado, autoridades federais e locais, médicos e outros agentes de saúde exploraram formas de tornar as vacinas mais acessíveis. Alguns sugeriram dar a primeira das três doses exigidas em um consultório médico e outras duas nas escolas ou farmácias.


Outros defenderam uma maior ênfase na prevenção do câncer, minimizando o fato de que a vacina previne uma doença sexualmente transmissível. A ligação com DST afasta muitos pais, que odeiam conversar sobre sexo com seus filhos.

Fora do mundo das políticas, pesquisadores e departamentos de saúde locais estão aplicando suas próprias ideias. Na Escola de Medicina da Universidade de Indiana, em Indianápolis, pesquisadores criaram cartões postais como lembretes para os jovens que receberam a primeira das três doses necessárias ao longo de seis meses, mas não completaram a vacinação. Um cartão exibe um jovem na chuva com um guarda-chuva quebrado.

No Kentucky, defensores usaram o Facebook para realizar uma campanha educativa que conseguiu aumentar a vacinação em 10% nas áreas que participaram.

Pesquisadores na Universidade de Boston aumentaram as taxas de vacinação para pacientes em duas clínicas em Massachusetts ao ensinarem os pediatras a apresentarem a vacina contra HPV como sendo igual em importância a outras vacinas da infância, apesar de raramente ser exigida pelas escolas. O vírus é facilmente diagnosticado em adultos, de modo que os pediatras têm menos experiência com ele e podem dar pouca atenção à vacina.

O HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum nos Estados Unidos. Quase metade das mulheres com idades entre 14 e 59 anos foi infectada por, pelo menos, uma cepa. A taxa mais elevada, 54%, é entre as mulheres com idades entre 20 e 24 anos, segundo uma análise recente dos CDC. Uma vacina para prevenir contra algumas cepas do HPV, inicialmente aprovada em 2006, foi vista como um grande avanço por médicos e pesquisadores.


Os especialistas atribuem a baixa vacinação a uma série de fatores. A exigência de três doses é desajeitada. A vacina é para adolescentes, que apresentam menos probabilidade de visitarem um médico do que crianças pequenas.

Além disso, ela vem com um estigma. O HPV é uma infecção sexualmente transmissível e alguns pais temem que suas filhas vejam a conversa sobre a vacina como uma apologia ao sexo ou um sinal verde para começar a praticá-lo. Os profissionais de saúde dizem que ela deve ser administrada aos 11 anos, apesar de ser aprovada para crianças a partir de nove anos.

Finalmente, há o temor persistente que muitas pessoas têm de vacinações em geral. O estudo da "Pediatrics" apontou que, em 2010, o medo de efeitos colaterais se tornou o segundo motivo mais citado pelos pais para não vacinarem, disse o médico Paul M. Darden, um dos autores do estudo e um professor de pediatria da Universidade do Oklahoma.

As taxas de vacinação contra o HPV variam dramaticamente de um Estado para outro. Segundo dados dos CDC de 2011, Rhode Island apresenta o mais alto, com 57% das garotas adolescentes plenamente vacinadas, seguido por Vermont e Dakota do Sul, ambos com 50%. Arkansas apresentou a taxa mais baixa, 15%, menos da metade da taxa nacional. Outros Estados com taxas baixas foram o Mississippi e Utah, com 20%, e o Kansas, com 22%.

O padrão de vacinação entre os grupos étnicos foi surpreendente. Apesar da menor probabilidade das meninas latinas virem de famílias com plano de saúde ou receberem atendimento médico regular, a probabilidade de elas serem vacinadas é muito maior do que as meninas brancas.

Apenas 48% das adolescentes brancas receberam a primeira dose da vacina, em comparação a 56% das negras e 65% das latinas, segundo os CDC. Mas a taxa cai acentuadamente na terceira dose. Ao todo, 42% das adolescentes latinas foram plenamente vacinadas. Aproximadamente um terço das meninas brancas receberam todas as três doses, proporção semelhante a das meninas negras.

Os dados viram do avesso o padrão típico dos brancos exibindo melhores resultados de saúde.

"Eu não consigo me lembrar de uma vacina onde vimos um padrão como este", disse Walter A. Orenstein, diretor do Programa para Políticas de Vacinação e Desenvolvimento da Universidade Emory, que realizou o programa de imunização dos CDC por 16 anos.

Um motivo é dinheiro. Um programa de vacinação que cobre as vacinas para os pobres e carentes deu a vacina contra HPV para as clínicas de graça. A cobertura dos planos de saúde é menos confiável e muitos pacientes tiveram de dividir a conta ou pagar o preço integral da vacina, que geralmente chega a US$ 500 pelas três doses.

A nova lei de saúde obriga os planos de saúde a cobrirem a vacina, uma mudança que tem o potencial de eliminar a disparidade e aumentar a taxa de vacinação.

Há outros fatores sociais em ação. A médica Amanda F. Dempsey, uma professora associada de pediatria da Universidade do Colorado, em Denver, disse que, em sua clínica anterior em Michigan, os pais mais educados eram os mais relutantes em vacinar suas filhas. Para alguns, a hesitação vinha da suspeita deles de vacinas. Para outros, tinha mais a ver com o tema de sexo.

"A maioria diz: 'eu não quero essa vacina para minha filha'. Ao sondarmos mais a fundo, ou estava ligado a preocupações de segurança ou à questão do sexo", disse Dempsey.

Os pais brancos também "tinham a tendência de ter uma visão mais fantasiosa do comportamento de suas filhas", disse Rebecca B. Perkins, professora assistente de obstetrícia e ginecologia da Escola de Medicina da Universidade de Boston, citando uma pesquisa que será publicada no "The Journal of Healthcare for the Poor and Underserved".

Segundo Perkins, os pais que procuravam clínicas públicas eram os que mais provavelmente diziam: "Eu tentei ensinar o que é melhor para minha filha, mas prefiro me precaver".

Os que procuravam clínicas privadas apresentavam mais probabilidade de dizer: "Isto não é necessário", apesar do comportamento de ambos os grupos de adolescentes, segundo seus médicos, não ser diferente.

Diferenças culturais também exerceram um papel. Muitos latinos de origem estrangeira são de países onde os bebês ainda morrem de doenças que podem ser prevenidas com vacinas, como sarampo. Eles consideram as vacinas como sendo essenciais para a sobrevivência. Os pais nascidos nos Estados Unidos, por outro lado, são mais céticos em relação às vacinas, já que muitos não têm nenhuma lembrança das doenças letais que elas previnem.

Perkins descreveu um encontro típico com uma mãe latina. "Ela disse: 'No meu país, se um bebê não toma as vacinas, morre. Por que eu não faria isto?'."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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