Adolescência

Saiba até que ponto apoiar a admiração do jovem por um ídolo

Arquivo Pessoal
Rachel Perez acompanhou a filha, Lara, ao show do Justin Bieber imagem: Arquivo Pessoal

Ludmilla Paiva Ortiz

Do UOL, em São Paulo

Sentir admiração por artistas famosos da música, da TV ou do cinema faz parte da vida de qualquer adolescente. “É saudável que o jovem procure referências fora do contexto familiar e inspiração na construção de sua identidade”, afirma a psicóloga Lídia Weber, professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e autora do livro “Eduque com Carinho”.

Se o comportamento faz parte da formação do adolescente, qual papel cabe aos pais?

“De vez em quando, é bacana que os pais acompanhem os filhos em seus interesses e participem da vida deles. O envolvimento parental é importante para demonstrar afeto. O problema está em gastar muito dinheiro com isso ou alterar, constantemente, o dia a dia da família por causa do ídolo”, diz a psicóloga Lídia, que, muitas vezes, acompanhou os filhos, quando adolescentes, a shows.

Para ela, existem quatro tipos de pais. Um deles é o permissivo, que dá muito afeto e poucos limites. “É o que pensa 'quero que meu filho tenha tudo o que não tive', prioriza a realização do filho e pode esconder um medo de não ser amado.”

O segundo tipo é o pai autoritário, que não dá muito afeto e proíbe tudo o que está ao seu alcance. O terceiro é o pai negligente, que não dá limite nem afeto. O quarto tipo, o participativo, é o ideal: envolve-se nos interesses do adolescente, ensina como o mundo funciona e impõe limites.

“Os pais colaborarem para que o filho vá a um show importante é saudável, mas ter os mesmos comportamentos fanáticos é ultrapassar a linha. Talvez sejam pais que sintam estarem perdendo a juventude. Talvez percebam que o filho está buscando uma referência externa e, com receio de não serem mais amados, querem estar por perto”, afirma Lídia.

De mãe para filha

A representante de vendas Rachel Perez, 39, tem coleções de vinis, CDs, DVDs, pôsteres e revistas da Madonna. Ela curte tanto a artista pop que sua filha, Lara Gonçalves, 12, também tomou gosto pela cantora. “Só que entre ela e o Justin Bieber, fico com o Justin”, diz a garota.

As duas foram juntas ao show da cantora, em dezembro de 2012, e também estiveram no de Bieber no Brasil, em 2011, ambos em São Paulo. “Chegamos cedo e esperamos algumas horas para ver ele entrar. Para que eu visse melhor o meu ídolo no palco, minha mãe me carregou nos ombros”, fala a menina.

Rachel teve um site sobre Madonna, mas o abandonou para se dedicar melhor ao trabalho. ”Sei como é ser fã e converso muito com a Lara sobre nossos ídolos. Sempre alerto sobre o que isso pode ocasionar, mas não crio limites porque, por enquanto, essa admiração pelo Justin Bieber não causa nenhum mal a ela”, diz a representante de vendas.

Fã empreendedora

Vera Bonafé, 49, e a filha, Marcela, 16, são companheiras de shows. Elas já viajaram para o Rio por causa da Katy Perry. Passaram horas na porta de um evento na cidade que a menina pudesse ver a cantora americana. Também foram a shows de Lady Gaga, Green Day, High School Musical, KLB, Justin Bieber, Jonas Brothers, Sandy & Junior, Bruno Mars, Roger Waters (ex-integrante do Pink Floyd) e Elton John. Só falta um nome na lista: a banda One Direction, que se apresenta no Brasil em 2014.

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    Vera Bonafé e a filha, Marcela, em festival de música, em março, em São Paulo

Marcela é tão fã dos artistas ingleses que toca um site sobre eles, com atualizações diárias. Vera sempre apoiou a filha. “Minha mãe sempre me incentivou a continuar com o site, bancava os custos com hosting (hospedagem) e ajudava a comprar coisas sobre eles”, diz a adolescente.

“O site trouxe muita coisa positiva para a Marcela. Funciona como uma empresa. Ela precisa administrar os problemas, gerenciar os custos e dividir as tarefas com a sua equipe, formada por outros jovens como ela. É uma aprendizagem muito grande”, afirma Vera, que é gerente de operações de uma produtora de cinema.

Para a psicóloga Mara Pusch, do Centro de Atendimento da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), quando o adolescente deixa de fazer suas atividades da escola, perde aulas por ficar horas acompanhando o ídolo nas redes sociais, só fala sobre o famoso ou se comporta e se veste exatamente como ele, imitando até os trejeitos, é sinal de que a linha tênue e quase invisível que separa a admiração e a obsessão está se rompendo.

“É ótimo quando os pais participam da vida do filho, só que adultos e adolescentes não podem se misturar. A relação não pode ser de simples amizade. Deve haver companheirismo, só que os pais não devem deixar de ter responsabilidades sobre a educação do filho”, declara.

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