Infância

Crianças e bebês testam brinquedos antes de serem lançados

Andrezza Czech

Do UOL, em East Aurora (Nova York)

"Amor, risadas e amigos são sempre bem-vindos aqui", diz uma placa de madeira pendurada quase no teto da sala. A casa de dois andares e um quintal –no dia da visita, completamente tomado por neve– fica em East Aurora, uma pequena cidade interiorana próxima a Buffalo, no estado de Nova York.

Nela, um menino, Joseph, de sete meses e duas meninas, Sydney, de quatro anos, e Ellie, três anos, se divertem com muitos, mas muitos brinquedos espalhados pela casa. Por sorte da mãe, boa parte não foi comprada, pois faz parte de um "trabalho" das crianças: testar brinquedos.

Professora do ensino fundamental em período de licença-maternidade, a mãe Amy Girard, de 33 anos, foi a responsável por trazer essa "difícil" tarefa para a casa quando Sydney ainda era um bebê. "É empolgante ser uma das primeiras a ver um brinquedo antes de ser lançado", diz Amy.

A família Girard é uma das mais de 10 mil inscritas na base de dados da Fisher-Price para fazer parte dos testes de brinquedos que ainda serão lançados pela marca. Quando uma família se inscreve, ela pode ser chamada para qualquer um dos vários testes que a empresa faz, seja ele realizado em casa ou no laboratório da Fisher, mas tem o direito de decidir se irá participar ou não das pesquisas.

A escolha da família é baseada no tipo de produto que se quer testar no momento, e e-mails são disparados para os inscritos que têm filhos na faixa etária para a qual os brinquedos serão destinados. Geralmente, as mais desejadas são aquelas com bebês e crianças ainda na fase pré-escolar. "Há sempre muitos testes com bebês. Hoje já são poucos para a Sydney e a Ellie", diz Amy.

Para que todos os inscritos possam participar, a seleção de famílias costuma variar. Há apenas uma exigência na inscrição: que ela more a uma distância de até 80 km de East Aurora, cidade onde fica o centro de pesquisa da Fisher-Price. 

Avaliação em casa

O teste em casa é o último que a empresa faz antes que os brinquedos sejam lançados. Não há qualquer risco para a criança: os produtos só são liberados após passarem por rigorosas avaliações de segurança.

São os pais quem buscam os brinquedos na Fisher, e as crianças passam duas semanas se divertindo com eles em casa. Depois, a família recebe duas pesquisas online sobre o produto. Uma vez preenchida, os pais recebem uma quantia em dinheiro para compensar os gastos de ida e volta (a empresa não revela o valor).

Todas as observações feitas pelos familiares vão para os pesquisadores, que costumam ligar para os pais para esclarecer dúvidas, entender as reclamações deles e chamá-los até o laboratório de testes, caso seja necessário replicar algum defeito que o produto apresentou.

Além de fazer testes, os bebês muitas vezes são chamados para estampar as caixas dos produtos –todos os bebês das embalagens de brinquedos da Fisher são crianças que fazem testes. "Sydney saiu em uma caixa quando era bebê. As meninas são muito chamadas agora para fazer fotos de mãos. É muito divertido. E elas adoram, porque ganham brinquedo no fim", diz Amy.

Testes na Fisher

Bem antes que o brinquedo chegue até casas de família como a dos Girard, muitos outros pais e crianças participam de testes que determinam o processo de criação de um brinquedo da Fisher-Price.

Tudo começa com reuniões em que mães –muitas delas, ainda grávidas– visitam a empresa e conversam sobre conceitos de brinquedos, levando ideias do que gostariam de ter para que os filhos brincassem.

Depois que os brinquedos são de fato desenvolvidos e passam por testes de segurança, crianças de outras famílias são chamadas para testá-los na Fisher, sob a supervisão de profissionais que anotam possíveis falhas. 

Só quando os brinquedos estão praticamente prontos, a um passo de serem lançados, é que começam os testes em casa.

Se não houver tempo para essa última fase dos testes, o laboratório de pesquisa da Fisher-Price tem uma alternativa: um espaço que reproduz uma casa norte-americana típica (foto abaixo). O local tem sala, cozinha e banheiro mobiliados com diferentes pisos e tapetes.

  • Divulgação Fisher-Price

    Espaço reproduz sala, cozinha e banheiro de uma casa americana típica. Crianças passam até 30 minutos brincando nesse local e sendo observadas por pesquisadores

As crianças passam de 15 a 30 minutos nesse espaço, onde são observadas, por meio de espelhos, por engenheiros de brinquedos, designers e profissionais de segurança do produto. Com exceção do espaço que reproduz um banheiro, tudo é gravado para que possa ser analisado novamente mais tarde. Depois de terminados os testes, as crianças têm o direito de escolher um dos vários brinquedos guardados em um grande armário. 

As mães que participam das reuniões de ideias de produtos também são remuneradas. Nesse caso, não com brinquedos, mas dinheiro.

"Elas precisam pagar a gasolina para vir aqui, às vezes até pagar uma babá para cuidar do filho durante essas horas. O valor apenas cobre os gastos e dá para tomar um café", diz a pesquisadora infantil Kathleen Alfano, diretora sênior do Departamento de Pesquisa Infantil da Fisher-Price. "Não é muito, mas é uma quantia que as encoraja a participar, é um incentivo. Temos de tomar cuidado para não darmos muito dinheiro, porque senão vira um tipo de trabalho”, diz ela.

Play Lab

Espaço onde as crianças são observadas brincando, o Play Lab é a atividade mais disputada da Fisher-Price e a lista de espera é grande: cerca de 2 mil pessoas, segundo Kathleen.

Mãe de Abigail Arcadipane, de quatro anos, Sandy ficou mais de dois anos esperando que a filha fosse convidada. A mãe já fez testes em casa com seus outros três filhos meninos, mais velhos do que Abigail, mas almejava o Play Lab para proporcionar à filha, que estuda em casa, mais interação social com outras crianças.

São apenas duas turmas a cada dois meses que participam do Play Lab, cada uma delas com três meninos e três meninas: uma de segunda e quarta, e outra, de terça e quinta. Das 9h às 11h, as crianças entram na sala com diversos brinquedos, uma mesinha, um banheiro e até uma casinha com escorregador. Assim como o espaço que reproduz uma casa, o Play Lab também tem vidros pelos quais profissionais da Fisher podem observar como as crianças interagem com os brinquedos.

Logo que chegam, as crianças tomam um lanche como gente grande, pedindo licença na hora de levantar da mesa e até retirando os pratos. E só então começam a brincar, sempre supervisionados pelas professoras Carol Nagode, gerente sênior do PlayLab, e Barbra O'donnell, sua assistente.

O único eletrônico da sala, um iPad com aplicativos de jogos infantis educativos, tem tempo limitado para ser usado: dez minutos. "Fazemos isso para sermos um modelo para os pais. Tudo bem brincar com eletrônicos, mas temos de garantir que eles brinquem com outras coisas também, que haja um limite", diz Kathleen. 

"É preciso ter um balanço. Uma criança precisa ter uma bola, um skate, um quebra-cabeça... Elas são, por natureza, fisicamente ativas. Esses itens tecnológicos podem parecer mágicos para a gente, mas para as crianças é só mais uma coisa", afirma.

Não há discriminação por gênero de brinquedos no Play Lab. Muito pelo contrário: meninos são incentivados a brincar de boneca e meninas de carrinho, se assim desejarem. "Quando a casa das princesas do Little People chegou e Gavin quis brincar, as meninas disseram que não era um brinquedo para ele, mas nós dissemos que ele podia participar da brincadeira, sim", diz Carol.

"Temos fantasias para as crianças brincarem e deixamos os meninos usarem vestidos e salto alto se quiserem. Eles devem ter oportunidade de brincar com o que desejarem", afirma.

Gavin Tyler, de três anos, foi inscrito no Play Lab por sua mãe, Susan, para que ele aprenda a brincar com outras crianças, já que só tem uma irmã mais velha, de nove anos. "É interessante para que ele aprenda a dividir, a se comunicar melhor, e não só com a mãe", diz.

Além de dividir, as crianças aprendem a ser organizadas. Depois de brincar, elas guardam todos os brinquedos e só então têm direito de escolher um livro para ouvirem uma história antes de voltarem para casa. "Eles até começam a guardar brinquedos na casa da família. Ensinamos boas maneiras e coisas diferentes do que é ensinado na escola", diz Kathleen.

* A jornalista viajou a convite da Fisher-Price.

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