Adolescência

Dar mesada e ensinar a gastá-la ajudam a educar financeiramente

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Avalie a maturidade do jovem antes de abrir uma conta para ele ou dar um cartão de crédito imagem: Thinkstock

Catarina Arimatéia

Do UOL, em São Paulo

Na adolescência, dinheiro passa a ser um dos assuntos mais sensíveis na relação entre pais e filhos. De um lado há o jovem descobrindo o mundo e querendo se autoafirmar com os amigos e na sociedade. Do outro, os adultos, geralmente com orçamento limitado, sem saber como lidar com os desejos de consumo de sua prole. Vez ou outra, os atritos são inevitáveis, mas é possível administrar a situação sem perder o sono e a tranquilidade.

O ideal é começar a ensinar o filho a lidar com moedas e notas na primeira infância. Para o educador e terapeuta financeiro Reinaldo Domingos, autor de uma coleção de livros sobre educação financeira para crianças e presidente da DSOP Educação Financeira, o melhor momento é a partir dos três anos, quando as crianças começam a pedir aos pais brinquedos e guloseimas.

“Nessa fase, eles desenvolvem noções de quantidade –sabem o que é muito ou pouco– e conseguem reparar que, ao comprar algum produto ou alimento, o adulto entrega ao vendedor um cartão, moedas ou um pedaço de papel (cédula). Com uma boa conversa, passam a entender que esse ‘dinheiro’ é fruto do esforço e do trabalho do pai e da mãe”, diz.

Cálculo da mesada

“A mesada evolui com a idade”, afirma a consultora financeira Suyen Miranda.

Uma criança de três anos pode começar recebendo de três a cinco reais mensais, pagos em moedas de valores diferentes para que sejam colocadas em um cofrinho.

Conforme os filhos vão crescendo, naturalmente, irão recebendo mais dinheiro, de acordo com o que gastam e levando em conta o orçamento familiar.

Não existe uma porcentagem padrão para o cálculo da mesada, segundo Reinaldo Domingos.

Para calcular o valor, os pais devem fazer um diagnóstico, anotando por 30 dias todo o dinheiro destinado ao filho considerando lanches e alimentação fora de casa, passeios, roupas, reposição de material escolar, passeios.

Depois, basta somar o total e oferecer como mesada 50% do valor levantado. Por exemplo, se o gasto mensal for R$ 200, sugerir R$ 100 de mesada.

Se for necessária uma complementação, que seja feita apenas no primeiro mês. “Caso se repita a falta de dinheiro, é preciso endurecer e não ampliar a quantia”, fala Reinaldo.

O exemplo vem de casa

Mas não bastam longas conversas sobre o assunto. Mesmo que existam escolas com educação financeira em seu currículo –e a tendência é que mais instituições venham a incluí-la na grade escolar– aí está um tema em que os pais também devem dar o exemplo, diz a consultora financeira Suyen Miranda. “Se os pais forem gastões, provavelmente, os filhos seguirão o mesmo caminho.” A tendência é se espelhar no comportamento que existe dentro de casa.

De acordo com a especialista, um bom treino financeiro é levar a criança na hora de fazer compras e pedir a ela que ajude na soma das despesas. “Com filhos pequenos, é importante começar a ensinar conceitos matemáticos dos valores. Por exemplo, vale mostrar que dez moedinhas de R$ 0,10 correspondem a R$ 1 e que duas moedas de R$ 0,50 também equivalem a R$ 1”, diz ela.

A poupança e os sonhos

Em qualquer idade, os ensinamentos sobre finanças devem estar sempre atrelados à realização de sonhos. “É preciso ensinar que o dinheiro é uma moeda de troca”, fala Reinaldo Domingos.

Um bom caminho é conversar com a criança sobre os desejos dela e dividi-los em sonhos de curto prazo (a serem realizados de um a três meses), de médio prazo (até seis meses) e de longo prazo (até um ano), lembrando que a criança compreende melhor o período entre um aniversário e outro ou um Natal e outro.


Para reafirmar o ensinamento, Domingos sugere dar à criança três cofrinhos. Um pequeno com o nome de “curto”, outro maior chamado “médio” e um grande, o “longo”. Se houver mudança de planos no meio do caminho, não há problema. De qualquer maneira, a criança estará motivada a poupar primeiro para os seus sonhos e fará escolhas mais conscientes sempre que surgirem situações em que quiser satisfazer outro desejo ou impulso de compra.

Definindo a mesada

Os especialistas concordam que a mesada é fundamental para ajudar no aprendizado da poupança e do consumo. “Ela é um reflexo do futuro financeiro, já que não recebemos dinheiro todos os dias, pelo menos, isso não existe na maioria das atividades profissionais. O fato de a criança ou o adolescente ter uma verba para o mês todo ajuda a entender que é preciso planejar, controlar gastos e poupar, o que não acontecerá se os pais sempre derem dinheiro a cada pedido que o filho faça”, fala Suyen Miranda.

A especialista em educação financeira Cássia D’Aquino também ressalta a importância de os pais deixarem claro quais são as regras na hora de dar a mesada. Por exemplo, precisam explicar com todo o detalhe como se faz um orçamento. E se o filho for “à falência” na metade do mês, nem sempre tal fato deve ser visto como algo ruim.

“É natural e até desejável que isso aconteça. Assim será possível os pais ensinarem aos filhos a evitar desastres financeiros muito maiores no futuro”, diz.

Falência todo mês

O problema é quando as “falências” começam a ser recorrentes. Se isso acontecer, ou é porque os pais se esqueceram de ensinar o filho a organizar a mesada ou porque o dinheiro é insuficiente para suprir suas necessidades.

Nesse caso, diz Cássia, a medida mais correta é sentar, conversar e redefinir o valor. Se mesmo assim a falta de dinheiro acontecer com frequência, cabe aos pais ficarem alertas e tentarem detectar outros sinais de comportamento. Por exemplo, se o filho está indo bem na escola, quais são suas companhias mais constantes ou se está se ausentando muito de casa.

Controle sobre o dinheiro

Importante: os pais não podem se esquecer de ter um controle total do valor da mesada. “Conceder dinheiro para uma criança ou um jovem é uma grande responsabilidade, visto que a quantia poderá ser utilizada para coisas boas ou não”, diz Domingos.

O que fazer? Dialogar sempre. E planejar encontros familiares. “Uma reunião para colocar na mesa os sonhos individuais e coletivos da família tem sido uma ótima prática para que os pais tenham conhecimento do que os filhos querem como prioridade em suas vidas”, afirma o consultor financeiro.

E se o filho gastar mais do que a mesada estipulada? “Esse é um dinheiro que o filho usa para despesas supérfluas. Portanto, se acabou, ele terá de esperar o próximo pagamento, assim como fazemos com o nosso salário. Se os pais não perdoarem a dívida, o jovem aprenderá que é preciso ter um planejamento financeiro para ter dinheiro quando quiser e precisar”, afirma Suyen. E, claro, as despesas fundamentais da criança ou do adolescente, como material escolar, lanche, transporte escolar e alimentação, não devem ser pagos com mesada.

Banco e cartão

Mesadas à parte, a abertura de uma conta bancária ou de um cartão de crédito também estão na pauta de desejos dos adolescentes. E como saber se o filho é capaz de ter responsabilidades maiores?

“Se o jovem tiver recebido educação financeira desde a infância, poderá, sem dúvida, ter uma conta corrente ou um cartão pré-pago para suas despesas pessoais. Mas, se ele não sabe usar o dinheiro, não poupa e não controla o orçamento, será necessário antes ensinar esses conceitos para evitar que ele peça dinheiro e gaste sem controle”, diz Suyen.

Segundo ela, antes de abrir uma conta corrente, é fundamental que o adolescente tenha experiência com sua mesada, paga sempre no mesmo dia e em todos os meses, como se fosse um salário.

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