Bebês

Manter a amamentação na volta ao trabalho exige planejamento

Arquivo Pessoal
A médica Cândida Broxado Marçal Pereira com a filha imagem: Arquivo Pessoal

Cris Oliveira

Do UOL, em São Paulo

Após o fim da licença-maternidade (que, no Brasil, é de quatro meses, podendo ser estendida a seis, se o empregador aderir ao Programa Empresa Cidadã, da Receita Federal), continuar amamentando requer planejamento. A tarefa costuma afligir muitas mulheres em um momento que já é delicado por implicar na separação de mãe e filho.

A legislação trabalhista em vigor ainda prevê dois intervalos para amamentação, de meia hora cada, durante a jornada de trabalho, até que a criança complete seis meses. Pausas inviáveis para a maioria das mulheres, por causa da distância a ser percorrida entre onde moram e trabalham, algumas mães usam os períodos para negociar com o empregador outros arranjos, como entrar uma hora mais tarde ou sair uma hora mais cedo.

“Juntei os dois intervalos, mais uma hora de almoço, e ia amamentar no meio do dia”, afirma a advogada Vivian Anne Fraga do Nascimento Arruda, mãe de Otávio, de sete meses. Ela montou um esquema para conciliar as mamadas com os horários em que estava em casa.

“Dava o peito de manhã, no meio do dia e de noite”, diz ela, que, por volta das 18h, ainda no trabalho, tirava o leite para o filho consumir no período em que ela estava fora. Essa é a saída encontrada pela maioria das mães que querem continuar dando leite materno para os filhos: o armazenamento.

“O leite materno pode ficar armazenado por até 15 dias no freezer ou congelador, segundo recomendação da Rede de Banco de Leite Humano”, afirma a pediatra Keiko Miyasaki Teruya, membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria). Segundo a médica, se o período de armazenamento ultrapassar os 15 dias, a mãe não precisa descartar o leite imediatamente.

“Mesmo que passe mais dias é sempre melhor esse leite do que o uso de outro, como as fórmulas infantis. Mesmo congelado, o leite materno continua com os mesmos nutrientes”, fala Keiko Miyasaki Teruya.

De acordo com a pediatra Maria José Guardia Mattar, também membro do departamento da SBP e consultora da área técnica de saúde da criança e aleitamento do Ministério da Saúde para São Paulo, como se trata do leite da mulher para o próprio filho, e não para doação nem para bebês prematuros internados, o leite pode ser utilizado até 30 dias após a data de congelamento. “Depois disso, ele já perde muitos dos seus nutrientes”, diz a médica.

Por causa da vida profissional muito intensa, a pediatra Marina Azevedo começou a estocar leite apenas cinco dias após o nascimento da filha, Gabriela, hoje com um ano. Após amamentar outras duas filhas –as gêmeas Larissa e Stela, de cinco anos–, a médica já estava mais preparada para o que estava por vir.

“Fiquei somente dois meses em casa e, durante esse período, todo o leite excedente que tirava era encaminhado para pasteurização e depois armazenado congelado”, fala a pediatra, que enviava o alimento  para o IMIP (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira), em Recife. A instituição ficava com 10% do leite enviado como doação e devolvia o restante pasteurizado para Marina, processo de aquecimento e resfriamento para eliminação de impurezas.

Para estocar, Marina, a cada mamada, amamentava a filha com um seio e tirava leite do outro para armazenar. Outras instituições, pertencentes à Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, assim como o IMIP, também oferecem o serviço de pasteurização. A Rede também disponibiliza informações sobre a melhor forma de coletar e de armazenar o leite materno.

O desenvolvimento do bebê até os dois anos

“A vantagem de pasteurizar e armazenar é que o leite pode ser utilizado por seis meses”, declara a pediatra Keiko Miyasaki Teruya. Mesmo com todos esses cuidados, Marina teve alguns percalços, pois a filha não gostava da mamadeira e, muitas vezes, ficava com fome esperando ela voltar para casa para mamar.

“Retornei no terceiro mês ao trabalho. Não foi fácil. Como o consultório é perto de casa, sempre optava por fazer horários menores e ir mais vezes em casa para dar o peito”, diz Marina, que não deu outro leite para a filha até os sete meses.

Os filhos de Andréa Cunha também foram amamentados exclusivamente com leite materno até os seis meses. Médica e mãe de Otto, seis anos, Olga, quatro anos, e Otávio, de 5 meses, ela não conseguiu ficar quatro meses de licença-maternidade, voltando ao trabalho 60 dias após o parto. Por ser profissional liberal, conseguiu fazer seus horários e amamentar o filho no peito, já que não se adaptou a retirar leite para armazenar.

Andréa amamentou os dois primeiros filhos até eles terem um ano e dois meses, experiência que pretende repetir com o caçula. A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda a amamentação até os dois anos de idade da criança.

Quem não consegue fazer a retirada e armazenar o leite materno, acaba tendo de fazer certos malabarismos para continuar amamentando. Cândida Broxado Marçal Pereira é médica e voltou da licença-maternidade quando a filha, Melissa, tinha seis meses. Como a bebê já estava comendo papinha, Cândida conseguiu conciliar as mamadas com as refeições que a filha fazia.

“Amamentava antes de sair para trabalhar. No meio da manhã, ela lanchava, depois almoçava e, em seguida, tomava suco. Eu ia almoçar sempre mais tarde, em casa, e, antes de voltar ao trabalho, dava o peito. De tarde, ela lanchava de novo e, assim que eu chegava em casa, no final do dia, amamentava antes de qualquer coisa. Depois, ela jantava e, antes de dormir, dava o peito mais uma vez", relata a médica, que ainda fazia questão de amamentar a filha de três em três horas durante a madrugada.

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