Adolescência

Postura clara dos pais contra o fumo ajuda a afastar jovem do vício

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Para alertar os jovens, é preciso ter segurança ao falar sobre os malefícios do cigarro imagem: Thinkstock

Fabiana Gonçalves

Do UOL, em São Paulo

A busca das pessoas por uma vida mais saudável e as políticas públicas de restrição ao tabaco têm contribuído para a diminuição do número de fumantes no Brasil. “Segundo dados do Ministério da Saúde, o percentual de pessoas que fumam passou de 16,2% em 2006 para 14,8% em 2011. Mesmo que hoje o país tenha 85% de sua população não fumante, ainda assim contabiliza 25 milhões de fumantes”, afirma o pneumologista José Roberto Jardim, especialista em tabagismo da Escola Paulista de Medicina.

Por falta de estudos com adolescentes, não é possível afirmar que a tendência de queda também acontece com esse público, considerado mais sensível aos apelos do cigarro. “O adolescente é um indivíduo em fase de afirmação como elemento social e isso o torna vulnerável, inclusive a algumas campanhas publicitárias mais espertas", declara José Roberto Cardoso, médico especialista em medicina comportamental e membro do Núcleo de Práticas Integrativas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Segundo Cardoso, a “influência cruzada” é outro fator que pode levar o jovem a fumar. “Aqueles que tendem a usar álcool, praticar pouca ou nenhuma atividade física, entre outros comportamentos, são também aqueles que tendem ao tabagismo.” De acordo com o especialista, é por isso que se tornam relevantes as políticas de educação e de apoio social aos adolescentes.


Tipo de fumante

Para Cardoso, ao constatar que o adolescente fuma, é preciso diferenciar se ele é um usuário eventual de cigarro ou um tabagista. De maneira geral, o tabagismo é caracterizado pelo uso contínuo de fumo durante um mês ou mais; pelas tentativas fracassadas para abandonar o fumo ou diminuir a quantidade de cigarros consumidos; pelo aparecimento de síndrome de abstinência após uma tentativa de deixar de fumar e pela persistência do uso, apesar de distúrbios físicos que ameaçam a vida e que se sabe serem potencializados pelo hábito.

“No caso de uso eventual, o adolescente pode parar de fumar por conta própria e bastaria conversar com calma e apresentar os perigos do cigarro. Porém, quando instalado o tabagismo, existe um cenário mais complicado. Os pais, então, precisam ser solidários, pacientes e tratar do caso como se trata de outro vício qualquer, buscando ajuda profissional quando necessário”, diz Cardoso.

Para a psicóloga Rosangela Vicente, coordenadora do Prevfumo, programa ligado à disciplina de pneumologia da Unifesp, caso o adolescente tenha começado a fumar, os pais devem evitar ameaças ou ultimatos. “Tente descobrir por que seu filho fuma e discuta formas de ajudá-lo”, afirma a especialista.

Saúde em xeque

Para convencer o jovem a não experimentar o cigarro ou a parar de fumar, provavelmente, não bastará apenas falar das consequências do fumo para sua saúde, mas de qualquer forma é importante colocar para ele o impacto negativo que o hábito pode vir a ter em sua vida adulta. “Existem 53 doenças associadas ao tabaco, como câncer de pulmão, câncer na laringe e aneurisma na aorta. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), de cada duas pessoas que fumam, uma vai morrer com alguma doença associada ao cigarro”, fala o pneumologista José Roberto Jardim.

Dez mandamentos contra o tabaco

Abaixo, os especialistas ouvidos pelo UOL Gravidez e Filhos enumeram estratégias para os pais ajudarem o filho a se manter longe do vício:

1. Entenda a atração para o cigarro
A maioria dos adolescentes ainda começa a fumar para se sentir parte de um determinado grupo de amigos ou como forma de rebeldia. Há também quem acenda o primeiro cigarro para controlar a ansiedade em uma dieta para perder peso.

Questionar o filho sobre o que ele sente e pensa a respeito do tabagismo e se algum de seus amigos fuma são boas perguntas para iniciar uma conversa franca. “Ao falar sobre os riscos do fumo para a saúde, o adulto tem de ter uma postura segura sobre o assunto, sem demonstrar insegurança ou falta de informação”, afirma a psicóloga Rosangela.

2. Aprenda a dizer não
Mesmo que o jovem pareça não se importar, os pais devem colocar sua desaprovação ao comportamento. “Adolescentes cujos pais demonstram de forma clara suas restrições ao tabagismo na adolescência tendem a fumar menos do que aqueles cujos pais não estabelecem limites. O mesmo acontece com os adolescentes que se sentem mais próximos de seus pais”, fala Rosangela.

3. Dê o exemplo
O tabagismo é mais comum entre adolescentes cujos pais fumam. Se você não fuma, mantenha-se assim. Se fuma, pare para servir como exemplo. Enquanto não se livra do vício, não fume em casa, no carro ou na frente do jovem e não deixe cigarros onde ele possa encontrá-los. “Explique o quão insatisfeito ou infeliz se sente por fumar, como é difícil parar e que você vai continuar tentando até largar o cigarro para sempre. Por isso é tão importante que ele não dê a primeira tragada ou pare tão logo comece”, declara a psicóloga.

4. Apelo à vaidade
Fale sobre o impacto do vício na aparência: mau hálito, envelhecimento precoce, dentes amarelados, cheiro de nicotina nas roupas e nos cabelos. “Sem contar que, no futuro, o tabaco pode causar perda óssea, o que pode levar ao enfraquecimento e à perda de dentes”, diz o pneumologista José Roberto Jardim. 

5. Faça as contas com seu filho
Fumar um maço de cigarros por dia (custo médio de R$ 4) gera um gasto mensal de R$ 120 e de R$ 1.500 por ano. Com esse dinheiro, o jovem pode fazer uma viagem de quatro dias para Argentina, incluindo passagens aéreas, hospedagem com café da manhã e city tour. “Quer outro exemplo próximo da realidade do adolescente? Com essa mesma quantia é possível comprar à vista um Ipod Touch de última geração”, fala Jardim.  

6. Considere a pressão dos colegas
Amigos que fumam podem ser convincentes, mas você pode ajudar o adolescente a lidar com situações sociais difíceis. Discuta com ele como recusar a oferta de cigarros. Quanto mais o jovem pratica essa recusa básica, maior a probabilidade de dizer não no momento da verdade.

7. Leve a dependência a sério
A maioria dos jovens diz que pode parar de fumar a qualquer hora. “No entanto, os adolescentes podem se tornar tão dependentes do tabaco quanto os adultos. Muitas vezes rapidamente e com doses relativamente baixas de nicotina. Uma vez dependente, é difícil parar de fumar”, declara o pneumologista José Roberto Jardim.

8. Exemplos reais
Adolescentes tendem a achar que coisas ruins só acontecem com os outros. Explique as consequências do tabagismo a longo prazo, como câncer, ataque cardíaco e acidente vascular cerebral (derrame), e mencione exemplos de conhecidos, familiares ou celebridades que ficaram doentes por causa do fumo.

9. Pense além do cigarro
Cigarros de cravo ou mentolados são erroneamente considerados menos prejudiciais ou viciantes do que a versão convencional. O narguilé (espécie de cachimbo que permite fumar tabaco por meio de uma tubulação de água) é também por vezes apresentado como seguro. Não deixe o adolescente ser enganado. Como os cigarros convencionais, esses produtos são viciantes e podem causar câncer e outros problemas de saúde. Muitos têm concentrações mais elevadas de nicotina, alcatrão e monóxido de carbono, substâncias tóxicas presentes no cigarro.

10. Participe
Tenha uma postura ativa contra o tabagismo na adolescência. Participe de campanhas na escola, apoie esforços para tornar os lugares públicos livres de fumo e o aumento de impostos sobre os produtos com tabaco. São medidas que podem ajudar a reduzir as chances de o adolescente se tornar fumante.

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